As caravanas do Amor (por Ibn Árabi)

Alhambra

Azulejos do Alhambra de Granada. Foto de Dmharvey.

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Meu coração tornou-se capaz de todas as formas:

É um pasto de gazelas, o convento do cristão,

Um templo para os ídolos, a Caaba do peregrino,

O rolo da Torá, o texto do Corão.

Sigo a religião do Amor.

Para onde quer que avancem as caravanas do Amor,

Lá é meu credo e minha fé.

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Nota

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De todos os versos que admiro, estes são, talvez, os que melhor expressem meus próprios pensamentos e sentimentos. Constituem um pequeno fragmento do poema número 11 do Tarjuman al-ashwaq (“O interprete dos desejos ardentes”), de Ibn Árabi. Recriei-os em português comparando diferentes traduções em línguas ocidentais e acrescentando ao resultado um toque pessoal. Vez ou outra, gosto de repeti-los para mim mesmo.

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O título não faz parte do poema original. Acrescentei-o porque era necessário intitular esta postagem. Sugerido por um dos versos, ele expressa bem esse movimento que inclui e transcende aparentes diferenças e vai muito além das definições convencionais.

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Abu Bakr Muhammad ibn Ali ibn al-Árabi, cognominado Muhyiddin, que, na língua árabe, significa “Vivificador da Fé”, foi um místico excepcional. Os sufis atribuíram-lhe o epíteto de ash-shaykh al-akbar, “o maior dos mestres”. Nasceu em 1165 em Múrcia, na Andaluzia muçulmana, e morreu em 1240, em Damasco, na Síria, onde seu corpo está sepultado até hoje.

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A tradição atribuiu-lhe cerca de 800 livros. Destes, mais de cem se preservaram e foram devidamente autenticados pelos estudiosos, com todos os recursos do aparato crítico contemporâneo. Seu opus magno, Al-futûhât al-makkiyya (“Os desvelamentos de Meca”) contém, na edição moderna em árabe, cerca de 15 mil páginas. Menos de dez por cento desse conteúdo gigantesco foi, até o momento, traduzido em línguas ocidentais. Outro tratado importante, de dimensão incomparavelmente menor, foi, este sim, traduzido e exaustivamente comentado. Refiro-me a Fusûs al-hikam (“Engastes das sabedorias”).

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Ao lado dessas duas obras monumentais, Tarjuman al-ashwaq (“O interprete dos desejos ardentes”) compõe a tríade dos livros mais famosos de Ibn Árabi. Diferentemente dos outros dois, porém, escritos em prosa ultradensa, impregnados de citações do Corão e dos Hadith (os ditos atribuídos ao profeta Muhammad), e redigidos com o uso abundante da terminologia técnica do tasawwuf (sufismo), o Tarjuman consiste em um conjunto de poemas, de aparência erótica, mas cuja natureza mais profunda, como o próprio autor ressaltou, é de substância espiritual.

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As várias figuras retóricas utilizadas nos versos referem-se às principais religiões presentes no contexto cultural em que viveu Ibn Árabi: o islamismo (“texto do Corão”), o cristianismo (“convento do cristão”), o judaísmo (“rolo da Torá”), o hinduísmo (“templo para os ídolos”). Menos compreensível talvez seja a referência ao “pasto de gazelas”. A explicação é que, nas religiões pagãs ancestrais do Oriente Médio, esses elegantes animais faziam parte do culto da Grande Deusa. E, nos prados e bosques dedicados à ela, podiam pastar livre e despreocupadamente.

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Escrevi há muito tempo um pequeno perfil de Ibn Árabi. Mas, depois de ler e reler o livro Ibn ‘Arabi ou la quête du Soufre Rouge, de Claude Addas, passei a considerar meu texto uma tentativa pueril. Para os interessados na biografia do grande místico, familiarizados com língua francesa, recomendo esse livro. Mas alerto de que se trata de uma obra altamente especializada.

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Quanto ao Tarjuman al-ashwaq, uma tradução completa para o inglês, feita pelo famoso orientalista britânico Reynold Nicholson em 1911, pode ser lida, na internet, em http://sacred-texts.com/isl/taa/index.htm

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