O nascimento dos desejos líquidos

ÁGUA

“Água” (foto de Márcia Micheli).

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Queria lhe entregar, coaguladas,

As espumas dos mares mais antigos.

Que você soubesse, em caixas,

Dos abismos de que dá conta o sal.

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Recortar, em cubos, a lembrança

Da umidade de tardes estendidas,

Da ostra que vibra entre cílios,

Nostálgica de lua e oceano.

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Preservar, geométrico, o registro

Do nascimento dos desejos líquidos,

Da memória pisciana em que mergulho,

Do labirinto de água em que me perco.

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Nota

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Este poema nasceu do título de um quadro de Salvador Dali. Considero o quadro muito ruim, como, de resto, toda a obra de Dali. Mas o título, “O nascimento dos desejos líquidos”, é genial. E ficou comigo desde a juventude, para se desdobrar em versos quando o sentimento latente encontrou um bom motivo para se expressar. Isso tudo aconteceu muito antes de eu saber da existência de Zygmunt Bauman.

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