Os deuses, segundo Sri Aurobindo

Atena 2

Atena, deusa da sabedoria no panteão grego.

A multiplicidade de deuses e deusas é — ou deveria ser — um desafio para quem se aproxima do yoga e, por isso, faz contato com as tradições espirituais indianas. Como entender esses entes? Simples produtos culturais, personificações de forças da natureza ou de conteúdos psíquicos humanos, como afirmam os materialistas ateus? Ilusões demoníacas, como diriam os fundamentalistas monoteístas?
Para quem não quer simplesmente rejeitar tudo, por preconceito, nem simplesmente aceitar tudo, por preguiça, as curtas frases a seguir podem ajudar. São excertos, que selecionei, das cartas de Sri Aurobindo aos seus discípulos. Essas cartas foram agrupadas por temas e subtemas e publicadas no livro Letter on Yoga.
Obviamente, tudo o que Sri Aurobindo afirma sobre os deuses e deusas do panteão indiano pode ser estendido aos deuses e deusas de outros panteões (iorubá, grego etc.).
Aqui vão as frases.
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Os Deuses existem – quer dizer que há Poderes, situados acima do Mundo, que transmitem a ação do Divino.
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Há Deuses em todos os planos.
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O aspecto dinâmico do Divino é o Supremo Brahman, não os Deuses. Os Deuses são
Personalidades e Poderes do Divino dinâmico.
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O mundo dos Assuras é anterior à Evolução, do mesmo modo que os mundos dos Devas Mentais, Vitais ou Físicos Sutis – mas esses entes são todos diferentes uns dos outros.
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Os Deuses maiores pertencem ao plano Sobremental; no Supramental, eles são unificados enquanto aspectos do Divino; no Sobremental, aparecem como Personalidades separadas.
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Toda Deidade pode descer, por emanação, sobre o Plano Físico, e se associar à evolução de um Ente Humano que tenha afinidades com ela por sua linha de manifestação.
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Os Deuses são, em sua origem e essência, emanações permanentes do Divino, projetados do Supremo pela Mãe Transcendente, Adi Shakti.
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Em seu aspecto cósmico, são os Poderes e as Personalidades do Divino, cada qual dotado e uma posição, uma atribuição e uma tarefa cósmicas no universo.
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Não são entidades impessoais, mas personalidades cósmicas, embora possam recuar e geralmente recuem para trás do movimento de forças impessoais.
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Enquanto no Sobremental e no Mundo Triplo eles aparecem como entes independentes, no Supramental eles retornam ao Um e lá, unidos em uma só ação harmoniosa, representam as múltiplas Personalidades da Pessoa Única, o Divino Purushottama.
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Deus existe, mas as concepções humanas de Deus são reflexos, na mentalidade do homem, tanto do Divino quanto de outros entes e poderes, e esses reflexos são o que a
mentalidade humana pode fazer com as sugestões que lhe vêm e que geralmente são
muito parciais e imperfeitas, na medida em que ainda são mentais, na medida em que o
homem não alcançou uma consciência mais elevada e verdadeira, uma consciência espiritual ou mística.
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Os Deuses existem previamente, eles não são criados pelo homem, embora este pareça concebê-los à sua imagem; fundamentalmente, ele formula, da melhor maneira que pode, todas as verdades que recebe da Realidade Cósmica.
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Um artista ou um bhakta pode ter uma visão dos Deuses e essa visão pode se estabilizar e generalizar na consciência da espécie humana; nesse sentido, talvez seja verdade que o homem dê formas aos Deuses; mas ele não inventa essas formas, ele registra o que vê; as formas que ele dá são aquelas que lhe são dadas.
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Quanto aos Deuses, o homem pode construir formas que eles aceitarão, mas essas formas são, elas também, introduzidas no mental do homem por uma inspiração vinda dos planos aos quais os Deuses pertencem.
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Toda criação tem dois aspectos, um com forma, outro sem: os Deuses também são sem forma e, no entanto, têm formas, aqui Maheshwari, lá Palas Atena. Maheshwari, ela mesma, possui numerosas formas em suas manifestações menores: Durga, Uma, Párvati, Chandi etc.
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Os Deuses não são limitados às formas humanas – e o homem não os viu sempre apenas sob a forma humana.
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