Amman Pranabananda

Pranabananda já em idade avançada. As fotos disponíveis sobre o grande iogue são, todas elas, de baixa qualidade. Segundo Nilakantan, ele ostenta agora a mesma aparência que tinha em seus anos maduros, mas com longos cabelos e barba.

Pranabananda já em idade avançada. As fotos disponíveis sobre o grande iogue são, todas elas, de baixa qualidade. Segundo Nilakantan, ele ostenta agora a mesma aparência que tinha em seus anos maduros, mas com longos cabelos e barba.

Para os praticantes da Kriya Yoga de Babaji, o swami Pranabananda é Amman, o terceiro imortal de Gauri Shankar Pitam [1]. Renascido pouco tempo depois de seu mahasamadhi, em 1918, ele teria se reunido aos iogues sumamente avançados que gravitam em torno do Satguru no misterioso ashram do Himalaia. Seu novo nome espiritual, Amman, é evocado, depois dos de Babaji e Mataji (Annai), no penúltimo verso do Dipam, a Canção da Saudação ao Sol. Milhões de pessoas em todo o mundo todo já leram acerca de Pranabananda na Autobiografia de um iogue, de Paramahansa Yogananda. Em meio à pletora de ascetas miraculosos mencionados nas inspiradoras páginas do livro, Pranabananda é aquele que recebeu do autor a alcunha de “o santo com dois corpos”. Não pretendo repetir aqui as informações veiculadas por Yogananda. Por mais que me esforçasse, jamais conseguiria preservar o viço do testemunho em primeira mão do relato original. Ademais, a Autobiografia de um iogue está disponível em qualquer livraria. Mas existem outras fontes de informação acerca do grande adepto. Uma delas é a pequena e rústica biografia escrita por Sri Jnanendranath Mukhopadyay. Seu pai foi discípulo direto de Pranabananda e ele mesmo recebeu iniciação do mestre depois que o pai morreu. Porém, tendo conhecido Pranabananda em época bem tardia e desfrutado apenas esporadicamente de sua presença, veicula dados que lhe foram passados por outros e que ele interpretou segundo seu ponto de vista. Mesmo assim, e apesar das inconsistências causais e da redação deficiente, seu texto, publicado como prefácio à Pranab Gita, o comentário de Pranabananda à Bhagavad Gita [2], é uma fonte preciosa. Utilizei muitas de suas informações, complementadas por outras pesquisas, para escrever este breve perfil [para o melhor entendimento dos termos sânscritos, ver o glossário no final deste artigo]. O que mais me chamou a atenção na trajetória de Pranabananda foi perceber como a estrada que leva um grande iogue à autorrealização pode atravessar territórios totalmente anticonvencionais e até bizarros. E também como enormes dificuldades podem ser vencidas por meio de uma força de vontade inquebrantável.

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O renascimento espiritual da Índia

Sri Jnanendranath Mukhopadyay não informa o nome de infância de Pranabananda. E também não diz em que dia, mês e ano ele nasceu. Afirma que tinha de 70 a 75 anos quando alcançou o mahasamadhi. Como isso aconteceu no ano de 1918, deduz-se que tenha iniciado sua prévia existência terrena entre 1843 e 1848. Veio a este mundo em um século caracterizado pela intensa revivescência espiritual da Índia. Apenas como curiosidade, seguem, em sequência cronológica, as datas de nascimento de alguns notáveis expoentes da espiritualidade indiana contemporânea: 1828 (Lahiri Mahasaya), 1830 (Keshabananda), 1836 (Ramakrishna), 1855 (Yukteswar), 1863(Vivekananda), 1863 (Kebalananda), 1872 (Aurobindo), 1873 (Rama Tirtha), 1879 (Ramana Maharshi), 1887 (Sivananda), 1893 (Yogananda), 1896 (Anandamayi Ma). Nesse mesmo século XIX, em um ano ignorado, nasceu o Sai Baba de Shirdi, cujo mahasamadhi também foi atingido em 1918. Pranabananda (vamos chamá-lo assim desde já, embora ele só tenha recebido esse nome espiritual muito mais tarde) desceu à matéria em uma aldeia rural de Bengala, a menos de cem quilômetros de Kolkata (Calcutá), em uma família localmente importante da casta dos brâmanes. Seu pai era inspetor de polícia e, por dever profissional, residia parte do tempo em Kolkata. Por isso, o menino foi criado principalmente pela mãe, sob a guarda de um tio, irmão mais velho do pai. Mukhopadyay afirma que, desde muito cedo, Pranabananda deu mostras de inteligência, simpatia e generosidade. Era amado por todos, independentemente de gênero, idade e condição social. Mas, a despeito de suas aptidões, jamais foi um aluno aplicado. E, posteriormente, abandonou os estudos formais de vez. Mais tarde, conforme descreveremos adiante, abandonaria também o emprego e o casamento. Posso estar enganado, mas considero essas três demissões bastante reveladoras. É muito difícil, senão impossível, perscrutar o mundo interior de um indivíduo. Não sabemos nem de nós mesmos, quanto menos de alguém cujo vulto vislumbramos ao longe, para além das pesadas brumas do espaço, do tempo e do contexto cultural. Ao descrever seus encontros com Pranabananda e transmitir o que outros disseram a seu respeito, Yogananda enfatiza o comportamento sobrenatural do iogue realizado. Mukhopadyay, por outro lado, se atém a fatos exteriores e incidentes triviais da vida do homem. Buscando um ponto médio entre as duas narrativas, tento imaginar as motivações mais íntimas desse grande adepto, as linhas de força que condicionaram sua trajetória. A ideia que me ocorre é a de alma altamente dotada, um iogue nato, um viajante que já chegou a este planeta com um longo histórico de aquisições espirituais na bagagem. Para alguém assim, e principalmente quando a sadhana ainda não se estabilizou, as convenções sociais e as rotinas cotidianas, que fascinam o indivíduo mediano e consomem toda a sua atenção, devem constituir desvios de rota muito difíceis de suportar. Que Pranabananda já fosse desde o início esse fruto maduro, pronto para ser colhido, atesta-o não apenas a extraordinária realização que alcançou em vida, mas também a afirmação de seu futuro guru, Lahiri Mahasaya, de que ele teria sido, em encarnação prévia, um grande rishi, um luminar do caminho espiritual.

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Devoção, música e drogas

O tio de Pranabananda era um brahmin devoto, que cultuava o Shivalingam e recitava os shastras. Essa vibração devocional doméstica encontrou eco na alma do menino, fazendo ressoar em seu jovem peito uma antiga nota. Depois de receber seu cordão sagrado [3], provavelmente aos oito anos de idade, conforme a tradição, o pequeno passou a adorar diariamente Shiva e Vishnu e tornou-se um entusiasmado cantor da tradução, em língua bengali, do grande épico Mahabharata. A vocação espiritual desabrochou nele juntamente com o gosto pela música. Anos mais tarde, em companhia de outros garotos da aldeia, ele formou uma banda, dedicada à execução de yatras. Para desenvolver seu talento, buscou a orientação de um professor de música. Mas esse homem era um usuário de haxixe e ópio, que consumia sem restrições durante as aulas. Em sua companhia, o aluno acabou – ele também – tornando-se dependente. Foi nesse momento delicado que sua mãe morreu – fato que provocou um forte desequilíbrio na família. Pranabananda tinha então cerca de 20 anos e abandonou a escola inglesa para levar uma vida desregrada. Usava drogas, não estudava, e gastava seu dinheiro ajudando os pobres ou pagando as despesas dos amigos. Tal comportamento provocou um sério conflito com o pai. Repreendido, o jovem abandonou a casa paterna, em busca de seu próprio caminho. Depois de perambular por várias localidades, a começar pela cidade santa de Varanasi (Benares), arrumou emprego na rede ferroviária, que colonialismo britânico introduzira na Índia, e que até hoje constitui uma das instituições que melhor funcionam no país. Logo aprendeu telegrafia e tornou-se o funcionário favorito do supervisor inglês, sendo promovido a chefe da estação de Samastipur, no estado de Bihar. Manteve, porém, seu comportamento heterodoxo, gastando o que ganhava em música, dança, haxixe, ópio e esmolas aos pobres e sannyasis. Além disso, em sua busca ainda errática de autorrealização por caminhos não convencionais, arrumou um mestre tântrico que o introduziu na prática da meditação com cadáveres. Embora repulsiva para a sensibilidade ocidental contemporânea, a meditação com ossos humanos ou no cenário macabro dos crematórios é uma tradição bem estabelecida no corpo multifacetado da espiritualidade indiana. Há linhagens inteiras que se dedicam a isso. E mesmo ascetas que não pertencem a essas escolas eventualmente recorrem a tais exercícios, para se lembrar da impermanência do mundo fenomênico e desenvolver a equanimidade diante dos múltiplos aspectos da existência. Até Yogananda, que anos mais tarde elaboraria um formato de yoga capaz de ser aceito na conservadora e preconceituosa sociedade norte-americana da primeira metade do século XX, chegou a meditar com ossos humanos na fase inicial de sua sadhana. No caso de Pranabananda, essa prática bizarra durou pouco. Ele logo a abandonou. Assim como, algum tempo depois, abandonou também o emprego. A despeito do muito que o valorizavam seus superiores, em especial o supervisor inglês, que condescendia com todas as suas excentricidades (como o hábito de não cortar os cabelos, a barba e as unhas, à maneira dos ascetas renunciantes), um urgente impulso de busca fez com que, em um belo dia, sem pedir permissão nem avisar, ele simplesmente deixasse o trabalho, e partisse em peregrinação.

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A iniciação em Kriya Yoga

De lugar santo em lugar santo, chegou ao célebre santuário shivaísta de Pashupatinath, no Nepal. O telégrafo estava sendo, então, introduzido naquele reino remoto. E o marajá precisava de alguém que dominasse a nova tecnologia. Ao saber das habilidades de Pranabananda, tratou de retê-lo por todos os meios, inclusive oferecendo-lhe em casamento uma jovem nepalesa. Quando percebeu o rumo dos acontecimentos, o futuro swami abandonou o Nepal tão rapidamente quanto pôde e voltou para Varanasi. Lá, encontrou finalmente o que procurava, ao se prostrar diante do grande iogue Lahiri Mahasaya e receber iniciação em Kriya Yoga. Depois de permitir que seu jovem discípulo saciasse em parte sua imensa sede espiritual, meditando nas montanhas isoladas, Lahiri Mahasaya o mandou de volta ao emprego e à casa do pai. Em ambos os lugares, Pranabananda foi recebido de braços abertos. E não pôde dizer “não” quando o pai, movido pelo mais indiano dos valores, o senso de continuidade da família, lhe pediu que casasse. Ele era o único filho homem e, se não gerasse descendentes, poria fim à linhagem familiar. O jovem aceitou participar de um casamento arranjado, à maneira tradicional. A noiva foi escolhida com base em critérios de casta, de família e de afinidades astrológicas. No entanto, todas essas providências teriam efeito limitado, pois, embora o matrimônio viesse a premiar Pranabananda com um casal de filhos, tal arranjo não estava destinado a durar, como veremos adiante. Antes disso, porém, o grande adepto agarrou com mão firme as rédeas da vida familiar e profissional. Trabalhava com afinco para sustentar a mulher, os filhos e outros parentes. Nas horas vagas, voltou a se relacionar com seus antigos companheiros de música, divertimento e vício. Porém, sempre que podia, dirigia-se a Varanasi, para o darshan de Lahiri Mahasaya. Sua grande aspiração era poder residir perto do guru. E, um dia, o mestre lhe disse que todas as “preparações” haviam sido feitas para que isso ocorresse. Na sequência, o discípulo recebeu, e mais do que depressa aceitou, o convite para chefiar uma estação ferroviária próxima a Varanasi. A esposa e os filhos permaneceram na aldeia ancestral, na residência da família dela. Com a morte do pai, Pranabananda assumiu, conforme o costume indiano, a responsabilidade por todos os seus familiares. Mas, seja pelo peso dos deveres mundanos, seja pela insatisfação de um anseio espiritual apenas parcialmente atendido, seja pela própria dinâmica insidiosa do vício, mergulhou ainda mais fundo no abismo da dependência. E passou a consumir, diariamente, grande quantidade de haxixe e ópio. A contradição entre os exercícios espirituais, que projetavam sua consciência para cima, e as drogas, que a empurravam para baixo, cresceu proporcionalmente em seu interior. Como podia aspirar à autorrealização se não conseguia dominar a si mesmo?

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Enfrentando os horrores do inferno

Foi nesse contexto angustiante que, certo dia, quando seu professor de música lhe pediu que enchesse o cachimbo para ambos, uma decisão imperiosa irrompeu e ganhou forma em sua consciência. Sentindo profunda aversão por sua condição de dependente, ele falou em tom solene ao professor: “Foi você que me iniciou nas drogas. Então, diante de você, que tomo por testemunha, eu juro deixá-las para sempre”. O professor riu com sarcasmo e disse: “Veremos quão forte é sua vontade. Você não conseguirá deixar essa coisa. Não nesta vida”. Pranabananda virou-lhe as costas. Na manhã seguinte, açoitado pela síndrome de abstinência, não teve forças para levantar da cama. Nos dias subsequentes, vivenciou os horrores do inferno. Ao ser informado de sua condição, seu chefe foi visitá-lo. E encontrou um indivíduo engolfado em um turbilhão de sintomas físicos e emocionais, um náufrago que se agarrava à única corda que o Destino oferece ao ser humano em uma situação dessas: a força de vontade. “Querem me dar remédio que contém ópio. Mas eu prefiro morrer a tocar em ópio novamente”, disse-lhe Pranabananda. Sensibilizado por sua determinação, o chefe o encorajou a manter seu juramento, concedeu-lhe licença por tempo indeterminado, e prometeu pagar todas as suas despesas médicas. Depois de passar um mês acamado e superar sofrimentos inomináveis, o grande adepto recuperou a saúde, e, conforme jurara, jamais consumiu drogas outra vez. O dia seguiu a noite, as estações se sucederam, e, em dado tempo, uma cheia do Ganges carregou a casa que Pranabananda herdara do pai. O adepto, que previra o inevitável desastre, havia tomado providências antecipadas. Escolhera um bom lugar e enviara dinheiro ao sogro para que lhe construísse outra habitação ali. Porém o sogro se apropriou da maior parte dos recursos. Construiu uma grande casa para si mesmo e uma casinha com apenas dois cômodos para o genro e sua família. Esse comportamento desonesto criou um abismo intransponível entre os dois homens. Pranabananda exigiu que sua esposa e filhos deixassem a casa do sogro e viessem morar com ele, perto de Varanasi. Mas a mulher era muito apegada ao pai e, bem de acordo com o figurino tradicional indiano, possuía vínculos mais fortes com a família de origem do que com o marido. Recusou-se a partir, o que ocasionou o fim do casamento. O adepto, que sempre sentira forte atração pela vida de renúncia, mas fora impedido de se tornar sannyasi por Lahiri Mahasaya, não tinha agora nada que o impedisse. Livre das obrigações matrimoniais, pediu e recebeu iniciação na antiquíssima ordem monástica dos swamis, fundada, no século IX d.C., por Adi Shankaracharya. Seu iniciador foi Adhiswara Srimat Swami Atmananda Giri Maharaj. Depois de iniciado, Pranabananda passou a dividir sua atenção entre dois mestres: seu sannyas-guru Atmananda e seu yoga-guru Lahiri Mahasaya. Conforme relatou muitos anos mais tarde a Yogananda, foi graças à intervenção oculta de Lahiri Mahasaya que obteve sua aposentadoria precoce no sistema ferroviário. O texto de Mukhopadyay informa que essa pensão era modestíssima, mesmo pelos padrões da época: apenas sete rúpias mensais (o que, pelo câmbio atual, que evidentemente não pode ser utilizado, mas permite uma estimativa, dá menos de 13 centavos de dólar por mês). Apesar do valor irrisório, o grande adepto ficou contentíssimo, pois, levando uma vida totalmente despojada, podia, com essa pensão vitalícia, dedicar todo o seu tempo e energia às práticas espirituais. Fez rápidos progressos e, em pouco tempo, alcançou o status espiritual de paramahansa.

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Um encontro extraordinário

A sequência cronológica da biografia escrita por Mukhopadyay não é precisa. Mas imagino que, antes da plena realização espiritual, quando ainda estava maravilhado com o ingresso na ordem dos swamis, Pranabananda teve o encontro mais extraordinário de sua vida. Ele sempre escutava Lahiri Mahasaya falar maravilhas de seu próprio guru, o incomparável Babaji. E muitas vezes manifestou sua ardente aspiração de conhecer pessoalmente o misterioso iogue. Lahiri Mahasaya o tranquilizava, dizendo que a oportunidade chegaria, no devido tempo. Em uma de suas visitas matinais à residência de Lahiri Mahasaya, ele estava sentado ao lado do mestre, quando, por volta das nove horas, um jovem, que aparentava não ter mais de 24 ou 25 anos, entrou no pátio. Para Pranabananda, que vestia com orgulho o traje alaranjado dos swamis, o desconhecido pareceu uma pessoa sem a menor importância. Sua pele morena, seus pés descalços, sua única peça de roupa, um dhoti branco de algodão rústico, enrolado em torno da cintura e cuja borda ele segurava com ambas as mãos, faziam com que parecesse um simples camponês. Quão surpreso não ficou o swami ao ver o já idoso Lahiri Mahasaya levantar imediatamente do assento, correr para o pátio e se prostrar aos pés do recém-chegado. “Pranab”, disse-lhe o mestre, “este é Babaji, de quem tantas vezes eu lhe falei! É ele! Meu guru! Prostre-se diante dele”.  Ao que Pranabananda também correu e fez pranam. Depois disso, Pranabananda, seu guru e seu paramaguru iniciaram uma animada conversação, brincando e rindo alto. Mukhopadyay relata três diálogos mantidos por Pranabananda e Babaji nessa ocasião. Esses diálogos foram reproduzidos, depois, por vários autores. Traduzo aqui, palavra por palavra, apenas um deles, que considero o mais divertido e também o único que é autossuficiente e não requer informações adicionais ou interpretações para ser compreendido. Pranabananda: Por que você se veste como um não-sadhu (uma pessoa comum)? Babaji (gargalhando): Estou muito bem vestido assim. Ninguém deseja ou sente necessidade de saber quem eu sou ou o que eu faço. Por causa disso, posso caminhar livremente, sem obstáculos, e meu coração também se sente livre. Vocês se tornam sadhus e ficam como um boi marcado. Onde um boi marcado vai, os garotos correm atrás, atirando pedras, e entoando canções tolas: “Ei grande boi gordo!”. E, então, o boi começa a berrar alto. Assim como esse boi, aonde vocês vão, com suas roupas tingidas, as pessoas ficam sabendo que vocês são sannyasis e correm atrás. Uns dizem coisas ruins, outros dizem coisas boas. Uns querem o seu conselho, outros querem que os curem. Eles se juntam. E o que não são capazes de fazer quando estão juntos! E, então, vocês ficam tão orgulhosos de serem sadhus que sua mente começa a berrar como aquele boi. Mas ninguém me chama de sadhu, ninguém quer nada de mim. Agora, diga: qual roupa é melhor, a sua ou a minha? Alguns dias depois desse encontro, Pranabananda compareceu, em companhia de seu sannyas-guru Atmananda, à Kumbha Mela de Prayag (Allahabad). E, nesse grande evento multirreligioso, voltou a encontrar Babaji.

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O santo realizado

Com o passar dos anos, a fama da realização espiritual de Pranabananda difundiu-se pela Índia. Devotos ou aspirantes a discípulo de todo o país acorriam a ele, em busca do darshan ou da iniciação. Um de seus maiores admiradores foi Fateh Singh Bahadur, o marajá de Udaipur. Todos os dias, bem cedo, esse poderoso soberano o visitava para prestar suas homenagens. Em uma dessas visitas, o marajá se queixou de não ter ninguém em quem pudesse confiar plenamente. E pediu-lhe um bom conselho. “Rei, vou lhe dar o melhor de todos os conselhos”, disse Pranabananda. “Lembre-se sempre de que você vai morrer”. Ao ouvir isso, o marajá se prostrou a seus pés. E comentou: “Você me deu um conselho perfeito. Ninguém até hoje havia tido coragem de me dizer uma coisa como esta”. Por insistência do marajá, o grande adepto permaneceu em Udaipur durante anos. E só conseguiu partir para Varanasi, como era seu desejo, depois de prometer ao soberano que estaria sempre disponível para atender a um pedido seu. Esse pedido não tardou, pois o filho do marajá contraiu uma séria enfermidade, ficando com as duas pernas paralisadas, sem que nenhum médico soubesse o que fazer. Informado do caso, Pranabananda realizou, em Varanasi, uma cerimônia do fogo, de acordo com os antigos preceitos védicos, para “pacificar os planetas” e devolver a saúde ao príncipe-herdeiro. Muitos brahmins eruditos compareceram a essa yagna, depois da qual, em pouco tempo, o sucessor do trono de Udaipur ficou completamente curado. Tendo recebido do marajá uma propriedade às margens do Ganges, em Varanasi, Pranabananda a transformou em um ashram, onde passou a residir, junto com numerosos discípulos. Com o avanço da idade e a deterioração de suas condições físicas, e depois de visitar várias cidades, onde concedeu seu darshan aos devotos, Pranabananda viveu os derradeiros dias em Rishikesh, em um alojamento na confluência dos rios Chandrabhaga e Ganges. Acompanhava-o seu principal discípulo, Sananda. Foi este que relatou a Yogananda o ato final da vida do grande adepto. Com a ajuda de Sananda, Pranabananda preparou uma refeição para mais de duas mil pessoas. Depois de alimentar toda essa gente, e diante dos olhos da multidão, realizou o antigo ritual por meio do qual os iogues realizados deixam voluntariamente o corpo e entram em mahasamadhi. Ao apavorado Sananda, que suplicava ao guru que não partisse, Pranabananda prometeu que voltaria em breve, para se reunir a Babaji no Himalaia. Sua promessa foi cumprida. O venerável swami Keshabananda atestou seu renascimento. E o jornalista, escritor e grande discípulo Nilakantan, que visitou o ashram de Babaji no início dos anos 1950, encontrou Pranabananda, renomeado Amman, entre os abençoados moradores de Gauri Shankar Pitam. Segundo Nilakantan, sua aparência era praticamente idêntica à da encarnação prévia, com a diferença de que, agora, usava, à maneira dos siddhas, longos cabeços e barba. Aos demais moradores e visitantes, Amman Pranabananda prestava especial ajuda na orientação de uma técnica específica de meditação, que proporciona aos praticantes as mais altas aquisições intelectuais.

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Glossário

Ashram – Moradia de um iogue. Eremitério. Brahmin – Membro da casta dos brâmanes, tradicionalmente devotada aos assuntos espirituais. Darshan – Vislumbre. Graça que se obtém pela simples visão de uma deidade, santo ou guru. Pode ser alcançada pela observação direta ou pela contemplação de uma estátua, pintura, fotografia etc. Dhoti –Traje masculino que consiste em uma simples peça retangular de pano, enrolada em torno da cintura. Kumbha Mela – Festival do Pote. É o maior encontro multirreligioso do mundo. Ocorre quatro vezes a cada 12 anos, em um sistema de rodízio por quatro cidades sagradas da Índia: Prayag, Ujjain, Nasik e Haridwar. Os pontos altos das comemorações, que, em cada localidade, se estendem por vários meses, são os banhos rituais no Ganges. O festival recorda um tema comum a várias mitologias: a guerra cósmica entre os devas (deuses) e os asuras (titãs). Durante a batalha pelo pote de amrita (o néctar da imortalidade), quatro gotas do precioso líquido teriam caído na Terra, nas localidades mencionadas. Segundo a tradição, o poder dessas gotas seria realçado, ciclicamente, devido a intricadas configurações astrológicas. Os chamados “grandes banhos” ocorrem nessas datas propícias. Mahasamadhi – Grande Êxtase. Saída consciente do corpo físico, que os iogues realizados executam na hora da morte. Paramaguru – Guru do guru. No caso, Babaji, guru de Lahiri Mahasaya, por sua vez guru de Pranabananda. Paramahansa – Supremo Cisne. Não é um nome, mas um título, atribuído aos mestres que alcançam a iluminação espiritual. Alude à capacidade do cisne de transitar entre os diferentes “elementos” (a terra, a água, o ar) sem se apegar a nenhum deles. Ramakrishna e Yogananda foram os mais famosos iogues dos tempos modernos que receberam esse título. Pranam – Prostração. Ato de reverência diante de uma deidade, santo ou guru. É usual tocar os pés da pessoa ou da imagem reverenciada. Rishi – Iogue que atingiu a realização divina e cujo conhecimento e as palavras procedem diretamente de Deus. Sadhana – Conjunto de práticas espirituais. Caminho de autorrealização. Sadhu – Homem santo, profundamente engajado no caminho espiritual. Sannyas-guru – Mestre na senda da renúncia. Sannyasi – Asceta. Aquele que renuncia à vida mundana para se dedicar inteiramente ao caminho espiritual. Satguru – Verdadeiro Guru. Mestre totalmente realizado. Shastra – Texto canônico. Neste artigo, o termo alude às Escrituras Sagradas do hinduísmo. Shivalingam – O Falo de Shiva. Objeto de formato fálico que representa Shiva de maneira não antropomórfica. Siddha — Iogue perfeito. Swami – “Aquele que está ancorado no Eu Verdadeiro”. Asceta iniciado na ordem monástica fundada, no século IX d.C., por Adi Shankaracharya. Yagna – Fogo Sacrificial. Yatra – Espécie de ópera folclórica que tem por enredo motivos mitológicos ou tirados das narrativas de caráter espiritual. Yoga-guru – Mestre na senda do yoga.

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Notas

[1] Informações sobre Gauri Shankar Pitam estão disponíveis em The Voice of Babaji: a trilogy on Kriya Yoga, 2nd edition, by V.T.Neelakantan, S.A.A. Ramaiah and Babaji Nagaraj (Babaji’s Kriya Yoga Publishers, 2003). E também em Babaji e os 18 Siddhas: a tradição da Kriya Yoga, 2ª edição, por M. Govindan Satchidananda (Babaji’s Kriya Yoga Publishers, 2012). [2] Condensed Biography by Sri Jnanendranath Mukhopadyay, direct disciple of Swami Pranabananda. Taken from “Introduction to Pranab Gita”. English translation by Yoga Niketan Team for Yoga Niketan, done with permission and blessings of Sri Jnanendranath Mukhopadyay. Disponível em https://sites.google.com/site/sanaatanniketan1/books/life-sketch-of-swami-pranabananda [3] O Upanayanam (outorga do cordão sagrado) equivale, no hinduísmo, ao Bar Mitzvá do judaísmo: é o rito de passagem que assinala a maioridade espiritual do indivíduo. A diferença é que o Upanayanam ocorre por volta dos oito anos e o Bar Mitzvá aos 13. Antes reservado apenas aos meninos das classes altas, o Upanayanam foi estendido depois a outras classes. E, embora isso ainda seja raro, também às meninas. No judaísmo, o Bat Mitzvá, iniciação das meninas, realizado aos 12 anos, tornou-se frequente nos tempos recentes.

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Sobre Babaji, paramaguru de Pranabananda: https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/02/16/babaji-o-grande-avatar-de-nossa-era/ Sobre Adi Shankaracharya, fundador da ordem dos swamis: https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/02/16/shankaracharya-e-o-advaita-indiano/

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