O Vaso (um poema de Kabir)

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Vaso criado por Hermann Gretsch. Foto: Oimel

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A escuridão da noite desce, densa e profunda,

Mas sobre a cabeça a luz do amor se derrama.

Abre a janela e perde-te na imensidão estrelada.

Bebe do mel que o lótus de teu coração emana.

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Percebe quebrarem-se em ti as ondas do mar.

Escuta o zumbido dos búzios em teu interior.

Recolhe-te. Aquieta-te. Conserva-te no lugar.

Tu és o vaso no qual viceja, eterno, o Senhor.

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Nota explicativa

Este é o 23º dos 100 poemas de Kabir que recriei em português e que foram publicados em livro (Kabir: Cem PoemasAttar Editorial, 2013). Como os demais poemas da coleção, ele não tem título. Para facilitar sua identificação, achei conveniente atribuir-lhe um título nesta postagem.

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Além da beleza poética, as várias imagens evocadas no poema possuem sentidos precisos no contexto do yoga. O “lótus do coração”, que emana o doce mel, seria o chakra anahata, localizado no centro do peito e considerado a sede daquela instância de nosso ente total que Sri Aurobindo chamou de “ser psíquico”. As “ondas do mar”, que se quebram no corpo, seriam os fluxos do prana ou energia sutil. O “zumbido dos búzios”, que cresce no interior, seria uma metáfora de Aum, a Mãe de Todos os Sons.

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Os dois últimos versos ecoam a famosa sentença do Salmo 46: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”.

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