Aum (um poema de Kabir)

MAR_AUM

Crepúsculo em Palomino. Colômbia, 2018. Foto: JTA

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Todas as coisas são criadas por Aum.

Seu corpo é pura beatitude, puro gozo.

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Infinito, ele é um abismo insondável.

Incorruptível, é eterno, sempre novo.

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Sem forma, assume formas incontáveis

Aos olhos afortunados de quem o vê.

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Extático, dança em louco arrebatamento.

De sua dança, nascem miríades de entes.

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O corpo, a mente não podem se conter,

Quando escutam o seu som não percutido.

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Imerso em tudo o que começa e finda,

Ele mesmo é sem começo e sem fim.

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Alegria e tristeza são espumas que se vão.

Ele é o oceano da felicidade permanente.

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Nota explicativa

Na alta espiritualidade indiana, Aum (o “som primordial” ou “som não percutido”) é considerado a primeira manifestação substantiva de Deus. Não a “voz de Deus”, como às vezes se diz. Mas o próprio Deus, manifestando-se como movimento, oscilação ou vibração. Também não o som na acepção material da palavra. Mas o protossom, extrafísico ou metafísico, que somente após muitas “veladuras” poderá ser apreendido como som no plano sensível.

Em tal esquema, Deus é, primordialmente, Parashiva, que corresponde ao Brahman ou Parabrahman do vedanta. Parashiva é a Realidade Absoluta. Indescritível, inimaginável, inconcebível, constitui o supremo mistério.

Um incompreensível “impulso instaurador” (spanda) faz com que Parashiva “irrompa” de sua completa autoimersão e, “extrovertendo-se”, se manifeste como Shiva, a pura consciência, a pura potência, o puro auspício – o saber ser, o poder ser, o querer ser, mas ainda não o ser.

Se Parashiva é o inefável, Shiva, seu primeiro tattva ou manifestação, é a suprema quietude, na qual o cosmo inteiro repousa, em um estado puramente potencial e incriado. O “impulso instaurador”, porém, continua. E Shiva, “avivando-se”, manifesta-se como Shakti, o segundo tattva, que é o poder de expressão, o poder de atuação, o poder de objetivação – capaz de, a partir do saber ser, do poder ser, do querer ser, produzir efetivamente o ser.

Parashiva, Shiva e Shakti constituem a Suprema Tríade, a Santíssima Trindade, os três momentos do Divino, que precedem qualquer fenômeno e o próprio ser. O ser e, a partir dele, toda a realidade fenomênica só irão se efetivar, graças aos poderes da Shakti, por meio de Aum, o verbo primordial.

De forma apenas alusiva e grosseira, poderíamos representar Parashiva, inteiramente ensimesmado, por meio do “grande ponto” (mahabindu). Shiva, que constitui uma expansão infinita, mas puramente virtual, de Parashiva, seria algo como um oceano vazio, que contém, no entanto, todas as possibilidades metacósmicas e cósmicas. No domínio da Shakti, e por meio de Aum, que é a manifestação de seu poder instaurador, o oceano vazio se enche de “luz imaculada” e se transforma no oceano de beatitude (Ananda).

Tornam-se presentes, então, as três características que constituem o Divino Manifesto: Sat (ser), Chit (consciência) e Ananda (beatitude). A partir de Sat-Chit-Ananda ou Satchidananda (que é a contração dos três termos), e mediante uma sucessão de “veladuras” (tattvas), a realidade material é, finalmente, produzida.

Este é mais um dos 100 poemas de Kabir que recriei em português a partir da famosa tradução inglesa de Rabindranath Tagore (1861 – 1941). Postei alguns desses poemas no blog. O conjunto completo pode ser lido no livro Kabir: Cem Poemas (Attar Editorial, 2013).

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