Mais versos do Tirumandiram

Tirumular 3

O siddha Tirumular

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INTRODUÇÃO

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Esta postagem dá sequência à anterior, com a publicação de mais sete estrofes do Tirumandiram. A importância dessa obra, a identidade de seu autor e o contexto que a informa foram tratados na introdução à postagem anterior. Leia em https://josetadeuarantes.wordpress.com/2019/12/06/excertos-do-tirumandiram/.

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Aqui, devo dizer algumas palavras sobre estes excertos em português.

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O Tirumandiram foi escrito no idioma tâmil, provavelmente entre os séculos IV d.C. e VI d.C. Até recentemente, essa obra preciosa e monumental esteve fora do alcance dos leitores de línguas ocidentais.

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Uma primeira tradução para o inglês, mais poética, foi feita pelo doutor B. Natarajan. Uma segunda tradução, considerada mais precisa do ponto de vista técnico, foi feita por uma equipe de acadêmicos liderada pelo professor T.N. Ganapathy. As duas traduções em língua inglesa foram publicadas por Babaji’s Kriya Yoga and Publications. E podem ser adquiridas em https://www.babajiskriyayoga.net/english/bookstore.htm

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Para recriar estes excertos em português, comparei as duas traduções. E, preservando o rigor conceitual, procurei, tanto quanto possível, chegar a uma forma poética aceitável.

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As notas explicativas, que escrevi para a postagem anterior e para esta, baseiam-se, em parte, nos comentários que acompanham a segunda tradução, e, em parte, em minhas pesquisas pessoais.

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Composto por 3.047 estrofes de quatro versos (cada qual denominada Mândiram em tâmil), o Tirumandiram está estruturado em nove volumes (cada qual denominado Tândiram em tâmil). Os versos que escolhi traduzir fazem parte do Tândiram 4, que é um dos mais esotéricos.

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Para os interessados em saber mais a respeito, sugiro a leitura de um ensaio escrito por meu professor, Govindan Satchidananda, publicado em http://www.thirumandiram.net/tirumandiram-about-the-book.html

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OS VERSOS

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Mândiram 885

Com uma letra, Ele tornou-se mundos;

Com o casamento de duas letras, Ele tornou-se dois;

Com três letras, Ele brotou como uma chama;

Com a sílaba Ma, a perplexidade veio ao Ser.

Nota explicativa

“Uma Letra” refere-se ao A (Akaram), que representa Shiva. “Duas Letras” correspondem ao A (Akaram) e ao U (Ukaram): Shiva e Shakti. “Três Letras” – A (Akaram), U (Ukaram) e M (Makaram) – compõem a sílaba AUM, a primeira manifestação substantiva do Divino. “Ma” refere-se a Maya, o princípio de relativização, indispensável para a produção da realidade fenomênica.

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Mândiram 887

Ponnambalam, de assombro e beatitude,

Lugar em que o Divino dança o Tândava,

A Dança do dilúvio e da resolução,

A Dança de suas múltiplas atividades.

Nota explicativa

A palavra Ponnambalam, que pode ser traduzida como “Vasto Espaço Dourado”, refere-se, no Plano Físico, ao Sancta Sanctorum do Templo de Chidambaram, que abriga a estátua de Shiva como Nataraja, o Bailarino Cósmico. No Plano Sutil, o Ponnambalam corresponde ao Vettaveli – Vasto Espaço Dourado ou Vasto Espaço Luminoso –, que pode ser visualizado interiormente em estado intensificado de consciência.

Tândava é a Dança de Shiva.

A expressão “múltiplas atividades” refere-se à Panchakriya, as Cinco Ações Divinas, representadas pelas mãos e os pés da estátua do Shiva Nataraja: Criação (mão direita superior), Manutenção (mão direita inferior) e Destruição do Cosmo (mão esquerda superior) e Obscurecimento (pé direito) e Esclarecimento (pé esquerdo) da Consciência. O sexto gesto representado na estátua (mão esquerda inferior) é o mudra Gajahasta (Tromba do Elefante), que não constitui uma atividade específica, mas aponta as cinco atividades mencionadas anteriormente.

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 Mândiram 889

No Ápice do Empíreo, Ele expressa-se como Tattva;

Ele, o Senhor, expressa-se como Akaram e Ukaram.

No Ápice do Empíreo, Ele dança a Dança dos Tattvas:

Ele que é, de fato, o Ser de Si Mesmo.

Nota explicativa

Tattvas são as sucessivas instâncias por meio das quais a Realidade Absoluta se manifesta e produz a realidade relativa. A escola místico-filosófica Shaiva Siddhanta utiliza um esquema de 36 Tattvas para explicar a transição do Uno ao múltiplo: de Parashiva (“Shiva Supremo” ou “Aquele que está além de Shiva”) ao ente empírico.

A palavra “Tattva” corresponde ao conceito que a filosofia neoplatônica grega e, a partir dela, a filosofia cristã medieval chamaram de “Hipóstase”.

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Mândiram 891

Shi e Va são Akaram (A) e Ukaram (U),

Excelsos domínios incognoscíveis.

Chit-Para manifesta a Divina Dança.

E – oh! – Shiva-Gati constitui o Ananda.

Nota explicativa

Nesta estrofe, Tirumular relaciona o Akaram (A) e o Ukaram (U), duas letras que compõem o Pranava ou Som Primordial AUM, com as sílabas “Shi” e “Va”, que compõem o Panchakshara “Na Ma Shi Va Ya”. “A” e “Shi” estão associados a Shiva. “U” e “Va” estão associadas a Shakti.

“Chit-Para” significa “Espaço da Consciência”. E “Gati” significa “Meta” ou “Objetivo”. “Ananda” pode ser deficientemente traduzido como “Beatitude” ou “Gozo”.

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Mândiram 892

A Beatitude é tríplice; a Gnose é dúplice; elas são o Mesmo.

A Beatitude é Shi Va Ya – não são muitos os que sabem disso.

Aqueles cuja Gnose é gêmea da Beatitude

Experimentarão Shiva como a Dança da Beatitude.

Nota explicativa

“Shi” e “Va”, já dissemos, estão associados a Shiva e Shakti. “Ya” está associado à Alma. A Alma desperta, que contempla Shiva e Shakti, experimenta a Beatitude (Ananda).

O motivo de Tirumular dizer que a Gnose seja dúplice já não é tão claro. Pode ser que ele associe a Gnose à Shakti, que é o segundo Tattava e pode ser representada pelo número Dois. Pode ser também que ele relacione a Gnose com o limite da dicotomia Sujeito-Objeto, que precede a superação de todos os pares de opostos e a imersão na Unidade. Para utilizarmos a terminologia do neoplatonismo grego, a Gnose seria o Intelecto (Nous) contemplando o Uno (Hen), antes de comungar com ele. Uma hipótese não exclui a outra.

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Mândiram 893

O Dois é louvado pelo erudito;

Do Dois emergem o Ômkara e os Panchaksharas;

Do Dois emerge a Dança da Absorção;

Do Dois emergem a Ordem Universal e a Beatitude.

Nota explicativa

Nesta estrofe, a associação do Dois com a Shakti é mais evidente. Pois é o impulso realizador da Shakti, substantivando-se por meio do Ômkara (a sílaba AUM ou OM), que engendra a Panchakriya (Cinco Atividades Divinas), resumida no Panchakshara (Na Ma Shi Va Ya). Como afirmam, com muita propriedade, os estudiosos da Himalayan Academy, a figura do Shiva Nataraja, com sua dança de Criação-Preservação-Destruição-Obscurecimento-Esclarecimento, representa, de fato, a Shakti.

Da conjunção do Ômkara com o Panchakshara resulta o Maha Mantra shivaísta: “Om Nama Shivaya”.

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Mândiram 906

O mantra dourado não deve ser pronunciado;

Os lábios devem murmurá-lo de forma inaudível.

Se o áureo mantra é articulado com o sopro vital,

O corpo vira ouro e o abençoado chega aos Pés Dourados.

Nota explicativa

Para entender e vivenciar plenamente o ensinamento contido nesta estrofe, é preciso receber a primeira iniciação em Kriya Yoga de Bábaji. Mais do que isto eu não posso dizer.

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Chidambaram Temple

Uma vista do Templo de Chidambaram. A estrutura situado sob o telhado de ouro é o Ponnambalam, o Sancta Sanctorum do Templo, onde está guardada a estátua do Shiva Nataraja. As torres ao fundo são dois dos quatro gopurans que fazem parte do conjunto arquitetônico.

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