O conhecimento ancestral dos xamãs

LesTrois Frères

O Xamã de Les Trois Frères. Reconstituição de pintura rupestre de idade estimada em 13 mil anos.

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Chifres de rena, orelhas de lobo, rosto de leão, corpo de cavalo, patas de urso: o resultado de tão fantástica mistura é um homem, a única criatura capaz de sintetizar em si os poderes de todos esses animais. Do fundo dos milênios, ele parece observar, dentro dos olhos, o próprio observador que o olha. Esse fascinante personagem é o objeto de uma pintura do período paleolítico, registrada nas paredes da caverna de Les Trois Frères, na França. Trata-se provavelmente do mais antigo retrato de um xamã, o detentor do conhecimento nas sociedades ditas primitivas, antepassado remoto não apenas dos pajés contemporâneos, mas de todos os sacerdotes, filósofos, cientistas e artistas.

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Segundo a antropóloga norte-americana Joan Halifax [1], a palavra xamã vem do sânscrito védico ‘sram, que significa “incendiar a si mesmo”. No contexto do yoga, a expressão “incendiar a si mesmo” refere-se a tapas, ou exercício intensivo de austeridades. Assim como o fogo possibilita ao metalurgista trabalhar o metal, a tapasya (prática de tapas) possibilita ao iogue trabalhar a si mesmo. Em vários casos, o esforço empreendido nos exercícios e as resistências que eles provocam realmente aquecem o indivíduo, de modo que a comparação da tapasya com o fogo é mais do que um mero artifício retórico. Presumíveis sucessores dos xamãs, os antigos iogues devem ter herdado dos antecessores algumas ou várias de suas disciplinas. É a elas que a palavra ‘sram alude, nomeando algo que, já na época em foi empregada pela primeira vez, devia constituir uma tradição imemorial. De fato, o xamanismo é muito anterior aos Vedas, fazendo parte das culturas dos povos caçadores-coletores pré-históricos de várias partes do mundo.

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Embora seja arriscado dizer isto, porque é impossível cotejar a prática atual com aquela que pode ter ocorrido há milhares de anos, os principais estudiosos do xamanismo consideram que tal tradição continua viva nos cinco continentes. Para o olhar desatento, os xamãs podem parecer simples feiticeiros. Porém ultrapassam em muito essa qualificação. Antropólogos que os observaram por longos períodos ficaram surpresos com a amplitude e a profundidade de seus saberes. Eles se destacam como médicos das sociedades primitivas, especialistas na identificação das doenças e na prescrição das práticas de cura. Mas também são músicos e dançarinos, poetas e contadores de histórias, pintores e artesãos, guardiões dos mitos e mediadores dos conflitos da comunidade, sofisticados conhecedores dos minerais, vegetais e animais, exímios viajantes nos caminhos do mundo material e do mundo espiritual. Acima de tudo, como afirmou Joan Halifax, são “peritos do sagrado e mestres do êxtase”.

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De onde vêm sua sabedoria ancestral? O antropólogo norte-americano Michael Harner [2] respondeu a essa pergunta, afirmando que o segredo dos conhecimentos xamânicos é o acesso a estados não-ordinários de consciência. “Utilizando determinadas técnicas, o xamã consegue ‘viajar’ para ‘outros mundos’ e ‘ver’ o que as demais pessoas não ‘veem’”, disse.

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Aos diletantes, Harner advertiu que o xamã não “viaja” a “outros mundos” para fazer turismo. Ele tem um trabalho a realizar, uma missão a cumprir, pautada pelas necessidades coletivas de sua comunidade. A “viagem” de que fala o antropólogo – geralmente associada às cerimônias de cura ou à busca do conhecimento – é um percurso através de diversos planos de consciência. “Ao redor do mundo”, informou Harner, “usam-se diferentes portas para os estados não ordinários de consciência”. Noventa por cento dos xamãs utilizam o som repetitivo do tambor, das maracas e de outros instrumentos musicais. Os veículos para os estados incomuns de consciência variam, porém, conforme o substrato cultural. Alguns povos indígenas – como os ianomami –recorrem a poderosas substâncias psicoativas para abrir as “portas da percepção”. Já outros – como os guarani – proíbem terminantemente o consumo desse tipo de drogas, mas empregam meios como a fumaça do tabaco para “ascender ao plano espiritual”.

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Depois de “atravessar a porta”, tudo o que o xamã “vê” tem, para ele, uma existência real. Encontrar-se com “espíritos” faz parte do jogo. É, por assim dizer, um fenômeno trivial na prática do xamanismo. O que realmente interessa ao xamã é achar os “espíritos” certos, capazes de auxiliá-lo em seu trabalho de cura. Segundo Harner, o xamã e seus “espíritos auxiliares” estabelecem entre si uma simbiose perfeita. De acordo com o sistema de crenças xamânico, os “espíritos auxiliares” teriam participado de nossa realidade ordinária em tempos passados. E conheceriam nossos sofrimentos melhor do que nós mesmos. Manifestariam uma grande compaixão, mas precisariam de um suporte material para poder atuar. O xamã lhes ofereceria essa possibilidade. Ao mesmo tempo, “vendo-os” auxiliar, aprenderia com eles. De modo que os “espíritos” se tornariam seus professores.

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Para os especialistas na linguagem xamânica, a figura híbrida pintada na caverna de Les Trois Frères informa, de maneira precisa, quais eram os “espíritos auxiliares” daquele xamã ancestral. No contexto de uma comunidade de caçadores, ele devia ser um grande sábio, pois tinha como “espíritos auxiliares” a rena, o lobo, o leão, o cavalo e o urso. Não apenas uma rena, um lobo, um leão, um cavalo, um urso. Mas a rena, o lobo, o leão, o cavalo, o urso. Pois cada um desses “espíritos” sintetizaria os atributos e capacidades da espécie inteira. Longe de ser uma representação simbólica – conceito estranho à visão de mundo primitiva – a pintura tinha provavelmente a função mágica de invocar a presença e os poderes dos “espíritos auxiliares”.

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Estudar o xamanismo é resgatar as próprias raízes do conhecimento humano. Mas como explicar as inquietantes concepções xamânicas à luz da ciência contemporânea? É confortador pensar que os “mundos” para os quais “viaja” o xamã só existem em sua imaginação. Que os “estados não ordinários de consciência” que ele experimenta não passam de alucinações. Que os “espíritos” com os quais interage são, na melhor das hipóteses, formas concretas utilizadas pelo homem primitivo para representar os conteúdos abstratos da psique. Que a comprovada eficácia de suas “práticas de cura” se deve tão somente ao poder da sugestão ou ao hábil emprego de ervas medicinais.

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Porém, essas opiniões apressadas baseiam-se muito mais em preconceitos filosóficos do que em uma investigação criteriosa dos fenômenos. Um dado que dificilmente se encaixa na bitola estreita dessas explicações pretensamente científicas são as descrições, feitas pelos xamãs, de certas localidades “visitadas” por eles em estados não ordinários de consciência. Essas descrições coincidem muitas vezes – e nos mínimos detalhes – com a de lugares realmente existentes, mas previamente desconhecidos pelos xamãs. São localidades em geral distantes e ligadas a contextos culturais completamente diferentes daqueles onde vivem e atuam os videntes – o que parece provar que suas experiências visionárias não são culturalmente condicionadas, como muitas vezes se supõe.

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Há muitos anos, ouvi de Aílton Krenak um relato sobre Apoena (Ahopowê), grande chefe do povo xavante (a’uwê uptabi). Sem nunca haver saído fisicamente do território brasileiro, Apoena teria descrito com detalhes a Alemanha a um neto. O jovem iria representar seu povo em um congresso em solo alemão e o avô tratou de prepará-lo para a realidade que deveria encontrar. Não por acaso, o nome Apoena significa “aquele que enxerga longe” [3].

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Ainda mais frequentes do que as “viagens” a lugares do mundo físico são as “jornadas” a regiões supostamente situadas em outros planos da existência. Aos olhos do xamã estas localidades são tão reais quanto aquelas. E muitos estudiosos acreditam que não temos nenhum motivo consistente para duvidar disso. Esses misteriosos domínios parecem identificar-se com aquilo que o filósofo francês Henry Corbin (1889 – 1978) chamou de Mundus Imaginalis (“Mundo Imaginal”). Na acepção corbiniana, o termo “imaginal” não se confunde com “imaginário”. Apesar de se manifestarem como imagens, os cenários, coisas e habitantes do “Mundo Imaginal”, mencionados por todas as grandes tradições espirituais do planeta, não seriam meros produtos da imaginação. Mas, sim, entes dotados de existência objetiva, embora não física. Eles participariam de um nível de realidade intermediário entre o plano material e o plano espiritual propriamente dito.

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O que aparentemente atesta a objetividade das estruturas do “Mundo Imaginal” é o fato de elas se repetirem em diferentes experiências e poderem ser observadas, de forma independente, por pessoas dos mais variados contextos culturais. Para tanto, basta sintonizar, mediante procedimentos perfeitamente conhecidos e codificados, o necessário estado de consciência. Daí a razão de o xamanismo ser praticado com sucesso também por indivíduos cultos de sociedades urbanas altamente industrializadas, como é o caso do próprio Harner.

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Podemos falar em uma ciência xamânica? Para os praticantes do xamanismo, não existe uma ciência enquanto conhecimento diferenciado e especializado. Todo o saber apresenta-se integrado em um todo indivisível. Mas, no corpo dessa sabedoria unitária, é possível perceber um tipo de etnociência que estabelece esquemas requintados de classificação dos entes e fenômenos naturais. Sua noção de natureza é muito diferente daquela das sociedades industrializadas. A selva, por exemplo, tem para o xamã nuanças e diferenciações que escapam até mesmo à observação dos biólogos mais sofisticados. E, a cada ente ou fenômeno da natureza, ele associa um ou vários entes “imaginais”.

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A antropóloga Joan Halifax descreve um conjunto de práticas que constituem, em sua opinião, os principais elementos do xamanismo. Eles podem ser agrupados em três grandes tópicos: a iniciação, o aprendizado e a busca da “visão”:

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  1. O processo de iniciação está associado à ideia de “morte e renascimento”. O aspirante “morre” para sua antiga existência e “renasce” como xamã. Trata-se evidentemente de um acontecimento simbólico. Mas que pode assumir formas extremamente drásticas. Um exemplo disso, descrito por Halifax, a partir de relato recolhido pelo famoso explorador e antropólogo groenlandês Knud Rasmussen (1879 — 1933), foi a iniciação de Igjugarjuk [4], grande xamã esquimó (inuit) do início do século XX. No auge do inverno ártico, ele teve que passar um mês inteiro sentado, dentro de um iglu apertado, em uma região distante e desolada. Durante esse período, foi-lhe dado, para comer e beber, apenas um pequeno pedaço de carne e duas xícaras de água quente. “De tempos em tempos, eu morria um pouco”, declarou Igjugarjuk anos mais tarde;

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  1. O aprendizado da ciência xamânica pode demandar anos de proximidade com um mestre-xamã, ao qual o aspirante se entrega de corpo e alma. Mas sempre exige um período de total solidão, em íntimo contato com a natureza selvagem, no qual o indivíduo deve ajustar contas consigo mesmo. Foi o que ocorreu com Igjugarjuk em seu árduo mês, passado longe de tudo e de todos;

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  1. A busca da “visão” é o esforço empreendido pelo aprendiz para acessar o Mundus Imaginalis, seus cenários, personagens e conhecimentos secretos. Após seu mês de provação e quase à beira do colapso, Igjugarjuk, segundo suas próprias palavras, teve a “visão” de uma deslumbrante deidade feminina, que lhe conferiu a iniciação, os conhecimentos e os poderes.

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Os saberes xamânicos constituem um imenso desafio ao sistema de crenças da ciência moderna. Ao invés de descartá-los a priori, como simples crendices, o cientista contemporâneo deveria considerá-los uma “outra” forma de conhecimento. E, munido de muita humildade e o mínimo de preconceitos, dialogar com eles, como preconiza a Declaração de Veneza. Ao fazê-lo estaria enriquecendo seus próprios saberes. E prestando uma merecida homenagem a um remoto ancestral. “As práticas xamânicas podem coexistir pacificamente com as ciências contemporâneas”, afirmou Harner. “Conheço muitos xamãs que, depois dos rituais de cura, enviaram seus pacientes aos missionários, para que eles tivessem tratamentos à base de antibióticos. Em contrapartida, eu mesmo dei um workshop sobre xamanismo na Escola de Medicina da Universidade de Harvard”. Esse intercâmbio fecundo entre diferentes sistemas cognitivos – no mais puro espírito do Princípio da Complementaridade do físico Niels Bohr – é um passo fundamental para a construção de uma nova, profunda e abrangente visão da realidade.

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Igjugarjuk

Igjugarjuk, fotografado em uma das expedições de Knud Rasmussen.

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Notas

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[1] Joan Halifax:

https://en.wikipedia.org/wiki/Joan_Halifax

https://www.ted.com/talks/joan_halifax?language=pt-br#t-110687

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[2] Michael Harner

https://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Harner

http://www.shamanism.org/fssinfo/harnerbio.html

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[3] Apoena.

Na década de 1970, em um contexto de expansão da agricultura capitalista, concentração fundiária e intensa pressão sobre as terras indígenas, Apoena deu uma prova de sua visão de longo alcance. Juntamente com os demais integrantes de sua comunidade, concebeu um plano audacioso. Escolheu oito de seus 50 netos, e os enviou para conhecer por dentro a cultura da sociedade envolvente. Os meninos foram morar com “famílias de brancos” e estudar em “escolas de brancos”, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Hoje, homens feitos, alguns deles desempenham importante papel na defesa de sua tradição ancestral e na promoção dos direitos indígenas. Recentemente, foi feito um filme sobre a saga desses jovens.

https://www.youtube.com/watch?v=fhfJBOHt200

https://www.youtube.com/watch?v=5LRUW7oRjTA

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[4] Igjugarjuk

http://warrenjefferson.blogspot.com.br/2010/12/initiation-of-igjugarjuk-as-shaman.html

http://www.gutenberg.org/files/28932/28932-h/28932-h.htm