O que eu aprendi com os guarani

GUARANI

Pajés guarani, na dança que marcou a despedida do encontro de lideranças para lançamento da campanha “Povo Guarani, Grande Povo!”. Caarapó (MS), 2007. Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr/Wikimedia Commons

*

A causa do povo guarani me toca diretamente. Não apenas por ser a luta do “fraco” contra o “forte”, daqueles dos quais quase tudo foi tirado contra aqueles que querem tirar um pouco mais. Não apenas por ser a luta pelo direito de existir, dos portadores de um legado milenar contra o extermínio físico, cultural e espiritual. Tudo isso seria motivo suficiente, mas tenho também um motivo particular. Estive próximo dos guarani e aprendi com eles muito do pouco que sei.

*

Isso ocorreu no final da década de 1980, quando me interessei bastante pela tradição xamânica. Nessa época, li trechos dos livros Shamanic voices, de Joan Halifax, The way of the shaman, de Michel Harner, e Le Chamanisme et les techniques archaïques de l’extase, de Mircea Eliade; participei de uma vivência baseada no ritual de iniciação dos índios Hopi, difundido por Harner; entrevistei supostos especialistas no assunto. Porém queria algo mais do que a abordagem meramente intelectual. Queria ver com meus próprios olhos. Assim, valendo-me da condição de jornalista, que sempre possibilita abrir algumas portas, passei a frequentar a aldeia guarani do Morro da Saudade, na extrema periferia de São Paulo, já na orla da Represa Billings. Embora a tradição espiritual guarani seja bem mais elaborada do que o xamanismo, parecem sobreviver nela vários elementos xamânicos. E foram eles que de início me atraíram.

*

Meu primeiro informante foi Karaí Mirim, um índio professor de História, com um pé na cultura milenar de seu povo e outro pé na cultura da sociedade envolvente. Utilizando um referencial sofisticado, Karaí Mirim me introduziu, em longas conversas, na espiritualidade tradicional guarani – ou, ao menos, em um conjunto bem articulado de ideias que ele me apresentou como tal, pois, de fato, eu não tinha elementos para saber onde terminava a visão de mundo ancestral e onde começavam suas próprias especulações. Levado por ele, visitei a aldeia do Morro da Saudade; fui apresentado ao cacique-pajé Guyrá Pepó; tive acesso ao Opy, a Casa de Reza; e assisti ao ritual da pajelança.

*

Publicada minha reportagem, arrumei um jeito de continuar frequentando a aldeia. Sempre levando algum presente (fumo de corda, café, feijão, agasalhos), eu chegava nas últimas luzes da sexta-feira ou do sábado, quando as pessoas começavam a se aproximar do Opy e os petenguás, os bojudos cachimbos rituais, iam sendo acesos para as cerimônias religiosas. De início bastante lacônico, Guyrá Pepó se abriu a partir do momento em que Márcia passou a me acompanhar. Um dia, sem que eu pedisse, ele me contou toda a história de sua iniciação espiritual. Além de Karaí Mirim e de Guyrá Pepó, entrevistei também outro pajé, Karaí Gegakuá.

*

Os elementos cosmogônicos e cosmológicos transmitidos por Karaí Mirim; as vivências iniciáticas de Guyrá Pepó e Karaí Gegakuá; o ritual, em que se destacavam o alinhamento com os pontos cardeais, as circum-ambulações no sentido anti-horário e os cantos mântricos, me encantavam. Acima de tudo, me encantava a simplicidade da vida guarani.

*

Tornei-me assíduo no Morro da Saudade; sem me acostumar com o petenguá, passei a fumar cigarro de palha; e dormi na rede, no interior do Opy, em uma noite gelada de inverno. A leitura de Pierre Clastres me trouxe a ideia da “Sociedade contra o Estado”, e a leitura de Hélène Clastres me informou sobre o profetismo guarani e as grandes migrações em busca da “Terra sem Males”. Junto com Márcia e uma amiga, levei Stanislav Grof, o gênio da psicologia transpessoal, para presenciar a pajelança. Quase três décadas depois, perguntei a um Grof já octogenário se ele se lembrava dessa vivência na aldeia. Sim, ela estava bem viva em sua memória.

*

Na virada de 24 para 25 de janeiro de algum ano do início da década de 1990, na companhia de Márcia e de meus filhos mais velhos, participei do Nimongaraí, o batismo ritual, que, segundo me informaram, constitui a mais importante cerimônia guarani. Nele, recebi um nome indígena, que me pediram para não divulgar. Tendo a considerar esse batismo um ato de cortesia.

*

De qualquer modo, percebi que havia chegado a um limite: ou bem mergulhava de cabeça, e isso implicava em estudar a literatura especializada, aprender a língua, e acessar por mim mesmo um repertório que jamais seria claramente explicado, ou bem me distanciava.

*

Havia divergências na aldeia. E eu entendi que não devia tomar partido. Primeiro por ser alguém de fora. Segundo porque ninguém pediu minha opinião. Terceiro porque não tinha elementos para saber o que era certo e o que era errado. Posicionados atrás da barreira do idioma e de um comportamento no qual o não dito dizia mais do que o dito, os guarani possuíam uma natureza insondável. Após cinco séculos de embates com os conquistadores, enfrentando o mandonismo jesuíta e o genocídio promovido pelos colonos, a massificação televisiva e o proselitismo evangélico, a fluidez tornara-se uma estratégia de sobrevivência para eles.

*

Assim, a despeito do carinho e da admiração que sentia por eles, fui, pouco a pouco, me afastando. Houve algumas tentativas de reaproximação mais tarde. Mas o momento havia passado.

*

Dei meu petenguá de presente para o Grof. Mas guardei comigo várias anotações, peças soltas de um quebra-cabeça, que talvez um dia eu me disponha a montar, se conseguir juntar ao pouco que sei o muito que tenho a aprender. A música ritual guarani eu escuto com o coração.

*

Deslocando o olhar do passado para o presente, me enche de esperança ver a nova geração guarani assumir a primeira fila na caminhada do povo por seus direitos: investida do espírito do xondaro, de cara pintada e olhar altivo, ela ocupa a avenida, fala com propriedade, e diz a que veio.

*

Os guarani estão vivos!

*

 

Anúncios