Cismas de um caminhante solitário, na praia do Mar da Unidade, conversando com suas próprias pegadas na areia

Uma praia deserta na Austrália. Foto de minha amiga Talita Nozomi.

Uma praia deserta na Austrália. Foto de minha amiga Talita Nozomi.

“Tudo isto é para habitação do Senhor, tudo o que é universo individual de movimento no movimento universal” (Isha Upanishad, verso 1) [1]

“Ele tornou-se os mundos por uma letra; / Pelo casamento de duas letras, Ele tornou-se dois; / Com três letras, Ele brotou como uma chama; / Por meio da sílaba ‘ma’, a perplexidade veio ao Ser” (Tirumandiram, mandiram 885) [2]

“Pensai, pensai sobre o Echad” (Zohar) [3]

“Disse Jesus: Eu sou a luz que está acima de todos. Eu sou o Todo. O Todo saiu de mim, e o Todo voltou a mim. Rachai a madeira — lá eu estou. Erguei a pedra — lá me achareis” (Evangelho de Tomé, logion 77) [4]

“Não há nada verdadeiramente real exceto o Real” (interpretação do Primeiro Testemunho da Fé do Islã, conforme a mística sufi) [5]

 

Vivo cercado por coisas: coisas inanimadas e coisas animadas, coisas corpóreas e coisas virtuais, coisas quietas e mudas e coisas que andam e falam. Minha consciência se engancha nas coisas e salta de uma coisa a outra, como um macaco troca de galhos. As coisas me fascinam, as coisas me ocupam, as coisas me consomem. Em algum tempo, algo dentro de mim pede um tempo: um tempo que, embora inevitavelmente preenchido por coisas, me devolva a sensação de despojamento. Imagino, então, uma praia deserta. Ou recordo aquele antigo haicai de Bashô: “Velho tanque. / Uma rã mergulha. / Barulho da água. ” [6].

Fecho os olhos e mergulho no silêncio… Mas, quando os reabro, vejo qualquer coisa à minha frente, desafiadora como a Esfinge: “Decifra-me ou te devoro”.

Para o monista, para o advaitim [7], cada Ente (uma pedra, uma planta, um animal, um homem, um deus, um demônio, um artefato, um arquivo digital etc.) [8] é uma Face da Realidade Absoluta. Uma Face parcialmente velada – devo acrescentar. Uma limitação específica do Ilimitado, uma privação autoimposta do Superabundante, que possibilita que o Absoluto engendre o Relativo e que o Ser seja entificado.

Como o Real abarca não apenas o Ser, mas também o Não-Ser, especulo que a Veladura, que oculta parcialmente a Face, seja constituída por um recorte especifico do Não-Ser – como aqueles pedaços de papel celofane colorido com os quais os antigos iluminadores de teatro bloqueavam parcialmente o jorro dos spots luminosos para criar efeitos particulares de luz, cor e sombra.

O Ente é simultaneamente a Face e o Véu. A Face, em sua quididade. O Véu, na composição de sua ipseidade. O Velado e a Veladura, isto é, o Ser e o Não-Ser, provêm da mesma Fonte. E esta maneira de pensar permite que o meu pensamento se equilibre sobre o Mar da Unidade, sem afundar nas ondas ilusórias, mas não isentas de perigo, do dualismo.

O que foi dito sobre o Ente aplica-se também a cada Momento do Ente e às diversas Constelações de Entes. Somente o Absoluto, isto é, somente Deus, em sua Realidade Primeira e Última, é sempre o Mesmo. A ininterrupta dinâmica de suas Veladuras faz com que cada Ente, cada Momento do Ente e cada Constelação de Entes experimentem incessante mudança.

A singularidade dos Entes e dos Fenômenos decorre diretamente da Unicidade: Uno, Deus é também Único em cada um de seus atos. Não há repetição na Auto-ocultação e no Autodesvelamento divinos: a existência é uma reiterada novidade e uma renovada surpresa. Não há banalidade na Auto-ocultação e no Autodesvelamento divinos: o mistério do Real torna misteriosas todas as suas realizações. A transparência do copo d’água não o faz mais compreensível do que o oceano.

O Shaiva Siddhanta, a tradição indiana dos “iogues perfeitos”, estabelece uma hierarquia de 36 Tattvas (Instâncias) para explicar a produção do Ente genérico a partir do inefável Parashiva. São 36 Veladuras, que obstruem, sucessivamente, a Luz Imaculada e Superabundante, até produzir a quase escuridão com a qual convivemos, distraídos, em nossa cotidianidade empírica [9].

Mas o esquema dos 36 Tattvas dá conta apenas da produção do Ente genérico. Não explica – se é que consegui entendê-lo – a diferença entre os Entes.

Por isso, para levar adiante esta reflexão, me parece indispensável complementar o modelo dos 36 Tattvas com o influxo proporcionado por outra chave interpretativa. Refiro-me à Ciência dos Nomes Divinos, de Ibn ‘Arabî. Para o grande mestre sufi, os Nomes são os istmos que conectam o Real às suas realizações; os atributos que conferem a cada Ente, cada Momento e cada Constelação as feições que lhes são próprias, isto é, suas singularidades [10].

Segundo Ibn ‘Arabî, os Nomes Divinos são infinitos. Cada Ente, cada Momento do Ente, cada Constelação de Entres é a atualização de um deles, que só àquele Ente, Momento ou Constelação pertence. Daí suas singularidades.

Penso que haja uma hierarquia de Nomes. O Nome que me conecta à fugacidade do instante, e se desmancha como a espuma do mar depositada na areia, não pode ser o mesmo que me constitui enquanto Alma Individual, e possibilita que, ao acordar, eu perceba que sigo vivendo, e, vida após vida, perpassa minhas sucessivas encarnações como o fio que mantém unidas as contas de um colar.

Reconhecer e atualizar esse Nome Fundador constitui um passo indispensável no caminho da Autorrealização. A Autorrealização pressupõe o Autorreconhecimento. Para realizar quem sou, eu devo reconhecer quem sou.

Enquanto Essência, as grandes tradições e os grandes mestres me ensinam que eu sou Ele/Ela. Tat Tvam Asi (“Tu és Isso”) e Aham Brahmâsmi (“Eu sou Brahman”), dizem os UpanishadsJatra jiv tatra Shiv (“Onde houver uma alma individual, lá estará Shiva”), declarou Sri Ramakrishna Paramahansa (1836 – 1886).

Mas é preciso que eu reconheça também quem sou no nível do Atributo. Isto é, que eu reconheça o Nome impresso em minha Alma como o “Selo do Criador”, indicando-me aquilo que devo fazer e que a mais ninguém compete. “Trata-se de chegar a ser o que realmente se é”, afirmou Foucault, citando Nietzsche.

Anoto esse resultado parcial, que contribui para que eu me entenda enquanto Ente. E sigo em frente, buscando entender meu relacionamento com os demais Entes.

Se tudo é Um, se tudo é o Mesmo, então, tudo é sagrado. Assim, Sri Ramakrishana reconheceu a presença da Divina Shakti em duas prostitutas que enviaram para seduzi-lo [11]. E tal episódio já possibilita vislumbrar a operacionalidade da Consciência da Unidade, que, de outra forma, seria inútil. A Consciência da Unidade pode e deve constituir o fundamento da Ética, a pedra de toque dos Relacionamentos e o guia prático do Bem Viver.

Reconhecer a Presença do Um em cada Ente ou Fenômeno, ou reconhecer cada Ente ou Fenômeno como manifestação do Um, é relacionar-se com a cotidianidade em estado de reverência. E transcender a empiria, permitindo que a Consciência ultrapasse a superfície opaca da Coisa, para alcançar o cerne luminoso do Ser.

Mas a dinâmica imperiosa das Veladuras (que nada mais é do que a dinâmica do Ser, em seu duplo movimento de Auto-ocultação e Autodesvelamento) desconfigura, em uma fração de segundo, aquilo que recém-configurou. O Momento dura apenas um momento. A Constelação desconstela-se em um instante. E o próprio Ente, no que tem de mais estável, é apenas uma onda efêmera no oceano insondável da Eternidade.

Devo seguir em frente. E permitir que as Coisas passem por mim como os fragmentos da paisagem passam velozes por aquele que ocupa um veículo em movimento. Se me engancho nas Coisas, afundo na obsolescência e perco o viço do fluxo do Ser em sua inexaurível novidade: agarro-me ao casulo, pois a borboleta já voou para bem longe.

Reverencio o Ente que passa. E deixo que passe. Pois apenas no Absoluto ou em suas manifestações mais sublimes, despidas dos invólucros da Relatividade [12], é possível encontrar estabilidade. É dessa altura excelsa que se derrama o Princípio do Guru, que encontra sua perfeita realização no incomparável Bábaji [13]. Que eu busque refúgio e repouso sob seus Pés de Lótus!

Notas

[1] Ao interpretar magistralmente esse verso, Sri Aurobindo escreveu: “Todo o mundo é um movimento do Espirito em Si Mesmo, e é mutável e transiente em todas as suas formações e aparências; sua única eternidade é uma eternidade de recorrência, sua única estabilidade um simulacro causado por certas fixações aparentes de relação e agrupamento. Cada objeto separado no universo é, de fato, ele mesmo o universo inteiro, apresentando uma certa fachada ou aparência exterior de seu movimento. O microcosmo é um com o macrocosmo”.

[2] A letra primordial é o A (akâram), que pervade todas as demais letras. As duas letras são A (akâram) e U (ukâram) – simbolicamente, Shiva e Uma (sendo esta uma das formas da Shakti). As três letras são A (akâram), U (ukâram) e M (makâram), que, em sequência, constituem a sílaba Aum, a primeira manifestação fenomênica da Realidade Absoluta (Parashiva). A sílaba ma, do último verso, refere-se a Maya, o Princípio de Relativização. Conforme T. N. Ramachandram, tradutor e comentador do 4º Tandiram (seção) doTirumandiram, onde se encontra a estrofe citada, Maya significa “Não isso”. Assim, para a pergunta “O mundo é real? ”, a resposta é “Ele é Maya (não isso) ”. E, para a pergunta “O mundo é irreal? ”, a resposta também é “Ele é Maya (não isso)”.

[3] Echad (“Um”, em hebraico) é uma das palavras que compõem a Shemá, a oração central do judaísmo: “Shemá Israel Adonai Elohênu Adonai Echad” (“Escuta, Israel: o Senhor, nosso Deus, o Senhor é Um”). No Zohar, a exortação a que se pense no Echad é atribuída ao rabino Shimon ben Yochai. E, mais do que uma declaração da unicidade de Deus, o célebre livro cabalista interpreta a palavra como uma proclamação da unicidade da Real. Este sentido ampliado da Shemá torna-se mais evidente quando levamos em conta que o termo Adonai (“Senhor”) é sempre empregado em substituição ao Nome Inefável, YHVH.

[4] Ao comentar este logion, o filósofo brasileiro Huberto Rohden, que traduziu o Evangelho de Tomé para o português, destacou sua similaridade com várias afirmações dos escritos místicos indianos, em especial, da Bhagavad Gita. E lembrou a tradição de que o apóstolo Tomé viveu e morreu na Índia.

[5] No contexto do sufismo, especialmente na obra de Ibn ‘Arabî (Murcia, Espanha, 1165 – Damasco, Síria, 1240), a Doutrina da Unicidade (tawîd) fundamenta-se no Primeiro Testemunho ou Declaração de Fé do Islã: lâ ilaha il’allâh. Literalmente, a frase diz que “Não há deus exceto Deus”. E, como tal, muitos a interpretam como a afirmação do monoteísmo e a negação do politeísmo. Porém os místicos sufis mergulharam, cada vez mais fundo, nas múltiplas camadas de significado da sentença, até́ chegar ao entendimento de que “Não há nada verdadeiramente real exceto o Real”. Vale dizer que, não apenas existe um só Deus, mas só Deus existe. E que todo o Cosmo, com sua incontável multiplicidade de entes e fenômenos, é uma teofania ou manifestação divina.

[6] Conforme a tradução de Cecília Meirelles.

[7] Partidário do Advaita, a Não-Dualidade.

[8] Iniciei o texto dizendo das “coisas”. Mas, neste ponto, me pareceu conveniente substituir a palavra “coisa” pela palavra “ente”, que, a despeito de predispor à cacofonia, possui um estatuto filosófico mais firme. Pela afirmação que faço na mesma frase, resolvi também iniciar a palavra com letra maiúscula: “Ente”. Por associação, o texto tornou-se cheio de maiúsculas.

[9] Os 25 Tattvas inferiores do esquema do Shaiva Siddhanta, chamados de Ashuddha Tattvas (Instâncias Impuras), foram inteiramente assimilados do sistema postulado pela escola filosófica Samkhya, cuja emergência é datada pelos estudiosos entre os séculos V e II a.C. Fortemente dualista (e, até onde pude entender, ateia), a filosofia samkhya combina uma observação acurada da natureza com uma categorização altamente artificial. E baseia-se em uma dicotomia insuperável, constituída por Purusha (a Consciência Pura) e Prakriti (a Natureza, que engloba tudo, exceto Purusha).

Os 25 Tattvas do Samkhya compõem uma espécie de protofísica especulativa. Interessante sob vários aspectos e elegante no conjunto, esse esquema deve ser valorizado como um dos grandes esforços do pensamento antigo para entender a Realidade, ao lado de outros esforços como os da Escola Jônica da Grécia (Tales, Anaximandro, Anaxímenes etc.). Mas é ingenuidade pretender adotá-lo como um modelo operacional e eficiente – a menos que seus termos sejam radicalmente reinterpretados à luz das enormes aquisições cognitivas proporcionadas pelas ciências modernas e contemporâneas.

Já os 11 Tattvas superiores do Shaiva Siddhanta – chamados de Shuddha Tattvas (Instâncias Puras), os mais altos, e de Shuddha-Ashuddha Tattvas (Instâncias Puras-Impuras), os intermediários – nada devem à especulação do Samkhya. São descobertas feitas pelos grandes iogues (Tirumûlar e outros) em estados elevadíssimos de Samadhi ou êxtase místico. Esse acréscimo de 11 Tattvas permite que o Shaiva Siddhanta supere completamente o dualismo do Samkhya e se afirme como uma escola monista (advaitim) na mais rigorosa acepção da palavra.

Meu artigo “A realidade absoluta e suas manifestações primordiais” é uma tentativa – esforçada, mas obviamente insuficiente – de dizer algo sobre a porção mais sublime desse esquema: a processão dos dois primeiros Tattvas (Shiva e Shakti) a partir do indescritível, inimaginável e inconcebível Parashita. Está disponível em https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/02/16/a-realidade-absoluta-e-suas-manifestacoes-primordiais/

Uma apresentação compacta dos 36 Tattvas do Shaiva Siddhanta pode ser acessada no site da Himalayan Academy, em https://www.himalayanacademy.com/view/lexicon/tattva

[10] Este meu texto foi fortemente influenciado por um artigo sobre Ibn ‘Arabî escrito por William Chittick para The Stanford Encyclopedia of Philosophy, e disponível em http://plato.stanford.edu/archives/spr2014/entries/ibn-arabi/.

Chittick é considerado um dos grandes especialistas em Ibn ‘Arabî, principalmente devido ao seu livro The Sufi Path of Knowledge: Ibn al-‘Arabi’s Metaphysics of Imagination (Albany: State University of New York Press, 1989). Embora voe frequentemente abaixo da altura exigida pelo tema, esse livro constitui uma obra indispensável para quem deseja se iniciar no estudo do pensamento de Ibn ‘Arabî, devido ao acesso que oferece à obra fundamental do mestre sufi, Futuhat al-Makkiyya (Revelações de Meca). Uma edição crítica dessa obra foi organizada, há alguns anos, no Egito. E possui nada menos do que 17 mil páginas! Redigida em árabe, continua, infelizmente, foram do alcance dos leitores de línguas ocidentais, pois ninguém ainda se atreveu a traduzi-la. O livro de Chittick, até onde sei, é o que fornece o maior número de excertos.

Graças aos esforços de meu amigo Sergio Rizek, de Attar Editorial, uma obra secundária de Ibn ‘Arabî, traduzida por Bia Machado e Regina Araújo, acaba de ser publicada no Brasil. Trata-se de Os sete dias do coração (Awrad al-Usbu: Preces para os dias e as noites da semana).

[11] Ainda na fase inicial de sua Sadhana, as excentricidades devocionais de Sri Ramakrishna chegaram a tal grau que foram interpretadas como sintomas de uma possível psicose. Ele mesmo pensou que poderia estar louco. Seus amigos e protetores cogitaram, então, que esse suposto descontrole psíquico poderia ser decorrente da tensão provocada pela abstinência sexual. E, movidos pela melhor das intenções, contrataram duas prostitutas para seduzir o santo. Ao vê-las, Sri Ramakrishna reconheceu nelas a Presença da Deusa Kali, por quem sentia especial devoção, e, imediatamente, entrou em Samadhi. Com o tempo, as pessoas se acostumaram com as bizarrices de Sri Ramakrishna e desistiram de corrigi-lo. De fato, o santo era incorrigível.

[12] Segundo a tradição, as manifestações mais sublimes do Absoluto são os cinco Shuddha Tattvas (Instâncias Puras), que “antecedem” Maya, o Sexto Tattva, que constitui o Princípio de Relativização. Maya rege os “cinco invólucros” (pancha kanchuka), por meio dos quais o Absoluto se autolimita para produzir o relativo. São eles: o tempo, a causalidade, a criatividade limitada, o conhecimento limitado e o apego limitado.

[13] O Princípio do Guru (Guru Tattva) é um influxo cósmico de orientação, que se derrama do Terceiro Tattva (Sadashiva, o “Shiva Eterno”) e se corporifica, com maior ou menor perfeição, no guru humano, de carne e osso. O Satguru, guru inteiramente realizado, é uma manifestação plena e exuberante do Guru Tattva. Aqui, o Satguru é Bábaji. Sobre ele, há algumas informações em meu artigo “Bábaji, o grande avatar de nossa era”, disponível em https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/02/16/babaji-o-grande-avatar-de-nossa-era/

 

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