Sim

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salvador

Foto tirada por minhas queridas, no local de onde elas partiram para entregar o pano bordado à mãe Iemanjá.

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No dia 2 de fevereiro, minha esposa, Márcia, minha filha caçula, Marcela, e várias amigas, especialmente queridas, se juntaram em Salvador, Bahia, para prestar suas homenagens a Iemanjá. Na primeira luz da manhã — me disseram –, pegaram um barco e subiram ao mar alto, para entregar à Senhora das Águas Salgadas um corte de tecido no qual haviam sido bordadas as palavras que cada uma escolhera. Não pude estar com elas de corpo presente. Mas minha palavra também foi bordada e entregue: “Sim”.
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Fiquei feliz de poder dizer “Sim” neste tempo em que se diz tanto “Não”.
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Depois, em uma cisma solitária, em um desses processos mentais que os antigos, puxando ao latim, chamavam de “solilóquios” (uma dessas belas palavras que devemos insistir em usar para que a língua não morra), me pus a pensar em meus “sins” e em seus “porquês”. Desse modo, compus várias asserções, que, à maneira pitagórica, sequenciei em uma série de dez. O resultado ficou parecido com um credo: meu cedo pessoal.
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Aqui vai.
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1. Sim, creio em uma Realidade Única — indescritível, inimaginável, inconcebível –, cujo “Sim” produz tudo o que há, e cujo “Não” impõe subtrações a esse tudo, de modo que o Um se multiplique e o Absoluto se relativize.
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2. Sim, creio que esse Mistério Insondável manifesta-se como Pai e Mãe primordiais — existência, consciência e gozo irrestritos –, geradores incorpóreos das miríades de entes e fenômenos, inclusive dos deuses e deusas, que os antigos souberam nomear.
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3. Sim, creio que o Amor sustenta este Cosmo, e estabelece a regra do que é regular,  e permite que a transgrida ao que é assombroso; esse Amor, que, nas palavras de Dante, move o Sol e as outras estrelas.
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4. Sim, creio que a Terra é uma nobre morada, provedora generosa de abrigo e sustento, doadora graciosa de incontáveis belezas; e que não devemos subestimar sua importância, dizendo que é pequena e se localiza em um braço da galáxia, pois, se fosse grande ou ficasse no centro, nossa existência seria impossível.
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5. Sim, creio no uso parcimonioso e inteligente dos recursos da Terra e na preservação de suas belezas; e que o desfrute da superabundância divina, que se derrama sobre tudo e todos, não é compatível com a iníqua e doentia apropriação e acumulação individuais de riquezas.
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6. Sim, creio na irmandade de todos os humanos, e em nossa irmandade com todos os entes; e que as tantas ações, palavras e pensamentos maus, por piores que sejam, são apenas produtos de uma vitalidade e de uma mentalidade imaturas, cujo inelutável destino, ainda que para tanto sejam necessárias mil vidas, é amadurecer.
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7. Sim, creio na liberdade de escolha, e que é deleitoso conviver com o diferente, pois que pobre e tedioso e triste seria se todos tivéssemos a mesma aparência, falássemos a mesma língua e cultivássemos os mesmos valores; se o Pai e a Mãe não amassem a diferença, como poderia o Cosmo existir?
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8. Sim, creio no conhecimento e na beleza; no poder da filosofia, das ciências e das artes; na coexistência, convergência e colaboração das tradições espirituais antigas com as concepções mais modernas, entendendo a ambas como balbucios de uma jovem consciência que busca conhecer, encarando-as não como portos de chegada e referências definitivas, mas como degraus de uma escada que se espirala e ascende, rumo ao infinito.
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9. Sim, creio na cordialidade — na interação entre corações — como paradigma das relações interpessoais; na livre circulação de pessoas e ideias, baseada no princípio de uma só e grande família humana; na superação de qualquer tipo de discriminação baseada em diferenças de gênero, raça, orientação sexual, prática religiosa, opinião filosófica, filiação política, ou o que quer que possa constituir um fator de divisão.
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10. Sim, creio na alegria, que nos permite rir de nosso não-saber e temperar com bom-humor o espanto, de outro modo avassalador, suscitado pelo mistério da existência.
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