A Luz e as trevas

Durga_Mahishasura

O confronto no plano simbólico: Durga, a Grande Deusa em seu aspecto guerreiro, vence Mahishassura, o comandante dos assuras

Em setembro de 1939, precisamente no início da Segunda Guerra Mundial, Sri Aurobindo, o grande filósofo e mestre espiritual indiano, afirmou: “A questão é salvar o mundo da dominação pelas forças assúricas. Seria terrível ser governado pelos nazistas ou fascistas. Sua dominação liberaria na humanidade os chamados ‘quatro poderes do inferno’: obscurantismo, falsidade, sofrimento e morte”.

O conceito indiano de “assura” corresponde, grosso modo, àquilo que as tradições judaica, cristã e islâmica chamam de “demônio”. E Aurobindo estava inteiramente convencido de que Hitler e a cúpula nazista eram empoderados por forças demoníacas.

Por isso, apesar de ter sido um combatente de primeira hora contra o domínio colonial britânico na Índia, ele aceitou a proposta de que o movimento revolucionário indiano suspendesse temporariamente suas ações e apoiasse a Inglaterra no esforço de guerra contra a Alemanha. Em troca, a Inglaterra oferecia um plano para a independência da Índia após o fim do conflito.

A implementação desse plano poderia ter evitado a separação da Índia e do Paquistão, com a migração em massa de quase 15 milhões de pessoas (muçulmanos indo da Índia para o Paquistão; hindus e sikhs indo do Paquistão para a Índia) e explosões de violência que causaram a perda de 1 milhão de vidas.

Mas Gandhi e outros líderes do movimento revolucionário não aceitaram a oferta britânica.

Acusado de planejar um ataque terrorista contra as autoridades inglesas, Aurobindo havia passado um ano em cela solitária na prisão de Alipore. Ele sabia muito bem o que o imperialismo britânico significava em termos de opressão. Mas sabia também que forças espirituais gigantescas estavam por trás das nações em luta na Segunda Guerra Mundial.

Em 1942, escreveu a um discípulo: “Você não deve pensar nisso como uma luta de certas nações contra outras (…). É a luta por um ideal que deve se estabelecer na Terra, na vida da humanidade, por uma verdade que ainda precisa se realizar plenamente, contra uma escuridão e uma falsidade que estão tentando dominar a Terra e a humanidade no futuro imediato. São as forças por trás da batalha que devem ser vistas e não essa ou aquela circunstância superficial”.

E prosseguiu: “É uma luta pela liberdade da humanidade para se desenvolver (…) e pensar e agir de acordo com a Luz, e crescer na Verdade, crescer no Espírito. Não pode haver a menor dúvida de que, se o outro lado vencer, haverá o fim de toda essa liberdade e esperança de Luz e Verdade, e o trabalho que tem que ser feito será submetido a condições que o tornarão humanamente impossível; haverá um reino de falsidade e escuridão, uma cruel opressão e degradação para a maioria da espécie humana”.

Aurobindo tinha muita clareza sobre o papel de Hitler no processo. “Pode-se dizer que Hitler não é um demônio, mas é possuído por um”, escreveu. E acrescentou: “Sem essa possessão, ele seria uma pessoa grosseiramente amável, com alguns hobbies e excentricidades mentais. Ninguém pensaria em Hitler como tendo algo nele”. Mas, “quando o espírito desce sobre ele”, essa pessoa indecisa e errática se transforma em uma torrente de palavras, cujo poder não deixa ninguém intocado.

Os alertas de Aurobindo para que os líderes do movimento revolucionário indiano se unissem aos imperialistas ingleses na luta contra o mal maior não surtiram efeito. Mas, nos bastidores invisíveis da cena histórica, o grande filósofo e outros mestres espirituais trabalharam arduamente para cortar o laço que unia a cúpula nazista ao poder assúrico. Segundo suas próprias palavras, esse laço foi, em dado momento, cortado. A partir daí, a até então invencível máquina militar nazista passou a experimentar derrota após derrota, até ser finalmente desbaratada na grande batalha de Stalingrado, na qual os soviéticos, ao preço de 1 milhão de mortos, conseguiram barrar o avanço alemão.

A Segunda Guerra terminou. Mas o confronto entre a Luz e as trevas continua.