Avicena, entre a lógica e a mística

Somos o murmúrio de uma fonte perene, sempre renovada. Mas também o eco de palavras varridas pelo vento. Um fio invisível nos conecta àqueles que se foram. E, como se fossem as contas de um colar, mantém unidas as sucessivas gerações. Quando colhemos a fala dos que nos precederam, escutamos pulsar nela a mesma humanidade que reconhecemos em nós. Quando miramos o seu gesto, os vemos lutar, como lutamos, por uma perfeição que parece estar sempre um passo além das possibilidades humanas. A inspiração incita à mudança. No entanto, é preciso honrar a tradição. Buscamos a fala e o gesto que se escondem por trás da nevoa do tempo. Que privilégio dispor de uma narrativa na primeira pessoa! Separado do dia que corre por um arco de mais de mil anos, o filósofo Avicena nos deixou um quadro vivo de sua infância e adolescência – completado depois por seu discípulo Al-Juzjani. É fascinante seguir seu relato.

Junto com Ibn Árabi e Ibn Rushd (Averróis), Ibn Sina (Avicena) é considerado um dos “três pilares” da civilização muçulmana. Foi mais do que isso. Pois o influxo civilizatório comunicado por essa tríade ultrapassou em muito as fronteiras do Islã, alcançando os ambientes cristão e judaico, e repercutindo por séculos a fio. No caso específico de Avicena, seu Cânon de Medicina (Al-qanun fi-l-tibb) foi, durante meio milênio, a bíblia dos estudantes europeus. E exerceu uma influência tão avassaladora que Paracelso, o grande médico e alquimista do Renascimento, o queimou em praça pública, como um protesto pela liberdade de pensamento.

No alinhamento dos “três pilares”, Avicena ocupou a posição intermediária. Não foi um místico inspirado como Ibn Árabi, que, já na puberdade, descortinou com seu olhar interior as mais sublimes paisagens do mundo oculto (1). Nem foi um filósofo racionalista como Averróis, que, até a velhice, buscou laboriosamente a verdade por meio do árduo esforço intelectual. Ficou no ponto médio. Superdotado, viu despontar sua genialidade ainda na infância e viveu momentos de pura e genuína inspiração. Mas tornou-se merecedor do desvelamento graças ao estudo obstinado, por meio do qual procurou dominar toda a filosofia e a ciência dos “antigos”, como eram chamados os autores gregos e latinos. Seu pensamento ancorou-se com firmeza no racionalismo de Aristóteles (século III a.C.). Mas se deixou infiltrar pela alta espiritualidade dos filósofos neoplatônicos, que floresceram no mundo helenizado a partir do terceiro século da era cristã.

Já na infância, torna-se um motivo de espanto

Avicena nasceu no ano de 980 d.C., na aldeia de Afshana, próxima de Bukhara, antigo e importante centro político e cultural. Localizada no território que corresponde atualmente ao Uzbequistão, na Ásia Central, Bukhara era, então, a capital do Império Samânida, de religião muçulmana e cultura persa, cujos domínios englobavam o Irã oriental e o Afeganistão, entre outras províncias. Conforme o costume árabe, que pospõe ao nome próprio do menino os de seus antepassados masculinos, e, depois, antepõe ao nome do adulto o de seu filho primogênito, chamava-se Abu Ali al-Hussain ibn Abd-Allah ibn Hassan ibn Ali ibn Sina. A palavra Avicena é uma latinização da tradução hebraica (Aven Sina) da parte final de seu nome (Ibn Sina) (2).

O menino veio ao mundo em uma família de alta posição social e intelectual. Seu pai, Abd-Allah, era um erudito que galgara importante posição na administração imperial, vindo a ocupar o cargo de prefeito. Avicena cresceu ouvindo o pai e o irmão mais velho discutirem assuntos relacionados com teologia, filosofia e matemática. E, com a idade de 10 anos, já era motivo de espanto entre seus contemporâneos, pois havia completado o estudo do Corão e de boa parte da literatura árabe e persa corrente. Não havia, naquele contexto, uma educação escolar regular. Os conhecimentos eram adquiridos por meio de professores particulares ou do contato direto com pessoas cultas. Tendo a família se mudado para Bukhara quando ele tinha apenas cinco anos, pode desfrutar das vantagens de viver em uma cidade movimentada, com rico patrimônio cultural.

A aritmética indiana gozava de alta reputação no mundo islâmico. Pois, entre outras coisas, foi na Índia que surgiram os algarismos que utilizamos ainda hoje e chamamos erroneamente de “arábicos”. Para Avicena aprender a aritmética indiana, seu pai o levou à casa de um comerciante que empregava esse tipo de cálculo em sua contabilidade. Ao mesmo tempo, introduziu-o no círculo de alunos de um jurista afamado, para que estudasse jurisprudência.

Ainda na puberdade, o discípulo supera o mestre

Nessa época, chegou a Bukhara um erudito de nome Al-Natali, afamado como filósofo. Abd-Allah o hospedou e o encarregou de dar seguimento à educação de seu filho, instruindo-o em aritmética, geometria, lógica, ciências naturais e astronomia. Por meio desse preceptor, o ainda púbere Avicena tomou contato com três obras fundamentais da cultura grega: as Categorias, de Aristóteles, os Elementos, de Euclides, e o Almagesto, de Ptolomeu. A primeira trata de lógica, a segunda de geometria e a terceira de astronomia. Já nas primeiras lições, o aluno surpreendeu o professor pelo brilho de sua inteligência. Profundamente impressionado, Al-Natali convenceu Abd-Allah de que seu filho não deveria ter outra ocupação além de estudar. Em pouco tempo, o discípulo superou o mestre. E, anos mais tarde, o próprio Avicena comentaria, sem falsa modéstia: “Quantos problemas difíceis Al-Natali só pôde entender graças a mim”.

Quando seu professor deixou Bukhara, ele já possuía autoconfiança suficiente para cuidar sozinho da própria educação. Tinha, nessa ocasião, apenas 16 anos. E passou a ler com afinco os livros de Al-Farabi, o grande comentador muçulmano da obra de Aristóteles. “A cada dia, as portas da ciência abriam-se para mim”, escreveu, avaliando as conquistas intelectuais daquele período. Enquanto isso, começou a estudar também medicina. “Como não era uma ciência difícil, logo fiz grandes progressos, e passei a orientar os estudos de médicos experimentados e a tratar eu mesmo os enfermos de um ponto de vista prático. O tratamento baseado na experiência abriu para mim perspectivas indescritíveis”, anotou.

No ano e meio seguinte, o jovem mergulhou fundo nos estudos. A lógica ocupava a maior parte de sua atenção e ele adquiriu o hábito de tomar qualquer afirmação que encontrasse e tratá-la segundo os rigorosos procedimentos do raciocínio lógico estabelecidos por Aristóteles. Seguindo a sábia orientação do Profeta Muhammad, que ensinou seus seguidores a “comer pouco, dormir pouco e falar pouco”, Avicena dedicava poucas horas ao sono (3). E muitas ao estudo. “Sempre que me defrontava com um problema difícil”, registrou em sua autobiografia, “eu me recolhia à mesquita para orar e pedir ao Criador do universo que me desvendasse o que estava oculto na obscuridade. À noite, regressava à casa, ascendia a lâmpada e voltava a ler e a escrever. Quando o sono e a exaustão começavam a me dominar, bebia uma pequena taça de vinho e esperava o retorno de minhas energias. Recomeçava a ler. E, quando cochilava, via em sonho o mesmo problema que estava me desafiando. Muitos problemas que resolvi foram solucionados em sonho”.

A metafísica de Aristóteles e a interpretação de Al-Farabi

Quando a lógica tornou-se um território conhecido, ele resolveu incursionar por outro e mais difícil domínio da filosofia, a metafísica. Estudou, com a máxima insistência, a Metafísica, de Aristóteles. Porém, a obra não se deixava dominar. Uma grande aventura intelectual estava em curso. É um deleite acompanhá-la por meio das palavras do próprio protagonista: “Li 40 vezes esse tratado, do início ao fim, até chegar a sabê-lo de cor, mas continuava não entendendo nada. Desesperado, conclui: “Esse texto é incompreensível”. Um dia, passando pelo bazar, o livreiro ofereceu-me um livro, gritando seu preço. Desesperado como estava, eu o repeli, convencido de que o livro não me seria útil. Mas ele insistiu, dizendo: ‘Compre; é barato; eu o vendo por três dirhans, porque o dono está precisando de dinheiro’. E o comprei”.

O livro adquirido de maneira tão inusual era nada menos do que o famoso prolegômeno de Al-Farabi à Metafísica de Aristóteles. Nessa obra fundadora, impregnada de especulação neoplatônica e mística sufi, o grande Farabi, que se tornou conhecido como o “segundo filósofo”, sendo o próprio Aristóteles o “primeiro”, neoplatonizou e islamizou a filosofia aristotélica ao ponto de torná-la compreensível e aceitável para um muçulmano piedoso (4). O jovem correu para a casa e leu a obra de um só fôlego. “A Metafísica, de Aristóteles, tornou-se imediatamente clara para mim”, disse, “porque eu já a havia memorizado. Felicíssimo, comecei o dia seguinte distribuindo muitas esmolas aos pobres, como prova de agradecimento”.

Um tesouro digno das Mil e Uma Noites

Sem ter completado ainda 18 anos, ele já gozava de grande renome como intelectual e médico. Sua fama foi às alturas quando curou o sultão Nuh ibn Mansur al-Samai, que reinava em Bukhara. O soberano havia sido acometido de uma grave enfermidade que médico nenhum conseguia debelar. Não possuímos informações sobre a etiologia dessa doença, mas sabemos que Avicena a venceu. E isso abriu para ele todas as portas da corte. Havia uma única porta que o interessava: a da biblioteca. Copiados à mão e ricamente ilustrados, os livros eram então joias raras. E Nuh possuía uma enorme quantidade deles. Como outros soberanos muçulmanos, o sultão de Bukhara fazia de sua grande biblioteca um símbolo de status e poder. O jovem pediu e obteve permissão para consultá-la.

Em uma época como a nossa, saturada de informação, mal podemos imaginar o deslumbramento de Avicena ao entrar na biblioteca real. Com o assombro de um Ali Baba diante do tesouro dos 40 ladrões, ele deparou com uma fortuna incalculável na forma de livros. Seu depoimento: “Entrei em um palácio de muitas salas, com arcas e mais arcas de livros em cada cômodo, separados por especialidade: literatura, poesia, jurisprudência. Consultei o catálogo dos livros antigos [isto é, dos gregos e latinos] e pedi todos aqueles de que necessitava. Entre esses livros, encontrei alguns que muita gente não conhecia nem de nome, livros que eu nunca tinha visto antes, nem voltei a ver depois”.

O grande debate com Al-Biruni

Foi por meio de tais episódios que ele acumulou seus conhecimentos. E, ainda nessa época, já estava maduro para participar de um dos mais famosos debates registrados na história das ideias. Nele, o jovem médico e filósofo confrontou-se com outro gigante do pensamento islâmico, o filósofo, matemático, astrônomo, físico, geólogo, botânico, geógrafo, historiador e poeta Al-Biruni, então com 24 anos. Apesar de ser sete anos mais novo, contando apenas 17, Avicena já possuía um discípulo ilustre, Al-Masumi, que o assessorou nas discussões. O tema central do debate era o tratado astronômico O Céu, de Aristóteles. Mas, além das proposições aristotélicas propriamente ditas, os contendores discutiram várias questões correlatas.

As posições defendidas nesse debate nos dão uma viva ideia de algumas das tendências divergentes que formaram o estofo intelectual da grande civilização muçulmana. Ali estavam, frente a frente, Avicena, o principal representante da corrente filosófica dominante, estruturada sobre o pensamento de Aristóteles e de seus comentadores neoplatônicos, e Al-Biruni, um pensador independente, original e criativo, que não tinha escrúpulos em contestar as mais respeitadas afirmações dos antigos gregos.

Para nós, que lemos sobre esse debate com o distanciamento dos séculos, a ousada posição de Al-Biruni parece muito mais interessante. Como, por exemplo, quando ele contesta a falsa ideia aristotélica de que o movimento circular seria inerente aos corpos celestes. E – antecipando em mais de meio milênio a noção que resultaria na lei da inércia, proposta por Descartes e rigorosamente definida por Newton – afirma que o movimento circular podia muito bem ser forçado ou acidental, ao passo que o deslocamento em linha reta seria uma tendência natural dos astros.

A roda da fortuna

Em sua época e nos séculos seguintes, porém, Avicena exerceu uma influência muito maior e decisiva. A ciência ainda não estava suficientemente madura para assimilar Al-Biruni. Como costuma acontecer com tantas pessoas famosas, Avicena foi, em certa medida, vitimado por sua fama. Tendo deixado Bukhara após a morte do pai, o grande médico e filósofo vagou por cortes diversas, com sua presença disputada por governantes ambiciosos e sua posição e segurança sujeitas ao sobe e desce do jogo político: ora cumulado de honrarias, ora tendo que se exilar, ora grão-vizir, ora na cadeia.

Em meio a essa vida errante, que fez dele um peripatético na acepção da palavra, sempre secundado por seu inseparável discípulo Al-Juzjani, conseguiu ter concentração suficiente para redigir uma obra colossal, parte dela produzida na prisão. Seus escritos abordam uma enorme variedade de temas e subtemas: da metafísica à farmacopeia. E, em condições favoráveis, era capaz de escrever até 50 páginas por dia. Felizmente começou cedo e trabalhou com tanto ardor, pois morreu com apenas 57 anos, em 1037, na cidade de Hamadan, no Irã, onde seus despojos jazem em um imponente mausoléu.

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Notas

(1) Um pequeno perfil de Ibn Árabi está disponível, neste Blog, na seção Espiritualidade / Mestres.

(2) A tradução literal do nome Abu Ali al-Hussain ibn Abd-Allah ibn Hassan ibn Ali ibn Sina é “Pai de Ali, Hussain, filho de Abd-Allah, filho de Hassan, filho de Ali, filho de Sina”. Ibn Sina, de onde derivou a latinização Avicena, refere-se, portanto, ao trisavô do sábio.

(3) O Profeta disse: “São três os adornos do corpo: comer pouco, dormir pouco, falar pouco. São três os adornos do coração: paciência, silêncio, gratidão”. E o Corão afirma: “Ó tu, que te cobres com um manto! Levanta-te à noite e fica em vigília (…) E invoca o Nome de teu Senhor em recordação, e consagra-te inteiramente a Ele com devoção” (sura 73).

(4) Abu Nasr al-Farabi (c.870-950) é considerado não apenas o fundador da filosofia islâmica, mas um dos autores mais influentes na formação das filosofias cristã e judaica medievais. Sua grande realização foi harmonizar Platão e Aristóteles, com base na tradição neoplatônica (Plotino, Proclo e outros), e compatibilizar esse neoplatonismo altamente abstrato com os termos muito mais concretos da revelação corânica.

Como neoplatônico e sufi, Al-Farabi supera a dicotomia entre Deus e o mundo por meio de um monismo radical. Em seu sistema filosófico, o mundo é entendido como uma processão (isto é, algo que procede) de Deus e não uma criação ex-nihilo (isto é, a partir do nada) de Deus (*). Assim, não existe um hiato ontológico intransponível entre o “Criador” e suas “criaturas”. Tudo é Um. Porém a Unidade se estrutura, hierarquicamente, em uma multiplicidade de níveis.

No cume da hierarquia, está Deus, em sua realidade primordial, que Al-Farabi denomina o “Primeiro”. Sobre Ele, o filósofo nada pode afirmar, pois qualquer afirmação implica uma limitação. Por isso, seguindo as pegadas do Pseudo-Dionísio Areopagita e de seus antecessores neoplatônicos, Al-Farabi adota a chamada “via negativa”, e diz que Deus não possui um “outro” e não pode ser definido.

Do “Primeiro” procede o “Segundo”, que instaura o domínio do Intelecto (o nous dos antigos gregos). No esquema farabiano, existem 10 Intelectos, cada qual instalado em si mesmo, o que origina os 10 Céus, e cada qual produzindo, por processão, o seguinte, em uma escala decrescente de plenitude e perfeição. O Décimo Intelecto (que corresponde ao 11º termo da série, a partir do “Primeiro”) conecta o mundo celeste ao mundo terrestre. É o Intelecto Agente (nous poiétikos, em grego; al-‘aql al-fa’âl, em árabe), o causador do intelecto individual no ente humano, e o produtor das formas no mundo terrestre.

A inefabilidade do “Primeiro” parece situá-lo a uma distância infinita, tornando-o inacessível. Mas, se aprofundarmos nosso pensamento, concluiremos que o “Primeiro” é o “Único Existente”, sendo todos os outros termos da série suas manifestações. Ele não pode estar “longe” porque está em tudo e tudo está nele. E Al-Farabi acentua essa intimidade, recorrendo a terminologia dual do Corão, e dirigindo suas súplicas a Deus como o “Senhor dos Mundos” (rabbil ‘alamin).

Outros textos, disponíveis neste Blog, podem contribuir para compreensão da filosofia farabiana. Sobre o inefável: “A realidade absoluta e suas manifestações primordiais”, na seção Espiritualidade / Conceitos. Sobre a via negativa: “A teologia mística”, do Pseudo-Dionísio Areopagita, em Traduções. Sobre a possibilidade de compatibilizar o pensamento monista com a retórica dualista: “Shankaracharya e o advaita indiano” e “Kabir, o tecelão da palavra”, em Espiritualidade / Mestres; e, ainda, “12 Poemas de Kabir”, em Traduções.

(*) Quando discorrem sobre a filosofia neoplatônica, muitos autores utilizam o termo “emanação” para explicar a produção da realidade múltipla a partir da Unidade Primordial. Mas os estudiosos mais sofisticados consideram que o vocábulo “emanação” não expressa com exatidão o conceito nomeado pela palavra grega pródos – literalmente “processão”. Pois no processo de produção da realidade múltipla não existe uma transmissão de substância das instâncias superiores às inferiores. Todas as instâncias são cossubstanciais – ou, talvez fosse melhor dizer, insubstanciais.

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