Madrugada

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ashram 016

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“Awake! Awake! O sleeper of the land of shadows” (William Blake)

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Fazer-me outra vez Adão,

Emergir da lama do autoesquecimento,

Escapar do monstruoso relógio,

Em que somos um nada entre nadas,

Descartável rubi no hipertrofiado mecanismo.

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E então, na cambiante luz da madrugada,

Com silêncio de pássaros e aragem de pinheiros,

Relembrar que afinal sou sempre Borges

E também um calígrafo persa,

Que adotou a profissão de buscador

E penetrou no labirinto cretense

E escalou a torre de Babel

E tocou com as mãos a estrela fria,

Para cair como um cão atropelado

Na avenida que já não respeita os mortos.

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E então, ainda então,

Topar outra vez comigo mesmo,

Esfarrapado aprendiz que volta à casa,

Esquálido iogue, o corpo coberto de cinzas,

Bêbado Li Tai Po, que mergulhou no lago frio

Para beijar os lábios fugidios da lua.

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E sentir girar de novo a plataforma móvel,

Grande ninho, mãe, planeta,

Com sua invisível linhagem,

Venerável sucessão, corrente de ouro,

Teia de tempo tecida no sem-tempo.

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E então, finalmente então,

Evadir-me da rede em que nos debatemos, peixes,

E, atendendo ao inaudível chamado da musa,

Beber o perfume da flor que não se vê,

Reiniciar o passo que não se sabe onde,

Buscar a pedra que não se sabe quando,

E deixar em um canto, junto à roupa suja,

O dormente, o sonâmbulo, o esquecido,

Que escondeu na amnésia e na neblina

Todos os castelos de ouro dos seus sonhos.

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Nota

Este é mais um poema dos anos 1980. E traz a marca de um tempo de despertar.

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