Ibn Árabi: excertos dos Fusûs al-Hikam

Ibn Árabi

Uma representação de Ibn Árabi. Autor desconhecido.Reproduzido de http://www.southworld.net

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Introdução

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Fusûs al-Hikam – literalmente, “Engastes das Sabedorias” – é uma das obras maiores de Ibn Árabi (1165 – 1240), o grande místico ao qual os sufis atribuíram o epíteto de ash-shaykh al-akbar, “o maior dos mestres”.

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Abu Bakr Muhammad ibn Ali ibn al-Árabi, cognominado Muhyiddin, que, na língua árabe, significa “Vivificador da Fé”, nasceu em 1165 em Múrcia, na Andaluzia muçulmana, e morreu em 1240, em Damasco, na Síria, onde seu corpo está sepultado até hoje.

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A tradição creditou-lhe cerca de 800 livros. Destes, mais de cem se preservaram e foram devidamente autenticados pelos estudiosos, com todos os recursos do aparato crítico contemporâneo. Seu opus magno, Al-futûhât al-makkiyya (“Os desvelamentos de Meca”) contém, na edição moderna em árabe, cerca de 15 mil páginas. Menos de dez por cento desse conteúdo gigantesco foi, até o momento, traduzido em línguas ocidentais.

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A dimensão dos Fusûs al-Hikam é incomparavelmente menor. Mas, por isso mesmo, e também por sua forma de exposição direta, foi esta a obra que mais influenciou os seguidores de Ibn Árabi e a que mais despertou a ira de seus opositores. Segundo a estudiosa francesa Claude Addas, uma das maiores especialistas em Ibn Árabi na atualidade, aquilo que se encontra disperso em meio a mil assuntos em “Os desvelamentos de Meca” é apresentado de modo explícito e concentrado em Fusûs al-Hikam.

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E o que foi mesmo que ele apresentou e que suscitou tanta exaltação, a favor ou contra? Os partidários e os adversários de Ibn Árabi resumiram sua doutrina por meio da expressão Wahdat al-Wujûd, “Unicidade do Ser”.

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Se é que a entendo bem, essa doutrina concebe Deus como a única Realidade, das qual todas as realidades são manifestações. Deus é uno e único, e não existe nada que não seja Ele. Os incontáveis entes e fenômenos do mundo são evidentemente reais, mas não retiram sua realidade de si mesmos, e, sim, da Realidade Divina. Não possuem um ser próprio: seu ser é o próprio Ser.

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Por isso, em “Os desvelamentos de Meca”, Ibn Árabi escreveu: “Se dizes [do universo] que ele real, tu dizes a verdade; se dizes que ele é ilusório, tu não mentes”. E, nos “Engastes das Sabedorias”, afirmou: “Tudo o que percebemos é o Ser de Deus nas essências dos possíveis”.

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Tal ponto de vista provocou, é claro, a indignação dos teólogos literalistas. Presos a uma leitura superficial do Corão, estes não podiam senão conceber duas realidades distintas: o Criador e as criaturas, Deus e o mundo. Para eles, a idéia da “Unicidade do Ser” constituía uma perigosa heresia.

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No entanto, Ibn Árabi foi um muçulmano rigoroso, cumpridor de todos os preceitos da Sharia, a lei islâmica. Ocorre que sua leitura do Corão e dos Hadith (os ditos atribuídos ao profeta Muhammad) passava pelo filtro de suas próprias experiências místicas. Incontáveis e assombrosas, estas o autorizaram às maiores audácias na interpretação dos textos sagrados.

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Uma dessas experiências foi justamente aquela que o levou a escrever os “Engastes das Sabedorias”. Disse Ibn Árabi: “Eu vi o Enviado de Deus [o Profeta Muhammad] em uma visão de bom augúrio (…) Em sua mão, ele tinha um livro e me disse: ‘Este é o livro dos Fusûs al-Hikam. Tome-o e leve-o aos homens a fim de que eles tirem proveito’ (…) Eu me propus, então, a realizar tal desejo. Com essa finalidade, purifiquei minha intenção e minha aspiração para fazer conhecer esse livro tal como mo atribuiu o Enviado de Deus, sem nada acrescentar ou omitir”.

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Essa experiência sobrenatural, uma das várias em que Ibn Árabi contemplou em visão e recebeu instruções do Profeta Muhammad (570 d.C. – 632d.C.), ocorreu em Damasco, em dezembro de 1229, no início de sua última década de vida.

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Os excertos aqui publicados compõem o início do primeiro capítulo dos Fusûs al-Hikam. Eu os traduzi para o português a partir da famosa versão francesa de Titus Burckhardt (1908 – 1984): La Sagesse des Prophètes (Paris, Éditions Albin Michel, 1974). Espero poder atualizar de tempos em tempos esta postagem, com acréscimos de novos excertos.

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Os Excertos

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Deus quis ver as essências de seus muito perfeitos Nomes, que o número não conseguiria esgotar (e, se quiseres, podes dizer também que Deus quis ver sua própria Essência em um objeto global que, sendo dotado de existência, resumisse toda a Ordem Divina), a fim de manifestar por esse meio seu Mistério para Si Mesmo.

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Pois a visão que a coisa tem de si mesma em si mesma não é como a que lhe oferece outra realidade, da qual ela se serve como de um espelho: ela se manifesta então a si mesma sob a forma que resulta do lugar da visão; esta não existiria sem esse plano de reflexão e o raio que nele se reflete.

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Deus criou primeiro o mundo inteiro como uma coisa amorfa e desprovida de graça, semelhante a um espelho ainda não polido. Ora, é uma regra da Atividade Divina não preparar nenhum lugar sem que este receba um Espírito Divino, o que se afirma [no Corão] pela insuflação do Espírito Divino em Adão; e isto não é outra coisa senão a atualização de uma aptidão que tal forma possui, previamente disposta a receber a efusão inesgotável do desvelamento essencial.

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Não havia, então, senão um puro receptáculo; mas esse receptáculo provinha ele mesmo da Santíssima Efusão. Pois a realidade inteira, de seu começo ao seu fim, vem de Deus apenas, e é para Ele que retorna.

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Assim, então, a Ordem Divina exigia a clarificação do espelho do mundo; e Adão tornou-se a clareza desse espelho e o espírito dessa forma.

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Quanto aos anjos, eles representam certas faculdades dessa forma do mundo que os sufis chamam de “Grande Homem” (al-Insân al-Kabîr), de sorte que os anjos são para esta o que as faculdades espirituais e físicas são para o organismo humano.

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Cada uma dessas faculdades se encontra como que velada por sua própria natureza; ela não concebe nada que seja superior à sua essência; pois há nela qualquer coisa que pretende ser digna de alta classificação e de posição elevada junto a Deus. E assim é porque ela participa da Síntese Divina, que rege o que há, seja da parte do Divino, seja da parte da Realidade das Realidades, seja da parte da Natureza Universal; esta engloba todos os receptáculos do mundo, de alto a baixo.

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Mas isto a razão discursiva não compreenderá, porque esta ordem de conhecimento compete apenas à Intuição Divina; é por ela somente que se conhecerá a raiz das formas do mundo, como receptivas aos espíritos que as regem.

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Então, esse ser foi chamado de homem (insân) e de representante (khalîfah) de Deus. Quanto à sua qualidade de homem, ela designa sua natureza sintética e sua aptidão a abraçar todas as Verdades Essenciais. O homem é para Deus o que a pupila é para o olho, a pupila sendo aquilo pelo qual a visão se efetua. Pois, por meio dele, Deus contempla sua criação e lhe dispensa sua misericórdia.

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Tal é o homem, ao mesmo tempo efêmero e eterno, criatura e imortal, verbo discriminante e unificador.

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Por sua existência, o mundo foi completado. Ele é para o mundo o que o engaste é para o anel. O engaste porta o selo que o rei aplica sobre os cofres de seu tesouro. É por isso que o homem é chamado de representante de Deus, do qual ele salvaguarda a criação, como se salvaguardam os tesouros por meio de um selo. Enquanto o selo do rei permanece sobre os cofres do tesouro, ninguém ousa abri-los sem sua permissão. Assim ao homem foi confiada a salvaguarda divina do mundo, e o mundo não deixará de ser salvaguardado enquanto esse homem universal permanecer nele.

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Não vês que, quando ele desaparecer e for elevado dos cofres deste baixo mundo, nada do que Deus aqui conserva permanecerá? Tudo que eles contêm partirá; cada parte se reunirá à sua parte; o todo se transportará ao outro mundo; e [o homem] será o selo dos cofres do outro mundo perpetuamente.

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Tudo o que diz respeito à Forma Divina, isto é, todo o conjunto dos Nomes, se manifesta nessa constituição humana, que, por isso, se distingue pela integração de tudo. Daí a Ordem Divina comandando os anjos [a se prostrarem diante de Adão]. Retém isto, pois Deus te exorta pelos exemplos de outros e observa onde o julgamento toca naquele que ele toca.

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Os anjos não sabiam no que implicava a constituição desse representante, e tampouco no que implicava a adoração essencial de Deus; pois cada um só conhece de Deus o que infere de si mesmo.

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Ora, os anjos não têm a natureza integral de Adão. Não sabiam, portanto, dos Nomes Divinos cujo conhecimento é o privilégio dessa natureza e por meio dos quais esta o louva e o proclama santo. Não sabiam que Deus possui Nomes que se subtraem ao conhecimento deles e por meio dos quais eles não conseguiriam louvá-lo nem proclamá-lo santo.

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Eles foram vítimas de sua própria limitação quando disseram a respeito da criação: “Queres então criar alguém que semeie a corrupção?”. Ora, o que é essa corrupção senão a revolta que eles mesmos precisamente manifestaram? O que disseram de Adão se aplica à sua própria atitude em relação a Deus.

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Além disso, se tal possibilidade [de revolta] não estivesse na própria natureza deles, eles não teriam inconscientemente afirmado acerca de Adão. Se tivessem consciência de si mesmos, teriam estado isentos, por esse mesmo conhecimento, de suas limitações; não teriam insistido até tornar vãs sua própria louvação de Deus e sua proclamação de santidade. Ao passo que Adão conhecia os Nomes Divinos que os anjos ignoravam, de sorte que a louvação e a proclamação da santidade divina destes não se comparavam àquelas de Adão.

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Isto Deus nos descreve para que nos ponhamos em guarda e aprendamos a justa atitude em relação a Ele – exaltado seja Ele! –, livres de pretensão a respeito do que tenhamos realizado ou abraçado por nossa própria ciência individual. Além disso, como poderíamos pretender possuir qualquer coisa que nos ultrapassa e que não conhecemos? Sê então atento a esta instrução divina sobre a maneira como Deus castiga os mais obedientes e os mais fieis de seus servidores, seus mais próximos representantes.

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