Confúcio: a ética como imperativo espiritual

Estátua de Confúcio em Hunan, China.

“Confúcio disse”: tempos atrás, quando pretendia representar um chinês típico, o cinema norte-americano colocava inevitavelmente esta frase nos lábios do personagem. Porque, assim como no Ocidente virou moda dizer “Freud explica”, a expressão “Confúcio disse” era um atestado de boa educação e refinamento no Extremo Oriente. Chineses, japoneses, coreanos, vietnamitas e outros povos orientais acreditavam mesmo que esse sábio, que viveu na China há cerca de 2500 anos, no século 5 a.C., dissera tudo o que havia para ser dito.

 

De fato, seu pensamento, focado no comportamento humano, modelou toda a história da China, e, por extensão, do Extremo Oriente, substituindo um paradigma aristocrático, baseado na superioridade hereditária, por outro, pautado pela superioridade moral. Nessa vasta porção do globo, Confúcio tornou-se o protótipo do instrutor intelectual e ético. E, até hoje, a suposta data de seu aniversário, 28 de setembro, é comemorada pelos chineses como o Dia do Professor.

 

O mestre fazia questão de evitar temas religiosos e metafísicos em sua filosofia. Mesmo assim, o confucionismo foi adotado como uma espécie de religião do Estado no período imperial. Sua influência foi prolongada e avassaladora. Na década de 1970, durante a era maoísta, no último episódio da chamada Revolução Cultural, baseada na concepção materialista do mundo, o Partido Comunista chinês promoveu intensa campanha nacional contra ele. Mas depois o reabilitou. E, a partir da década de 1990, voltou a promover grandes festas comemorativas na data de seu aniversário. Na abertura oficial das Olimpíadas de 2008, Confúcio voltou a ser homenageado.

 

Os Analectos, o único livro que se sabe ser, com toda segurança, um registro de suas ideias, é, como o título diz, uma coleção de aforismos ou pequenas sentenças. Algumas teriam sido expressas pelo próprio Confúcio; outras, por seus principais alunos. A obra não foi escrita diretamente pelo mestre, mas pelos discípulos e por discípulos dos discípulos. Levou quase um século até ser inteiramente composta. Apesar disso, apresenta extrema coerência. Enfatiza as virtudes que devem modelar o comportamento individual e o relacionamento em sociedade. O sábio atribuía grande importância à política, vista por ele como uma extensão da ética. “Governo é sinônimo de honestidade”, afirmou. “Se o rei for honesto, como alguém ousará ser desonesto?”.

 

Kong Qiu era o seu nome verdadeiro. Uma ocidentalização dos vocábulos chineses Kong Fuzi, que significam Mestre Kong, resultou na denominação Confúcio. Ele viveu provavelmente entre 551 e 479 a.C, em uma época da história chinesa conhecida como Período da Primavera e Outono. O país possuía, então, uma estrutura econômica, social e política semelhante à do feudalismo europeu. Embora governado oficialmente pela dinastia Zhou (1046-256 a.C.), encontrava-se, de fato, dividido em centenas de principados, de tamanhos variados. Os Zhou exerciam seu poder apenas sobre uma pequena região, enquanto os demais príncipes gozavam de grande autonomia. O resultado era a submissão dos principados mais fracos pelos mais fortes, guerras frequentes, e uma vida dura para a população.

 

O Deus dos Sonhos

 

Morto cinco século antes, Zhougong, o duque de Zhou, havia consolidado a dinastia e era considerado o herói cultural da China. Segundo a tradição, fora ele quem anotara os 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações, utilizado como oráculo. Também estabelecera os principais ritos antigos e criara os cânones da música clássica. Os chineses o chamavam de “Deus dos Sonhos”, porque, afirmavam, toda vez que alguma coisa muito importante estava para acontecer com alguém, o duque de Zhou aparecia à pessoa em sonho, preparando-a para o evento.

 

“Passou-se muito tempo desde que vi o duque de Zhou em sonho pela última vez”, disse Confúcio, nos  Analectos. Era uma forma metafórica de manifestar seu descontentamento com o tempo presente e sua nostalgia pelo passado. O famoso sinólogo Simon Leys, que traduziu a obra para o inglês, afirma que, assim como os antigos Zhou acreditavam possuir um mandato celestial para governar o país, também Confúcio estava convencido de que o Céu o escolhera para restaurar a ordem e salvar a civilização.

 

Kong Qiu nasceu em uma família da pequena nobreza empobrecida. Sua pretensão de desempenhar um papel tão proeminente na política chinesa não se baseava em nenhum critério hereditário, mas no valor intelectual e moral que sabia possuir. De fato, uma das grandes novidades introduzidas nos Analectos foi atribuir à palavra junzi, que significa cavalheiro, um valor ético em vez de social. O junzi, o homem ideal de Confúcio, não era necessariamente um aristocrata de nascimento, mas alguém que, pela educação e pela prática da virtude, havia alcançado a nobreza de caráter. Era a esse cavalheiro, por mérito e não por origem de classe ou fortuna, que cabia governar.

 

Antes de Confúcio, o maior de seus contemporâneos, o grande sábio Laozi (Lao Tse) já havia exaltado a prática da virtude e feito duras críticas à ordem aristocrática. Mas Laozi estava menos preocupado em aperfeiçoar a política do que em buscar, na natureza e dentro de si mesmo, a própria essência da perfeição. Era um iogue, ao passo que Confúcio possuía o temperamento do cortesão. Por isso, apesar de sua imensa importância espiritual e filosófica, o taoísmo, derivado de Laozi, não marcou tanto a política chinesa quanto o confucionismo.

 

O conceito confuciano de junzi exerceu uma enorme e duradoura influência, abalando o poder da aristocracia hereditária e legitimando a instauração de um governo burocrático, estruturado com base no mérito de seus quadros. Durante mais de 2 mil anos, o império chinês seria dirigido por funcionários públicos, aprovados nos exames do serviço civil, nos quais aspirantes de diferentes classes sociais podiam participar. Esse ideal sobrevive na grande importância atribuída à educação em países como a China, o Japão e a Coréia. E até mesmo explica por que, no Brasil, jovens de famílias chinesas, japonesas e coreanas se saem tão bem nos estudos.

 

Estrela Polar

 

Mas, como acontece com freqüência, esse filósofo, tão reverenciado depois de morto, não teve sucesso em vida. E passou grande parte da existência viajando de principado em principado, em busca de um governante disposto a aceitar suas idéias e contratar seus serviços. Ele queria um cargo político que lhe permitisse construir um Estado que se tornasse modelo para todos os demais. Discípulos fiéis e altamente qualificados o acompanhavam.

 

Consta que, aos 53 anos, Confúcio exerceu uma função equivalente à de ministro da Justiça no Estado de Lu. Mas ficou pouco tempo no cargo. Temendo seu poderio crescente, o chefe de um principado vizinho enviou 80 lindas bailarinas e 100 excelentes cavalos ao duque de Lu. Entretido com o presente, o governante negligenciou seus deveres de Estado. O mestre ficou muito desgostoso com a atitude e renunciou ao ministério. Os Analectos atribuem-lhe esta sentença, que teria sido motivada pelo incidente: “Quem governa pela virtude é como a Estrela Polar, que permanece imóvel no seu lugar, enquanto todas as outras estrelas circulam respeitosamente em torno dela”.

 

Dizem os biógrafos que Confúcio exerceu as profissões de pecuarista, escriturário e guarda-livros. Casou-se, aos 19 anos, com uma moça chamada Qi Quan, e, um ano depois, teve com ela seu primeiro filho, Kong Li. Nos Analectos, ele mesmo resume sua biografia: “Aos 15 anos, orientei minha mente para aprender. Aos 30, plantei meus pés firmemente no chão. Aos 40, não tinha mais dúvidas. Aos 50, conhecia a vontade do Céu. Aos 60, meu ouvido estava sintonizado. Aos 70, sigo todos os desejos de meu coração sem transgredir nenhuma regra”. Supõe-se que tenha morrido com 72 ou 73.

 

Manipulação política

 

Confúcio já foi considerado um filósofo extremamente conservador. De fato, suas idéias serviram de justificativa para um sistema econômico, social e político que pretendeu permanecer inalterado por mais de dois milênios. O conservadorismo político usou e abusou do confucionismo para se legitimar. Por isso, todos os movimentos revolucionários que sacudiram a China foram assumidamente anticonfucianos. A parte de seu pensamento que foi enfatizada pelo poder feudal envolve a doutrina tradicional da tríplice submissão: dos filhos aos pais, das esposas aos maridos, dos governados aos governantes. Ela transparece, por exemplo, nesta sentença dos Analectos: “Em casa, um jovem deve respeitar seus pais; fora de casa, deve respeitar os mais velhos. Deve falar pouco, mas de boa-fé; amar todas as pessoas, mas associar-se aos virtuosos. Tendo feito isso, se ainda tiver energia disponível, que estude literatura”.

 

Mas é preciso relativizar as posições de Confúcio. Primeiro, porque os aspectos mais conservadores de sua doutrina não são invenção própria, mas um patrimônio comum à antiga cultura chinesa, pautada pela lealdade familiar, o respeito às autoridades e o culto aos antepassados. Segundo, porque, ao se apropriar do pensamento confuciano, o sistema imperial chinês pegou apenas aquilo que lhe convinha e varreu o resto para baixo do tapete.

 

O núcleo da ética confuciana, baseada na cortesia ritual (li), é a idéia da reciprocidade, resumida da frase “não faças aos outros o que não queres que te façam”. Os privilégios de classe, a corrupção administrativa, a coerção policial que caracterizaram o sistema imperial não são uma herança do confucionismo, mas, ao contrário, ingredientes anticonfucianos por excelência, que foram acrescentados, de forma espúria, à receita original do mestre. Esquivando-se das perguntas sobre temas místicos, ele nunca teve um projeto religioso. Seu propósito era fazer da boa conduta uma religião. “Se ofendes o Céu”, disse, “qualquer prece é inútil.”

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