O pássaro solitário (um poema de Kabir)

Pássaro 2

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Em certa árvore há um pássaro, que canta a alegria da vida.

Nos galhos mais escondidos, lá ele pousa e repousa.

Chega ao descer o crepúsculo e parte ao erguer-se a aurora.

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Quem sabe que pássaro é esse que canta dentro de mim?

Não tem forma nem cor, não tem contorno nem estofo.

Pousa na sombra do amor e repousa no inatingível.

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Kabir diz: Ó sadhu, meu irmão, profundo é este mistério.

Deixa que os sábios descubram onde tal pássaro se esconde.

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Nota

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San Juan de la Cruz (1542 – 1591), o grande místico espanhol, também utilizou a metáfora do “pássaro solitário”. E assim enunciou suas cinco propriedades: “a primeira é que ordinariamente se coloca no local mais alto; a segunda é que sempre volta o seu bico para o lugar de onde vem o ar; a terceira é que geralmente está só e não admite nenhuma outra ave junto de si, senão que, pousando alguma por perto, logo se vai; a quarta é que canta muito suavemente; a quinta é que não é de nenhuma cor determinada”.

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A época da vida de Kabir, datada pelos estudiosos entre os anos 1398 e 1518, é um pouco anterior à de San Juan de la Cruz. Embora as características dos “pássaros” referidos pelos dois mestres se assemelhem muito, o indiano emprestou à sua ave simbólica uma expressão mais alegre.

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Este poema, recriado em português a partir da tradução inglesa de Rabindranath Tagore, está publicado em meu livro Kabir: Cem Poemas (Attar Editorial, 2013).

 

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