O sonho de Pauli

Pauli

Foto oficial de Wolfgang Pauli, divulgada em 1945, por ocasião do Prêmio Nobel

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Wolfgang Pauli (Viena, Áustria, 1900 – Zurique, Suíça, 1958) foi um dos maiores cientistas do século XX. Trabalhou na teoria do spin do elétron e postulou a existência do neutrino. Sua contribuição mais famosa, o Princípio de Exclusão, segundo o qual duas partículas (férmions) idênticas não podem ocupar o mesmo estado quântico simultaneamente, tornou-se uma das vigas de sustentação da mecânica quântica. Em 1945, recebeu o Prêmio Nobel de Física.

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Era considerado um gênio. E um homem extremamente turbulento: sarcástico na crítica aos erros dos colegas, envolvido em relacionamentos afetivos conflituosos e consumidor compulsivo de álcool e tabaco. Seu tumulto intrapsíquico frequentemente transbordava no meio ambiente, produzindo fenômenos de tipo poltergeist. Era comum que objetos se quebrassem quando ele entrava em algum lugar. Os amigos cientistas divertiam-se com essas exteriorizações, que chamavam de “Efeito Pauli”, mas se apressavam em proteger seus equipamentos caso soubessem  que ele estava chegando.

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1930 foi um ano especialmente importante em sua vida. Depois de postular a existência do neutrino; de se divorciar de Käthe Margarethe Deppner, dançarina e cantora de cabaré com quem havia se casado apenas um ano antes; e de ter seu precário equilíbrio abalado pelo suicídio da mãe, Pauli mergulhou em grave crise psíquica. Foi quando seu pai, o químico Wolfgang Joseph, judeu convertido ao catolicismo, o encaminhou para tratamento psicoterapêutico com Carl Gustav Jung (1875 – 1961).

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Jung e Pauli rapidamente se tornaram amigos e colaboradores. Jung ficou especialmente encantado com a exuberância simbólica dos sonhos de Pauli, a partir dos quais elaborou muitos de seus conceitos relativos aos arquétipos. E, assim com anteriormente havia dado contribuições fundamentais para o desenvolvimento da teoria quântica, mantendo intensa troca de ideias com Bohr, Heisenberg e outros, Pauli passou a contribuir também para o desenvolvimento da teoria junguiana.

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Um importante artigo escrito por ele a partir das categorias junguianas foi “A influência das ideias arquetípicas nas teorias científicas de Kepler”. Nesse texto, publicado pela primeira vez em 1952, o físico cotejou as visões-de-mundo do grande astrônomo alemão Johannes Kepler (1571 –1630) e do médico e alquimista inglês Robert Fludd (1574 – 1637), apresentando-as como dois paradigmas contraditórios, que ele mesmo, Pauli, estava interessado em sintetizar — o que não aconteceu.

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Um perfil minimamente razoável de Pauli demandaria muitas outras informações e análises. Mas não é o caso agora. O que me interessa, aqui, é relatar o sonho mais famoso do cientista, ocorrido em 1947, no qual ele manteve um diálogo altamente interessante, e até certo ponto divertido, com um personagem recorrente em seu mundo onírico. Sem nenhum outro motivo, exceto pelo fato de esse jovem personagem ter a pele escura, Pauli o chamava de “O Persa”. Aqui vai a tradução literal da narrativa, feita pelo próprio Pauli, na primeira pessoa e com o verbo no presente:

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“Eu chego à minha antiga residência. E vejo como um jovem de pele escura, no qual reconheço ‘O Persa’, está colocando objetos dentro da casa através da janela. Distingo uma peça circular de madeira e várias letras. Então, ele se aproxima de mim de maneira amistosa e eu inicio uma conversação com ele.

Pauli: Você não está autorizado a estudar?

Persa: Não, agora eu estudo em segredo.

Pauli: Que assunto você está estudando?

Persa: Você.

Pauli: Você fala comigo com uma voz muito cortante!

Persa: Eu falo como alguém para o qual tudo mais está proibido.

Pauli: Você é minha sombra?

Persa: Eu estou entre você e a Luz. Portanto, você é minha sombra, e não o inverso.

Pauli: Você estuda física?

Persa: Nela, sua linguagem é muito difícil para mim. Mas, em minha linguagem, você não entenderia a física”.

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É interessante observar que Pauli estava, na época, tão impregnado do pensamento de Jung que, mesmo durante o sonho, tentou enquadrar seu personagem em uma categoria junguiana, perguntando-lhe se era sua “sombra”. A resposta do “Persa” foi uma formidável puxada de tapete. E dá muito o que pensar.

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Esse sonho poderia ter sido para Pauli a via de acesso a um vasto mundo. Mas, apesar de sua genialidade, ele não conseguiu encontrar a chave que lhe permitiria abrir a porta. Buscando se libertar das amarras do paradigma científico hegemônico, o cientista se deixara aprisionar por outra camisa-de-força paradigmática. E isso, de certa forma, tolheu sua visão. Em 1951, apaixonou-se por Marie-Louise von Franz (1915 — 1998), importante colaboradora de Jung e guardiã da ortodoxia junguiana. Sua paixão não foi correspondida. E Von Franz parece ter-se empenhado mais em cortar as asinhas de Pauli do que em encorajar seus largos voos intelectuais.

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Além disso, não houve tempo. Os excessos cometidos cobraram seu preço. E, em poucos anos, o cientista foi acometido de câncer no pâncreas. Durante muito tempo, Pauli empenhou-se na compreensão da chamada “constante da estrutura fina”. O número que expressa essa constante, e que vale, aproximadamente, 1/137, tornou-se, para ele, uma verdadeira obsessão. Quando, internado no hospital em Zurique, recebeu a visita de seu assistente Charles Enz, Pauli perguntou-lhe se havia reparado no número do quarto. Enz respondeu que sim e o cientista afirmou que tinha certeza de que não sairia daquele quarto. O número era 137. Pauli morreu no quarto 137, no dia 15 de dezembro de 1958, com apenas 58 anos.

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