Lagoa de Guatavita

Guatavita 2

A tremulação da superfície aquosa e o reflexo do céu cambiante fazem com que a aparência da lagoa sagrada mude o tempo todo [foto: JTA].

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A Lagoa de Guatavita é o mais sagrado dos Lugares de Poder reverenciados pelos Muiscas – povo indígena que habita a região onde se situa a cidade de Bogotá e áreas próximas, no coração da Colômbia. Trata-se de uma depressão de formato aproximadamente circular, localizada no cume de uma montanha, a cerca de 3 mil metros de altitude. Sua aparência é a de um vulcão extinto, com a cratera preenchida pela água. Mas a hipótese mais provável é a de que tenha se formado em função do impacto de um meteoro. Sua história recente é bem um retrato em miniatura da própria história da América depois da conquista europeia.

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Nos tempos ancestrais, Guatavia era o palco solene da investidura do Zipa, o cacique muisca. Em uma data propícia do ano, sobre uma balsa de junco ricamente ornamentada e acompanhado por quatro sacerdotes, ele se dirigia ao centro da lagoa. Seu corpo, untado com mel de abelha e resina vegetal e polvilhado com pó de ouro, resplandecia sob as primeiras luzes da lua cheia ascendente. Com coroa, colar, brincos, braceletes e outros adereços de ouro, o futuro Zipa era, então, a própria personificação do Deus Sol, o Princípio Masculino. E levava consigo uma enorme quantidade de pequenos objetos de ouro, produzidos pelos vários integrantes da comunidade, para oferecer à Lagoa, que, mais do que um símbolo, constituía a manifestação material da Grande Deusa, o Princípio Feminino.

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Quando a balsa chegava ao centro, os tambores e as vozes dos indígenas, distribuídos na orla da superfície líquida, silenciavam. E, muito respeitosamente, o futuro Zipa entregava os objetos às águas. Depois, ele mesmo mergulhava, em um ato simbólico de penetração, por meio do qual se consumava aquilo que os antigos gregos chamaram de Hieros Gamos, o Casamento Sagrado do Deus e da Deusa.

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O relato dessa cerimônia imponente deu origem à lenda do El Dorado, que, mais do que qualquer outra, assanhou a cobiça dos rudes conquistadores espanhóis. Em pouco tempo, eles chegaram a Guatavita, e construíram um canal para drenar as águas da Lagoa e alcançar as riquezas depositadas no fundo. O empreendimento não correu exatamente como esperavam, porque muitos objetivos haviam penetrado profundamente no lodo. Além disso, uma vez esvaziada, a Lagoa rapidamente voltava a se encher, por força das chuvas e das nascentes de água. Mesmo assim, uma quantidade descomunal de ouro foi saqueada e enviada à Espanha.

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Em seu famoso discurso a chefes de Estado e dignitários da Comunidade Europeia, que constitui uma magnífica peça de ironia e retórica, o presidente boliviano Evo Morales fez um balanço parcial do roubo de metais preciosos perpetrados pelos conquistadores espanhóis na América. “Consta no Archivo de Indias, papel sobre papel, recibo sobre recibo e assinatura sobre assinatura, que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a Sanlúcar de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América”, disse.

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Seria preciso alargar as balizas cronológicas, acrescentar as apropriações de pedras e metais preciosos perpetradas pelos portugueses no Brasil, e computar principalmente os lucros fabulosos auferidos com a venda de produtos coloniais como o açúcar e o tabaco e com o próprio comércio escravista, para compor aquilo que Marx chamou de “acumulação primitiva do capital” – o vê-zero que propiciou a decolagem do modo de produção capitalista. Tal decolagem, como se sabe, não ocorreu na Espanha nem em Portugal, mas na Inglaterra e nos Países Baixos, porque os colonialistas espanhóis e portugueses deixaram escorrer pelos vãos dos dedos as riquezas que tão sofregamente subtraíram à América. Do ponto de vista capitalista, Espanha e Portugal permaneceriam subdesenvolvidos até a segunda metade do século XX.

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O fim do domínio espanhol e a emancipação política da Colômbia em 1819, após a longa guerra pela independência liderada por Bolívar e Santander, não puseram fim às profanações da Lagoa. A cobiça pelo ouro motivou novas agressões à Grande Deusa e ao seu Meio Ambiente. E, quando a expectativa do ouro se esgotou, a área tornou-se palco para piqueniques de final de semana, com seu rastro de lixo e depredação.

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Nos últimos tempos, felizmente, o cenário mudou. Depois de permanecer interditada ao público para se recuperar dos danos sofridos, a área passou a fazer parte do Parque Natural Laguna de Guatavita. O espaço é cercado; os caminhos, demarcados; e a visitação, severamente fiscalizada. Os indígenas da região e das cercanias voltaram a ter vez e voz, organizados em cabildos locais, autônomos e independentes, integrados, por sua vez, no Cabildo Mayor del Pueblo Muisca. Uma construção de formato circular no interior do parque é reservada para suas assembleias políticas e práticas espirituais.

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A Lagoa agora está cheia; a vegetação, exuberante; e o entorno, escrupulosamente limpo. A recuperação densa provida pelo organismo público responsável pela área e a recuperação sutil potencializada pelos rituais muiscas devolveram a Guatavita sua silenciosa sacralidade. O menos adequado que se pode encontrar lá agora é algum apressado grupo de turistas chineses, mais interessados em tirar rapidamente suas fotografias, do que em desfrutar da pura atmosfera do local.

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Guatavita

Depois de séculos de profanações, Guatavita e seu entorno estão agora recuperados [foto: JTA].

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1 comentário

  1. Daniel Undurraga

     /  11 de abril de 2017

    Muy hermoso,…tuve la Gracia de recorrer juntos este maravilloso lugar de ceremonial Muisca. Calmando la mente pude entrar en su dimensión profunda,..tal como reza el escrito del Cabildo Muisca al comenzar el Sendero.
    “Madre de la Vida, protectora del territorio, vientre sagrado, silencio del alma, espejo de los sueños, canto de la gente, templo de la Creación, guardiana del equilibrio, pagamento de la vida” Ofrezcamos de corazón un pensamiento hermoso y un cálido sentimiento de gratitud a Guatavita: “Madre de la Vida”
    Pese a la avaricia y codicia del ego del hombre, la Verdad siempre triunfará.
    Muchas gracias por la profundidad de sus escritos. Un gran abrazo Ganapati !!!

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