Porfírio: “Sobre a vida de Plotino e a organização de seus livros” [1]

Plotino (204 d.C. -- 270 d.C.)

Plotino (204 d.C. — 270 d.C.)

Esta preciosa tradução do texto de Porfírio (“Sobre a vida de Plotino e a organização de seus livros”), com numerosas notas explicativas, foi feita pelo professor José Carlos Baracat Júnior. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (1997), mestre (2001) e doutor (2006) pela mesma instituição, Baracat é professor de Língua e Literatura Gregas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No momento, dedica-se à tradução integral das Enéadas de Plotino, uma tarefa intelectual de proporções gigantescas.

Há tempos eu queria postar neste blog um perfil de Plotino (204 d.C. — 270 d.C.). Mas pensei que, melhor do que escrever um texto apenas parcialmente satisfatório, como fiz em meu livro Mestres, seria traduzir a “Vida de Plotino”, de Porfírio. Pois a biografia escrita por Porfírio, discípulo direto de Plotino, foi e continua sendo a principal fonte de informações sobre o grande filósofo neoplatônico. Eu ia traduzir a partir de alguma tradução em inglês, francês ou espanhol, quando deparei com a excelente tradução do professor Baracat, feita a partir da edição coordenada por Luc Brisson (com o texto grego e a tradução francesa). Pedi-lhe permissão para postá-la aqui — o que ele consentiu com a máxima presteza e cortesia. Considero esta tradução um verdadeiro presente para os eventuais leitores do blog.

Segue o texto de Porfírio:

1. Plotino, o filósofo de nosso tempo, parecia envergonhar-se de estar em um corpo[2]. Devido a tal disposição, não suportava falar nem de sua origem, nem de seus pais, nem de sua pátria. Tolerar um pintor ou um escultor lhe parecia tão indigno a ponto de responder a Amélio[3], que lhe pedira permissão para que se fizesse um retrato dele: “Pois não basta carregar a imagem com que a natureza nos revestiu, mas ainda devo concordar em legar uma imagem mais duradoura da imagem, como se essa fosse de fato alguma das obras dignas de serem contempladas?”[4] Por isso, como o proibia e se negava a posar por tal motivo, Amélio, que tinha como amigo Cartério, o melhor dos pintores dessa época, fê-lo entrar e assistir às reuniões – pois era permitido a quem quisesse freqüentá-las -, e o acostumou a conceber imagens mentais mais exatas oriundas da observação, através de uma prolongada atenção. Em seguida, após desenhar o retrato a partir da imagem conservada em sua memória, Amélio corrigiu o traço até a semelhança, e o talento de Cartério permitiu a realização de um retrato fidelíssimo de Plotino, embora ele o desconhecesse[5].

2. Embora amiúde acometido por um distúrbio intestinal, não tolerava o clister, dizendo não ser próprio de um ancião submeter-se a tais tratamentos, nem se submeteu a tomar remédios teriacais, dizendo que não se deve aceitar alimentos oriundos do corpo de animais domésticos. Também se abstinha do banho[6], mas recebia massagens todos os dias em casa. Quando a peste se agravou, aconteceu de morrerem seus massagistas e, como negligenciou esse tratamento, deixou que nele se instalasse uma angina aguda. Enquanto eu estive ao seu lado[7], nada disso se manifestara; mas, depois que parti, a afecção se agudizou, conforme contou-me, quando retornei, o amigo Eustóquio, que permaneceu com ele até à morte, a tal ponto que sua voz perdeu a claridade e a sonoridade, tornando-se rouca, sua vista se nublou e suas mãos e seus pés ulceraram[8]; por isso, como seus amigos evitavam encontrá-lo, por ter ele o hábito de saudar a todos com um ósculo, abandona a Urbe e, tendo ido para a Campânia, acomoda-se na quinta de Zeto, antigo amigo seu já falecido. O necessário era-lhe provido não só pelas terras de Zeto, mas também o traziam de Miturnas[9], das terras de Castrício; pois Castrício tinha suas posses em Miturnas.

Estando à morte, como nos contava Eustóquio, quando Eustóquio, que residia em Putéolos[10], chegou a seu lado, tarde, Plotino lhe disse: “Ainda te espero” e, após declarar que se esforçara para elevar o divino que há em nós ao divino que há no universo[11], uma serpente atravessou por baixo da cama em que ele se deitava e, assim que ela se insinuou por um buraco que havia na parede[12], Plotino expirou seu espírito, contando, segundo dizia Eustóquio, sessenta e seis anos, quando se completava o segundo ano do reinado de Cláudio[13]. Ao falecer, eu, Porfírio, encontrava-me em Lilibeu, Amélio em Apaméia da Síria e Castrício em Roma; apenas Eustóquio estava presente.

Se retrocedermos sessenta e seis anos a partir do segundo ano do reinado de Cláudio, o tempo de seu nascimento cai no décimo terceiro ano do reinado de Severo[14]. Mas não nos revelou nem o mês em que nasceu nem o dia de seu aniversário, uma vez que não considerava pertinente fazer um sacrifício ou festejar em seu aniversário, embora fizesse sacrifícios e festejasse com os amigos os aniversários tradicionais de Platão e Sócrates[15], quando então os companheiros capazes deviam ler um discurso.

3. No entanto, as coisas que ele, por si mesmo, nos contava em nossas freqüentes reuniões eram estas: que freqüentava sua nutriz, até o oitavo ano a partir de seu nascimento[16] e apesar de já ir à escola de gramática, e lhe descobria os seios porque desejava mamar; porém, após ouvir certa vez que era um menino perverso, envergonhou-se e se absteve[17]. Que, em seu vigésimo oitavo ano[18], sentiu-se inclinado à filosofia e, estudando com os mestres mais famigerados da Alexandria dessa época, deixava as preleções desalentado e cheio de tristeza, de modo que contou a um de seus amigos o que lhe acontecia; este, compreendendo o desejo de sua alma, o conduziu a Amônio[19], a quem ainda não tinha experimentado. Que, ao entrar e ouvi-lo, disse a seu amigo: “era este a quem procurava”. Que, permanecendo continuamente com Amônio desde aquele dia, adquiriu tal formação filosófica, que foi tomado pelo anseio de experimentar a filosofia que era praticada entre os persas e aperfeiçoada entre os hindus. Como o imperador Gordiano estava para marchar contra os persas, Plotino integrou-se à sua comitiva e a acompanhou, estando já em seu trigésimo nono ano de vida[20]. Com efeito, permaneceu onze anos completos estudando com Amônio. Mas, quando Gordiano foi assassinado nas terras da Mesopotâmia, com dificuldade se salvou escapando para Antioquia. E, uma vez que Filipe apoderou-se do trono, Plotino dirigiu-se para Roma, ao quarenta anos de idade.[21]

Erênio, Orígenes[22] e Plotino tinham pactuado não expor nenhuma das doutrinas de Amônio, precisamente as extraídas por eles nas preleções, e Plotino mantinha o pacto, reunindo-se com aqueles que lhe assistiam, mas guardando ocultas as doutrinas recebidas de Amônio[23]. Erênio foi o primeiro a romper o pacto, e Orígenes seguiu a iniciativa de Erênio. Porém ele nada escreveu além de seu Sobre os daímones e, sob Galieno, seu O rei é o único criador. Plotino continuou por muito tempo sem nada escrever, mas construía seus cursos a partir de seu encontro com Amônio; a assim continuou por dez anos completos, reunindo-se com alguns, mas sem nada escrever. Seu curso era, como incentivava os discípulos a investigarem por si mesmos, repleto de desordem e de muitos disparates, como Amélio nos contava[24].

Amélio se juntou a Plotino quando este estava em seu terceiro ano em Roma, durante o terceiro ano do reinado de Filipe[25], e, permanecendo até o terceiro ano do reinado de Cláudio, esteve com ele por vinte e quatro anos completos, possuindo, ao chegar, formação oriunda da escola de Lisímaco, ultrapassando a todos seus contemporâneos em laboriosidade, pois copiou quase todos os escritos de Numênio, os organizou e quase decorou a maioria; e, redigindo notas a partir das reuniões, reuniu os escólios em cem livros e os dedicou a Ostiliano Hesíquio da Apaméia, a quem adotara como filho.

4. No décimo ano do reinado de Galieno[26], eu, Porfírio, chegado da Grécia em companhia Antônio de Rodes, encontro Amélio, que estava em seu décimo oitavo ano na escola de Plotino, sem jamais ter ousado escrever nada além daquelas notas, que ainda não tinham alcançado cem volumes. Plotino, no décimo ano do reinado de Galieno, tinha cerca de cinqüenta e nove anos. Eu, Porfírio, reuni-me com ele, pela primeira vez, quando tinha trinta anos.

Todavia, desde o primeiro ano do império de Galieno, como Plotino se ocupara em escrever os temas que surgiam, no décimo ano do império de Galieno, quando eu, Porfírio, o conheci, tinha ele vinte e um tratados escritos, os quais obtive, embora tivessem sido confiados a poucos. Com efeito, sua obtenção não era fácil, não acontecia sem escrúpulo nem simples e muito facilmente, mas após um exame rigoroso dos que os receberiam[27]. Eram estes os escritos, aos quais, como ele mesmo não os intitulara, cada pessoa conferia um título diferente. Os títulos que prevaleceram[28], então, são os seguintes; porei também os inícios dos tratados para que seja facilmente reconhecível cada um dos tratados indicados:

1. Sobre o belo (I. 6)

Cujo início é: “O belo está sobretudo na visão…”

2. Sobre a imortalidade da alma (IV. 7)

Cujo início é: “Se cada um é imortal…”

3. Sobre o destino (III. 1)

Cujo início é: “Todas as coisas que devêm…”

4. Sobre a essência da alma (IV. 2)

Cujo início é: “A essência da alma…”

5. Sobre o intelecto, as idéias e o ente (V. 9)

Cujo início é: “Todos os homens, desde o princípio…”

6. Sobre a descida da alma aos corpos (IV. 8)

Cujo início é: “Muitas vezes, despertando-me…”

7. Como o que é posterior ao primeiro procede do primeiro e sobre o uno (V. 4)

Cujo início é: “Se existe algo depois do primeiro…”

8. Se todas as almas são uma só (IV. 9)

Cujo início é: “Acaso, assim como a alma…”

9. Sobre o bem ou o uno (VI. 9)

Cujo início é: “Todos os entes…”

10. Sobre as três hipóstases principais (V. 1)

Cujo início é: “O que então fez as almas…”

11. Sobre a gênese e a ordem dos posteriores ao primeiro (V. 2)

Cujo início é: “O uno é todas as coisas…”

12. Sobre as duas matérias (II. 4)

Cujo início é: “A chamada matéria…”

13. Considerações diversas (III. 9)

Cujo início é: “O intelecto, diz ele, vê as idéias contidas…”

14. Sobre o movimento circular (II. 2)

Cujo início é: “Por que se move em círculo…”

15. Sobre o daímon que nos coube (III. 4)

Cujo início é: “As hipóstases dos…”

16. Sobre o suicídio racional (I. 9)

Cujo início é: “Não a deixarás, para que não parta…”

17. Sobre a qualidade (II. 6)

Cujo início é: “São o ente e a essência…”

18. Se há idéias de coisas particulares (V. 7)

Cujo início é: “Se também do particular…”

19. Sobre as virtudes (I. 2)

Cujo início é: “Como os males estão aqui…”

20. Sobre a dialética (I. 3)

Cujo início é: “Qual arte, método…”

21. Como se diz que a alma é intermediária entre a essência indivisível e a divisível (IV. 1)

Cujo início é: “No cosmos inteligível…”

Portanto, esses vinte e um tratados, quando eu, Porfírio, reuni-me com ele pela primeira vez, encontrei escritos; Plotino estava então em seu qüinquagésimo nono ano de vida.

5. Estive com ele nesse ano e nos outros cinco seguintes[29] – pois eu, Porfírio, estava em Roma um pouco antes das comemorações decenais[30], quando Plotino veraneava ociosamente, embora lecionasse informalmente nas reuniões -, e, com efeito, nesses seis anos, visto que muitas indagações aconteciam nas reuniões e que Amélio e eu rogávamos que escrevesse, escreve:

22-23. Sobre por que o ente está inteiro, uno e idêntico em todas as partes, dois livros (VI. 4-5)

O primeiro livro tem este início: “Acaso está a alma em todas as partes…”

E o início do segundo livro é: “O que é uno e idêntico em número…”

Escreve em seguida outros dois tratados:

24. Um sobre o fato de que o que está além do ente não intelige, qual é o inteligente primário e qual é o secundário (V. 6)

Cujo início é: “Há um ser que intelige a outro, e outro que intelige a si mesmo…”

25. Outro sobre o que está em potência e o que está em ato (II. 5)

Cujo início é: “Fala-se que algo está em potência…”

[E depois]

26. Sobre a impassibilidade dos incorpóreos (III. 6)

Cujo início é: “Dizendo que as sensações não são afecções…”

27. Sobre a alma I (IV. 3)

Cujo início é: “Acerca da alma, todas as perplexidades devemos…”

28. Sobre a alma II (IV. 4)

Cujo início é: “Que dirá, então,…”

29. Sobre a alma III ou sobre como vemos (IV. 5)

Cujo início é: “Uma vez que estabelecemos…”

30. Sobre a contemplação (III. 8)

Cujo início é: “Se de início brincássemos…”

31. Sobre a beleza inteligível (V. 8)

Cujo início é: “Como dizemos…”

32. Sobre o intelecto e que os inteligíveis não são exteriores ao intelecto e sobre o bem (V. 5)

Cujo início é: “O intelecto, o verdadeiro intelecto…”

33. Contra os gnósticos (II. 9)

Cujo início é: “Como, portanto, se revelou para nós…”

34. Sobre os números (VI. 6)

Cujo início é: “Acaso a multiplicidade…”

35. Como as coisas vistas à distância aparecem pequenos (II. 8)

Cujo início é: “Será que as coisas distantes…”

36. Se a felicidade está na distensão do tempo (I. 5)

Cujo início é: “A felicidade…”

37. Sobre a fusão total (II. 7)

Cujo início é: “Acerca da fusão total…”

38. Como a multiplicidade de idéias veio a existir e sobre o bem (VI. 7)

Cujo início é: “Quando deus enviou para o nascimento…”

39. Sobre o voluntário (VI. 8)

Cujo início é: “Acaso, acerca dos deuses…”

40. Sobre o cosmos (II. 1)

Cujo início é: “Dizendo que o cosmos sempre…”

41. Sobre a sensação e a memória (IV. 6)

Cujo início é: “As sensações não são impressões…”

42. Sobre os gêneros do ente I (VI. 1)

Cujo início é: “Sobre os entes, quantos e quais…”

43. Sobre os gêneros do ente II (VI. 2)

Cujo início é: “Uma vez que, acerca dos chamados…”

44. Sobre os gêneros do ente III (VI. 3)

Cujo início é: “Acerca da essência, o que parece…”

45. Sobre a eternidade e o tempo (III. 7)

Cujo início é: “A eternidade e o tempo…”

Esses tratados, vinte e quatro, são todos os que escreveu no sexênio em que eu, Porfírio, estive ao seu lado, tomando os temas de problemas que surgiam, como mostramos através dos sumários de cada um dos tratados, sendo ao todo, com os vinte e um anteriores à nossa chegada, quarenta e cinco.

6. Enquanto eu estanciava na Sicília – pois para lá me retirei no décimo quinto ano do reinado de Galieno -, Plotino escreveu estes cinco tratados que me enviou:

46. Sobre a felicidade (I. 4)

Cujo início é: “O bem viver e o ser feliz…”

47. Sobre a providência I (III. 2)

Cujo início é: “Que ao acaso…”

48. Sobre a providência II (III. 3)

Cujo início é: “Portanto, que pensar sobre essas dificuldades…”

49. Sobre as hipóstases cognoscentes e o que está além (V. 3)

Cujo início é: “Acaso aquele que intelige a si mesmo deve ser variegado…”

50. Sobre o amor (III. 5)

Cujo início é: “Sobre o amor, se é um deus…”

Esses são, pois, os que me envia no primeiro ano do reinado de Cláudio[31]; ao começar o segundo, quando logo viria a falecer, envia-me estes:

51. Que são os males (I. 8)

Cujo início é: “Aqueles que investigam de onde vêm os males…”

52. Se os astros influem (II. 3)

Cujo início é: “O movimento os astros…”

53. Que é o vivente? (I. 1)

Cujo início é: “Prazeres e tristezas…”

54. Sobre a felicidade (I. 7)

Cujo início é: “Poderia alguém dizer que é diferente…”

Esses tratados, mais os quarenta e cinco do primeiro e do segundo grupo, somam cinqüenta e quatro. Entretanto, assim como escreveu alguns desses tratados durante o início de sua juventude[32], outros enquanto estava em pleno vigor, e outros quando era afligido pelo corpo, do mesmo modo os tratados possuem grau de capacidade proporcional. Os primeiros vinte e um são de uma capacidade inferior e que ainda não possui magnitude suficiente para o vigor do pensamento, ao passo que os da produção intermediária revelam o pleno vigor de sua capacidade e são, esses vinte e quatro, com exceção dos breves, de suma perfeição; os nove últimos, por sua vez, escreveu quando sua capacidade já estava enfraquecida, mais nos quatro últimos do que nos cinco anteriores.

7. Teve muitos ouvintes, mas, fervorosos e que se reuniam por causa da filosofia, teve Amélio, originário da Toscana, cujo nome principal era Gentiliano, mas Plotino preferia chamá-lo Amério, com “r”, dizendo que mais lhe convinha ser chamado a partir de améreia (indivisibilidade) do que de améleia (incúria). Teve também um médico, Paulino de Citópolis, a quem Amélio nomeava Mícalo, porque estava repleto de conhecimentos equivocados[33]. Mas teve ainda Eustóquio de Alexandria, outro médico, a quem chegou a conhecer quase no fim da vida e que permaneceu com ele, tratando-o, até sua morte e que, seguindo apenas os ensinamentos de Plotino, revestiu-se do hábito de um genuíno filósofo. Com ele também esteve Zótico, crítico e poeta, que fez correções ao texto de Antímaco e que transformou em poesia, muito poeticamente, a Atlântida[34], falecendo, nubladas suas vistas, pouco antes da morte de Plotino. Também Paulino se antecipou a Plotino na morte. Teve ainda como amigo Zeto, de família árabe, que tomou em matrimônio a filha de Teodósio, que fora amigo de Amônio. Ele também era médico e foi imensamente querido a Plotino; mas, sendo político e tendo inclinações políticas, Plotino tentava refreá-lo. Tratava com ele com tamanha familiaridade, que se retirava nas terras dele, situadas a seis milhas de Miturnas, às quais possuíra Castrício, chamado Firmo, o mais nobre dos homens de nosso tempo, que venerava Plotino, que socorria a Amélio em tudo tal como bom servidor e que a mim, Porfírio, era unido tal como um legítimo irmão. Ele também venerava Plotino, embora tivesse escolhida a vida política.

Ouviam-no não poucos membros do senado, dentre os quais maximamente exerciam atividade filosófica Marcelo Orôncio e Sabinilo. Também era do senado Rogaciano, que chegou a tamanha aversão a esta vida, que renunciou a todos seus bens, despediu todos seus servidores e renunciou até mesmo suas honras; e, estando a ponto de apresentar-se como pretor, estando presentes os lictores, não se apresentou e não se importou com seu cargo, e assim optou por não habitar sua própria casa, mas freqüentava alguns de seus amigos e parentes, comendo aqui e dormindo ali, alimentando-se dia sim, dia não; dessa renúncia e indiferença em relação à vida, resultou que foi acometido pela gota com tal intensidade que teve de ser carregado em silha para se recuperar; e, se antes não lhe era possível estender as mãos, passou a usá-las com muito mais agilidade do que os artistas que trabalham com as mãos. Plotino o acolheu e vivia a louvá-lo ao extremo, apresentando-o como um bom exemplo para os filósofos.

Estava também com ele Serápion de Alexandria, inicialmente retor, mas que depois se reunia também para as discussões filosóficas, ainda que não tivesse sido capaz de renunciar à sua fraqueza em relação ao dinheiro e à usura. Teve também a mim, Porfírio de Tiro, que fui um dos seus maiores amigos e a quem pediu que corrigisse seus escritos.

8. Pois, após ter escrito, nunca suportava copiar[35] uma segunda vez o que escrevera, nem sequer lê-lo ou perpassá-lo uma única vez, porque sua visão não o ajudava na leitura. E escrevia sem desenhar as letras com beleza, sem separar claramente as sílabas[36] e sem preocupar-se com a ortografia, mas apenas com o pensamento, e continuou, o que a todos nos surpreendia, fazendo isto até a morte: tendo concluído uma reflexão, em si mesmo, do seu princípio ao seu fim, em seguida punha por escrito suas reflexões[37], escrevendo continuamente as idéias compostas em sua alma de tal modo que parecia copiá-las de um livro; porque, mesmo quando conversava com alguém e continuava com a conversação, estava voltado para a reflexão, de modo a simultaneamente satisfazer a exigência da conversação e conservar ininterrupto o pensamento, perseverando a reflexão; e, quando seu interlocutor tinha partido, sequer retomava o que estava escrito, porque sua visão, como dissemos, não era suficiente para a retomada, mas encadeava os pensamentos seguintes, como se não houvesse dispensado tempo algum no intervalo em que conduzia a conversação. Estava, portanto, ao mesmo tempo consigo e com os outros, e jamais afrouxara essa atenção dirigida a si mesmo, exceto no sono, que era afastado pela exigüidade de alimento – pois amiúde sequer tocava um pão – e também por sua conversão continuamente dirigida ao intelecto.

9. Teve também mulheres[38] extremamente dedicadas à filosofia: Gêmina, em cuja casa vivia; sua filha, também chamada Gêmina, e Anficléia, que era mulher de Áriston, filho de Jâmblico[39].

Muitos homens e mulheres de alta nobreza, quando se aproximavam da morte, levavam-lhe seus filhos, tanto meninos quanto meninas, e os confiavam, bem como seus bens, a Plotino, como a um guardião sagrado e divino. E por isso tinha a casa repleta de garotos e garotas. Entre eles, estava Potámon, a quem, porque se preocupava com sua educação, muitas vezes ouvia, mesmo quando fazia sua lição. Cuidava ainda das contas, quando as apresentavam os acompanhantes das crianças, e cuidava de sua exatidão, dizendo que, enquanto não fossem filósofos, deviam eles guardar suas posses e seus rendimentos intactos e preservados. E, embora socorresse a tantas pessoas em suas preocupações e cuidados da vida, jamais abrandou, estando em vigília, sua tendência para o intelecto.

Era doce e à disposição de todos aqueles que tinham qualquer relação com ele[40]. Por isso, apesar de ter passado vinte e seis anos completos em Roma e haver arbitrado para muitos em suas mútuas controvérsias, nunca teve nenhum inimigo entre os políticos.

10. Um daqueles que fingem filosofar, Olímpio de Alexandria, que foi discípulo de Amônio por pouco tempo, tratava desdenhosamente Plotino porque ambicionava o primeiro posto; ele investiu contra Plotino de tal maneira, que tentou, através de magia, lançar influxos astrais contra ele. Entretanto, assim que percebeu que sua tentativa se voltava contra si mesmo, passou a dizer a seus conhecidos que o poder da alma de Plotino era tão grande, que podia reverter os ataques a ele dirigidos contra aqueles que tentavam fazer-lhe mal. Plotino, no entanto, percebia Olímpio a tentar atacá-lo, dizendo que nesse momento seu corpo se contraía “como bolsas se entrouxam”[41], pois seus membros se comprimiam uns contra os outros. Olímpio, depois de muito correr mais o risco de sofrer do que o fazer algo a Plotino, resignou-se.

Acontecia que Plotino, de nascença, tinha algo a mais em relação aos outros. Pois um sacerdote egípcio, tendo vindo a Roma e, através de um amigo, conhecido Plotino, como desejava dar uma demonstração de sua própria sabedoria, o convidou a assistir à evocação de seu próprio daímon, que o acompanhava. Como ele aceita prontamente, a evocação acontece no Iseu[42]; pois esse era o único lugar puro que o egípcio disse ter encontrado em Roma. Porém, quando foi evocado à manifestação o daímon, quem veio foi um deus, e não um do gênero dos daímones; daí que o egípcio disse: “bem-aventurado és tu que tens como daímon um deus e que não é de gênero inferior esse que te acompanha”. No entanto, não foi possível perguntar nada a ele nem vê-lo presente por mais tempo, porque um amigo que com eles assistia à evocação estrangulou as aves que segurava como proteção, seja por inveja, seja por certo temor[43]. Assim, tendo como acompanhante um daímon dos mais divinos, Plotino não cessava de elevar a ele seu olho divino. De fato, por causa dessa ocasião, sobreveio-lhe de escrever o tratado Sobre o daímon que nos coube[44], onde tenta expor as causas da diferença entre os daímones acompanhantes.

Como Amélio tinha se tornado um amante dos sacrifícios e perambulava pelos templos durante o novilúnio e os festejos, certa vez pretendeu levar consigo Plotino, que respondeu: “São eles que devem vir a mim, não eu a eles”[45]. Com que pensamento vangloriou-se a tal ponto, nós nem pudemos compreender, nem ousamos perguntar a ele.

11. Havia nele uma tão grande compreensão dos caráteres, que, na ocasião em que roubaram um precioso colar de Quione, que com ele residia em companhia dos filhos, levando dignamente sua viuvez, Plotino, reunidos os criados sob sua vista, olhou a todos e disse: “Este é o ladrão”, indicando um deles. Ele, sendo chicoteado, ainda que inicialmente tivesse negado por muito tempo, por fim confessou e, tomando o objeto roubado, o devolveu[46]. Predizia também quem se tornaria cada uma das crianças que conviviam com ele: assim como predisse quem seria Pólemon, prevendo que ele seria dado ao amor e que viveria pouco, o que de fato a aconteceu.

Certa vez, sentiu que eu, Porfírio, pensava em deixar a vida; subitamente, pondo-se frente a mim, que passava algum tempo na casa, e dizendo que esse desejo não provinha de uma disposição intelectual, mas de alguma enfermidade melancólica, recomendou-me viajar. Obedeci a ele e fui para a Sicília, pois ouvi que um certo Probo, homem erudito, vivia na região de Lilibeu; e eu afastei de mim tal desejo, mas me vi impedido de estar ao lado de Plotino até sua morte.

12. O imperador Galieno e sua esposa Salonina imensamente honraram e veneraram Plotino. Este, usando de sua amizade, pediu-lhes que restaurassem uma cidade de filósofos que se dizia ter existido na Campânia, mas que agora estava em ruínas, e que concedessem à cidade fundada a região circunvizinha; seus futuros habitantes haveriam de seguir as leis de Platão e a cidade receberia o nome de Platonópolis; e ele mesmo se comprometia a retirar-se para lá com seus companheiros. E facilmente teria se realizado esse desejo de nosso filósofo, se não tivessem alguns cortesãos do rei, por invejá-lo ou por ofenderem-se ou por outra causa perversa, impedido.

13. Nas reuniões, era hábil para expressar-se e poderosíssimo em encontrar e conceber as idéias a proferir, embora cometesse algumas faltas na pronúncia: pois não dizia anamimnésketai (“rememora”), mas anamnemísketai, e ainda outras palavras incorretas que conservava mesmo ao escrever. Entretanto, ao falar, sua inteligência resplandecia e sua luz iluminava até mesmo seu rosto; era agradável olhá-lo, mas nesses momentos era verdadeiramente belo; algumas gotículas de suor umedeciam sua fronte e pareciam realçar-lhe ainda mais o esplendor e, ante às perguntas, mostrava sua brandura e seu vigor. Com efeito, durante três dias interrogado por mim, Porfírio, sobre como a alma está unida ao corpo, ele perseverava demonstrando, até que apareceu um indivíduo chamado Taumásio, dizendo que queria ouvi-lo tratar de questões gerais que pudessem ser anotadas e que não suportava Porfírio respondendo e perguntando, ao que ele respondeu: “Mas, se não resolvermos as dificuldades questionadas por Porfírio, não poderíamos dizer uma única palavra para ser anotada”.

14. Ao escrever, era denso e rico de idéias, conciso e mais abundante em idéias do que em palavras, expressando-se quase sempre inspirada e apaixonadamente. Em seus escritos estão misturadas de modo imperceptível tanto as doutrinas estóicas quanto as peripatéticas; e também estão condensados os temas da Metafísica de Aristóteles. Não lhe passou desapercebido nenhum teorema, como se diz, geométrico, nem aritmético, nem mecânico, nem ótico, nem musical: mas não estava preparado para exercer essas ciências.

Nas reuniões, liam-lhe os comentários, fossem os de Sevério, ou de Crônio, ou de Numênio, ou de Gaio ou de Ático e, entre os peripatéticos, os de Apásio, de Alexandre, de Adrasto e daqueles que eram pertinentes. Contudo, deles não tomava absolutamente nada, mas era original e independente em sua especulação, carregando o espírito de Amônio em suas investigações. Ele concluía rapidamente e, dando em poucas palavras o sentido de uma teoria profunda, levantava-se.

Quando lhe foram lidos os tratados Sobre os princípios e Filarcaio[47] de Longino, ele disse: “Longino é filólogo, mas jamais filósofo”[48]. Certa vez, tendo Orígenes comparecido a uma reunião, Plotino ruborizou e queria levantar-se; mas, quando solicitado por Orígenes a falar, disse que o palestrante perde o ânimo quando vê que falará para pessoas que já conhecem o que há de dizer; e assim, após breve conversa, retirou-se[49].

15. Quando eu, em uma celebração a Platão, li meu poema O sagrado matrimônio, como nele muitas coisas estavam escritas em linguagem mistérica inspirada e de modo velado, alguém disse que Porfírio estava louco, mas Plotino disse para que fosse ouvido por todos: “Mostraste que és ao mesmo tempo poeta e filósofo e hierofante”. E quando o retor Diófanes leu sua apologia de Alcibíades, do Banquete[50] de Platão, sustentando que, pelo bem do aprendizado da virtude, era preciso entregar-se ao intercurso com o mestre quando este desejasse a união sexual, Plotino se agitou, levantando-se muitas vezes com a intenção abandonar a reunião, mas ele se conteve e, depois de dispersada a audição, incumbiu a mim, Porfírio, escrever uma refutação[51]. Como Diófanes não quis dar-me seu tratado, retomando pela memória seus argumentos, eu escrevi uma refutação e, lendo-a perante a reunião dos mesmos ouvintes, agradei tanto a Plotino que, nas reuniões, costumava dizer:

“Atira assim, se hás de tornar-te uma luz para os homens”[52]

Quando lhe escreveu, desde Atenas, Eubulo, o diádoco platônico, enviando escritos concernentes a algumas questões platônicas, fê-los serem dados a mim, Porfírio, e pediu-me para examinar os escritos e os relatasse para ele.

Ocupava-se também das tabelas relativas aos astros de modo não inteiramente matemático, mas tratou das conclusões dos genetliólogos com maior acribia. Averiguando a insustentabilidade de sua anunciação, não hesitou em refutar muitas doutrinas deles em seus escritos[53].

16. Havia, em seu tempo, muitos cristãos e também outros[54], sectários de uma seita derivada da antiga filosofia, adeptos de Adélfio e de Aquilino, que possuíam muitíssimos escritos de Alexandre o Líbio, de Filocomo, de Demóstato e de Lido, e que apresentavam apocalipses de Zoroastro, de Zostriano, de Nicoteu, de Alógenes, de Meso e de outros tais[55], que, estando eles mesmos enganados, a muitos enganavam, dizendo que Platão não alcançara o profundo da essência inteligível. Por isso Plotino mesmo não só fez muitas refutações a eles nas reuniões, mas também escreveu o tratado que intitulamos Contra os gnósticos[56], deixando a nós a tarefa de criticar as doutrinas restantes. Amélio chegou a escrever quarenta livros contra o livro de Zostriano. E eu, Porfírio, compus numerosas refutações ao de Zoroastro, demonstrando como esse livro é não apenas espúrio, mas também recente e forjado pelos fundadores da seita, para que se tenha a crença de que são do antigo Zoroastro as doutrinas que eles mesmos escolheram venerar.

17. Como pessoas da Grécia diziam que Plotino plagiava as doutrinas de Numênio, a Amélio o estóico e platônico Trífon comunicou o fato, de modo que Amélio escreveu um livro intitulado Sobre a diferença entre as doutrinas de Plotino e de Numênio, e o dedicou a mim, Basileu[57]. Basileu é o nome que foi dado a mim, Porfírio, que em meu idioma nativo era chamado Malco, exatamente como se chamava meu pai, e Malco possui o significa do Basileu, se alguém deseja traduzir o nome para a língua grega. Por isso Longino, ao dedicar seu livro Sobre o impulso a Cleodamo e a mim, Porfírio, encabeçou-o “Ó Cleodamo e Malco”; e Amélio, traduzindo o nome Malco por Basileu, assim como Numênio traduziu Máximo por Mégalo, escreveu-me:

“Amélio saúda a Basileu. Por causa desses homens famigerados, que te ensurdecem de tanto atribuir as doutrinas de nosso amigo a Numênio de Apaméia, eu não pronunciaria sequer uma palavra, sabes claramente. Pois é evidente que também essa querela provém de sua inflamada eloqüência e verborréia, dizendo ora que ele é um completo charlatão, ora que é um plagiário, ora que plagia mesmo as coisas que são mais banais, com a patente intenção de ridicularizá-lo. Mas, como tu pensavas que devíamos aproveitar o ensejo para tornar nossas teses mais prontas à memória e para que se conhecesse mais amplamente o nome de um amigo tão grandioso como Plotino, mesmo que há muito já seja conhecido, eu te escutei; e eis-me aqui, entregando-te minhas promessas, produzidas, como ti mesmo o sabes, em três dias. Contudo, uma vez que não resultam da comparação de suas doutrinas nem são, portanto, compilações ou seleções, mas lembranças de encontro antigo, e que estão organizadas tal como primeiramente me ocorria cada uma, é preciso que agora encontrem de tua parte uma justa indulgência, sobretudo porque não é nada fácil captar a intenção desse homem que alguns tentam levar à concordância conosco, pelo fato de que suas opiniões sobre os mesmos temas, como parece, são diferentes em suas diferentes obras. Que tu me corrigirás de bom grado, se alguma das doutrinas de nossa própria casa estiver falseada, bem sei. Mas, ao que parece, “fui obrigado”, como se diz em alguma tragédia[58], a modificar e a excluir certas coisas, minucioso que sou, por causa da distância que os[59] separa das doutrinas de nosso mestre. Tal, enfim, era meu desejo de ter agradar inteiramente. Adeus.”

18. Fui levado a inserir essa carta não apenas para atestar que as pessoas de então, contemporâneas a Plotino, pensavam que ele plagiava as doutrinas de Numênio, mas também que o consideravam um completo charlatão, que o depreciavam porque não compreendiam o que dizia e porque ele se isentava de todo o teatro sofístico e da pretensão, porque nas reuniões parecia conversar e a ninguém evidenciava rapidamente as necessidades lógicas tomadas em seus raciocínios.

Sensação semelhante experimentei eu, Porfírio, quando o ouvi pela primeira vez. Por isso apresentei uma refutação escrita tentando demonstrar que o inteligível é exterior ao intelecto. Ele fez Amélio lê-la e, quando lida, disse sorrindo: “Cabe a ti, Amélio, solver as aporias em que ele caiu por desconhecimento de nossas doutrinas”. Amélio, então, escreveu um livro nada pequeno contra as aporias de Porfírio, e eu escrevi uma nova refutação ao que ele escrevera, mas Amélio também respondeu a ela, de modo que eu, Porfírio, compreendendo com dificuldade o que era dito na tréplica, mudei de opinião e escrevi uma palinódia, que li em aula; e, desde então, confiaram-me os tratados de Plotino e incitei o professor mesmo à ambição de explicar e de escrever mais extensamente seus pensamentos. Não apenas isso, mas também em Amélio despertei o desejo de escrever.

19. Também à opinião que Longino tinha sobre Plotino, especialmente a partir das coisas que eu assinalava ao escrever-lhe, evidenciará este trecho da carta que me escreveu nestes tons. Pois, pedindo-me que deixasse a Sicília e rumasse até ele, na Fenícia, e que levasse os tratados de Plotino, disse:

“E tu, trata de mos enviar, quando te pareça bom, ou melhor, traze-mos: pois não me absteria de pedir-te que prefiras o caminho que vem em nossa direção ao que leva a outrem, mesmo que não seja por outra razão – pois que sabedoria poderias esperar de nós ao chegares? -, que seja pelo menos por causa de nossa antiga amizade e pelo ar, que é máxime conveniente a essa debilidade corporal de que falas, e por algum outro motivo que por ventura consideres; mas de mim não esperes nenhum escrito mais recente, nem tampouco os que dizes ter pedido dentre os antigos. Pois a escassez de copistas por aqui é tamanha, que – pelos deuses! -, estando eu todo esse tempo à busca dos tratados de Plotino que me faltavam, com dificuldade os consegui, depois de afastar meu secretário de suas tarefas habituais e ordenar que ele se dedicasse exclusivamente a essa. E possuo todos quantos parecem ser, somados aos que agora me foram enviados por ti, mas os possuo pela metade; pois estavam repletos de erros, embora teu amigo Amélio tivesse corrigido as faltas dos copistas; ele devia ter outras coisas mais proveitosas para fazer do que essa supervisão. Portanto, não vejo de que modo eu possa servir-me deles para estudar, embora esteja imensamente desejoso de examinar os tratados Sobre a alma e Sobre o ente[60]; esses são, com efeito, os que contêm mais faltas. Assim, desejaria muitíssimo que me viessem de ti as cópias redigidas com acribia, apenas para cotejá-las e, em seguida, mandá-las de volta. Contudo, mais uma vez lhe farei o mesmo apelo, que não apenas mos envie, mas que, principalmente, tu mesmo venhas portando-os, a esses e também a algum dos restantes que tenha escapado a Amélio. Porque adquiri todos os que ele me trouxe ansiosamente. Como não haveria de adquirir os escritos de um homem digno de todo respeito e honra? Pois isto, enfim, sei que disse a ti quando estavas presente, quando estavas muito distante e quando vivias em Tiro: que me acontece não aceitar completamente a maior parte de suas teses; mas ao estilo da escritura desse homem, à densidade de seus pensamentos, ao caráter filosófico de suas investigações, aprecio sobremaneira, e adoro, e diria que aqueles que investigam deveriam ter os escritos de Plotino entre os mais célebres.”

20. Citei extensamente essa passagem do maior crítico de nosso tempo, do severo censor de quase todas as obras dos demais escritores dele contemporâneos, para mostrar qual é seu juízo sobre Plotino; e que, no entanto, primeiramente, devido à ignorância dos outros, mantinha uma atitude desdenhosa em relação a ele. Mas pensava ver erros nas cópias que adquirira a partir dos exemplares de Amélio, porque não entendia a modo habitual de nosso homem expressar-se. Pois, se havia exemplares corretos, esses eram os de Amélio, uma vez que tinham sido copiadas dos originais.

Entretanto, de Longino, devo ainda mencionar o que, em uma obra sua, escreveu sobre Plotino, Amélio e os filósofos dessa época, para que esteja completo o juízo tinha sobre eles o mais célebre e polêmico dos críticos. O livro intitula-se De Longino, contra Plotino e Gentiliano Amélio, sobre o fim. Eis o proêmio que contém:

“Houve, Marcelo, em nosso tempo, muitos filósofos, principalmente no tempo de minha juventude; pois, na verdade, sequer há palavras para expressar como essa espécie se tornou escassa agora; quando, porém, éramos jovens, houve não poucos que presidiam ao pensamento filosófico e pudemos conhecer a todos eles graças às viagens que, desde crianças, fazíamos a muitos lugares em companhia de nossos pais, e também seguir as lições dos que dentre eles ainda viviam, quando nos misturamos a numerosos povos e cidades; desses, alguns empreenderam a tarefa de expor suas doutrinas por escrito, legando aos porvindouros a possibilidade de participar dos benefícios por eles dispensados, ao passo que outros acreditaram que lhes era suficiente conduzir seus discípulos à compreensão de suas doutrinas.

Desses filósofos, pertencem ao primeiro grupo, dentre os platônicos, Euclides, Demócrito e Proclino, que vivem em Troada, e os que até agora ensinam publicamente em Roma, Plotino e seu confrade Gentiliano Amélio; dentre os estóicos, Temístocles, Fébion e aqueles que estão no auge de sua carreira, Ânio e Médio; e, dentre os peripatéticos, Heliodoro de Alexandria.

Do segundo grupo são, dentre os platônicos, Amônio e Orígenes, cujas aulas freqüentamos por muito tempo, homens que não pouco superaram em inteligência seus contemporâneos, e ainda os diádocos em Atenas Teódoto e Eubulo; pois, embora alguns deles tenham escrito algo, como Orígenes ao seu Sobre os daímones e Eubulo ao seu Sobre o Filebo, Sobre o Górgias e as objeções de Aristóteles à República de Platão, não obstante, não podem ser incluídos no grupo dos que desenvolveram sua doutrina elaboradamente, uma vez que se ocuparam disso acidentalmente, sem que predominasse neles a tendência a escrever. Dentre os estóicos, Hermino, Lisímaco e os que passaram sua vida na Urbe, Ateneu e Musônio; e, dentre os peripatéticos, Amônio e Ptolomeu, que foram os dois maiores literatos de seu tempo, especialmente Amônio, pois ninguém se compara a ele em erudição – eles, todavia, não escreveram nenhuma obra científica, mas poemas e discursos epidídicos, os quais foram preservados contra a vontade de seus autores, penso eu, pois não me parece que aceitariam tornar-se célebres mais tarde por causa de tais escritos aqueles que negligenciaram conservar seu pensamento em obras mais sérias.

Dentre aqueles que escreveram, alguns não fizeram mais do que compendiar ou transcrever as obras compostas por seus predecessores, tal como é o caso de Euclides, Demócrito e Proclino; outros, que não retiveram mais do que elementos menores da investigação dos antigos, puseram-se a escrever acerca dos mesmos assuntos que aqueles, tal como Ânio, Médio e Fébion, o qual aspirava à celebridade mais pelo esmero do estilo do que pela organização dos pensamentos; e, entre esses, poderia incluir-se Heliodoro, uma vez que não introduziu nada de novo na explicação do raciocínio exposto pelos antigos em suas lições.

Entretanto, aqueles que mostraram seriedade ao escrever, pelo grande número de problemas de que trataram e empregaram um modo próprio de especular, são Plotino e Gentiliano Amélio: o primeiro, porque explicou os princípios pitagóricos e platônicos, conforme me parece, com maior clareza que seus predecessores, de modo que as obras de Numênio, de Crônio, de Moderato e de Trasilo estão muito aquém, quanto à exatidão, dos escritos de Plotino sobre os mesmos temas; Amélio, por sua vez, como optou por andar nos vestígios de Plotino[61] e, com freqüência compartilha as mesmas doutrinas, mas é prolixo em sua exposição e copioso em sua expressão, seguindo um estilo oposto ao de Plotino. E estes são os dois únicos, como nos parece, cujos escritos merecem ser examinados – pois, quanto aos outros, por que alguém pensaria que deve estudá-los, em vez de examinar aqueles de quem estes copiaram em seus escritos sem acrescentar nada por si mesmos, nem sumários, nem resumos de argumentação, e sem se preocupar em compilar nem as doutrinas mais comuns, nem selecionar o que é melhor?

Pois bem, tal exame já o fizemos através de outros escritos: por exemplo, em nossa réplica a Gentiliano sobre a teoria platônica da justiça e em nosso exame do tratado de Plotino Sobre as Idéias[62]. Com efeito, quando Basileu de Tiro, amigos deles e nosso, autor de um bom número de tratados que imitavam Plotino, a quem ele escolhera seguir, em vez de nossa escola, tentou demonstrar por escrito que a teoria plotiniana das idéias é superior àquela que nos agrada, parece-nos que demonstramos satisfatoriamente a ele, em refutação escrita, que não fez bem compor sua palinódia[63]. Em tais escritos, discutimos não poucas das opiniões desses autores, como, por exemplo, em nossa carta a Amélio, tão extensa quanto um livro, em resposta a uma série de temas tratados por ele em uma carta que nos enviou de Roma. Amélio intitulou sua carta Sobre o caráter da filosofia de Plotino, ao passo que nós nos contentamos com o título ordinário desse tipo de obra, intitulando-a apenas Réplica à carta de Amélio.”

21. Nesse escrito, com efeito, Logino reconhece que Plotino e Amélio superaram a todos seus contemporâneos “pelo grande número de problemas de que trataram” e que, principalmente, “empregaram um modo próprio de especular”, e que Plotino não plagiou as doutrinas de Numênio nem as professou, mas seguia as doutrinas dos pitagóricos e do próprio Platão, e que “as obras de Numênio, de Crônio, de Moderato e de Trasilo estão muito aquém, quanto à exatidão, dos escritos de Plotino sobre os mesmos temas”. E, dizendo, a respeito de Amélio, que “ele optou por andar nos vestígios de Plotino e, com freqüência compartilha as mesmas doutrinas, mas é prolixo em sua exposição e copioso em sua expressão, seguindo um estilo oposto ao de Plotino”, não obstante lembra-se de mim, Porfírio, que ainda estava nos princípios de minha convivência com Plotino, e diz que “Basileu de Tiro, amigos deles e nosso, autor de um bom número de tratados que imitavam Plotino”. Compôs essas linhas porque observou realmente que eu me guardava inteiramente da prolixidade afilosófica de Amélio e que, ao escrever, observava o estilo de Plotino.

Basta, portanto, o que escreveu sobre Plotino um tal homem, que era o primeiro na crítica literária e até agora é assim reputado, para mostrar que, se me tivesse acontecido de ser possível que eu, Porfírio, ao ser convidado, tivesse estado com ele, não teria escrito a refutação a Plotino cuja composição empreendeu antes de conhecer com exatidão sua doutrina.

22. “Mas por que deveria eu dizer tais coisas sobre o carvalho e sobre a rocha?” – diria Hesíodo[64]. Pois, se é preciso apelar a testemunhos enunciados pelos sábios, quem seria mais sábio que um deus, e um deus que disse de modo verdadeiro:

“Conheço eu o número de grãos de areia e as medidas do mar, e compreendo os mudos e escuto os que não falam”[65]?

Pois, de fato, Apolo, consultado por Amélio sobre para onde fora a alma de Plotino, ele que sobre Sócrates dissera:

“De todos os homens, Sócrates é o mais sábio[66]”.

Escuta quantas e quais coisas a respeito de Plotino oraculou[67]:

“Imortais são os acordes que começo a formar, um hino à honra de um amigo pleno de doçura que teço com as mais melífluas notas de minha celebrante cítara tangida por áureo plectro.

Invoco as Musas a cantar uníssonas com gritos panvocálicos e arroubos panarmônicos, como quando foram invocadas para compor um coro em honra do Eácida[68] com frenesis de imortais e cantos homéricos.

Eia, coro sagrado de Musas, cantemos, unindo-nos num só sopro, os êxitos de todo canto: em meio a vós estou eu, Febo de farta melena[69]:

Ó daímon, homem de outrora, mas que alcanças a sorte mais divinal de um daímon agora que te soltaste da amarra da humana necessidade e nadaste, lançando-te de todo coração para longe do estrondoso fragor de teus membros, até a margem firme, longe do demo dos ímpios, sobre não curvada vereda da alma pura, onde reluz arredor o esplendor divino, onde, pura plaga, prevalece a lei, longe da iníqua impiedade.

Mesmo então, quando lutavas para escapar da vaga amara da vida que se nutre de sangue e se angustia na vertigem, em meio à tormenta e ao súbito tumulto, amiúde, da morada dos venturosos, te apareceu a meta que se situa próxima.

Amiúde, quando os raios de teu espírito tendiam a rumar por oblíquas veredas por seus próprios impulsos, eles foram encaminhados pelos imortais por um curso correto, alçando-os através dos ciclos de uma senda imortal, concedendo a teus olhos um espesso feixe de luz para que contemplassem através da densa escuridão.

Nem inteiramente pesou o doce sono à tuas pálpebras; mas, quando tu aliviaste tuas pálpebras do pesado fecho de bruma, carregado pelo vórtice, contemplaste com teus olhos múltiplas belezas que nenhum, dentre todos os homens que buscam a sabedoria, poderia facilmente vislumbrar.

Mas agora que desfizeste tua tenda e abandonaste o túmulo de tua alma-daímon, já estás a marchar em busca de teu lugar na assembléia dos daímones, refrescada por auras deleitáveis: lá está a amizade, lá está o desejo agradável de ver, repleto de júbilo puro, eternamente plenificado por torrentes ambrosíacas efluídas de deus, de onde provêm as seduções dos amores, a doce brisa e o éter sereno: lá habitam os irmãos Minos e Radamanto, nascidos da áurea raça de Zeus: lá, o justo Éaco: lá Platão, vigor sacro: lá o belo Pitágoras e todos que se juntaram ao coro do amor imortal e todos que alcançaram a raça dos daímones venturosos: lá, sim, o coração se rejubila eternamente em festins e festivais.

Ó venturoso, quão numerosas batalhas sustentaste antes de andares em busca dos puros daímones armado de poderosas vidas.

Cessemos nosso canto e a harmoniosa ciranda de nosso coro em honra de Plotino, Musas benfazejas: eis o que minha áurea cítara cantou a esse homem ditoso.”

23. Nesses versos, diz-se que Plotino era doce, suave, sobretudo afetuoso e mélico, características que nós mesmos sabíamos que ele realmente possuía[70]; e se diz que ele era insone, e possuidor de uma alma pura, e sempre anelante pelo divino, a quem amava de toda sua alma, e que fazia tudo para libertar-se, “para escapar da vaga amara desta vida que se nutre de sangue”. Assim, especialmente a esse varão daimônico, que amiúde se elevava ao deus primeiro e transcendente através de seus pensamentos e seguindo os caminhos ensinados por Platão no Banquete[71], revelou-se para ele aquele deus, que não tem formato nem forma alguma, estabelecido acima do intelecto e de todo o inteligível. A esse deus, com efeito, eu, Porfírio, que estou no sexagésimo oitavo ano de vida[72], declaro ter uma só vez alcançado e me unido. Mas a Plotino “apareceu a meta que se situa próxima”. Pois, para ele, o fim e a meta eram alcançar e unir-se ao deus que está acima de tudo. Atingiu quatro vezes, enquanto eu convivia com ele, a essa meta por uma atividade inefável. E se diz ainda que muitas vezes, quando ele rumava obliquamente, os deuses o guiaram, a ele “concedendo um espesso feixe de luz”, de modo que escreveu seus escritos sob a inspeção e a observação dos deuses. E se diz que, de uma insone contemplação interior e exterior, “contemplaste com teus olhos múltiplas belezas que nenhum, dentre todos os homens” que se dedicam à filosofia, “poderia facilmente vislumbrar”. Pois a contemplação dos homens pode tornar-se mais do que humana; mas, em relação ao conhecimento divino, ela poderia ser graciosa, não porém a ponto de ser capaz de captar o profundo, como captam os deuses.

Esses versos, enfim, mostraram o que realizou e que coisas alcançou enquanto ainda envolvido pelo corpo. Porém, depois de liberar-se do corpo, diz que ele se dirigiu para a “assembléia dos daímones”; que lá habitam a amizade, o desejo, o júbilo e o amor ligado a deus; e que lá estão estabelecidos os chamados juízes das almas, filhos de Zeus: Minos, Radamanto e Éaco, para os quais seguiu, não para ser julgado, mas para conviver com eles, com quem convivem também todos os outros mais excelentes. Convivem com eles Platão, Pitágoras e todos os outros que “se juntaram ao coro do amor imortal”; e que lá têm seu nascimento os daímones venturosos, que tomam parte em uma vida farta em “festins e festivais”, e que perseveram nessa vida beatificada pelos deuses.

24. Essa é nossa história da vida de Plotino. Como ele mesmo nos incumbiu de realizar a organização e a correção de seus escritos, e eu prometi não só a ele, enquanto vivia, mas também aos outros companheiros realizá-lo, primeiramente julguei por bem não deixar em ordem cronológica os escritos, uma vez que foram produzidos desordenadamente, mas imitei Apolodoro de Atenas e o peripatético Andronico, dos quais o primeiro reuniu as obras do comediógrafo Epicarmo dispondo-as em dez tomos, e o segundo separou os escritos de Aristóteles e Teofrasto por assunto, agrupando no mesmo tomo os temas afins; assim, com efeito, eu também, como eram cinqüenta e quatro os escritos de Plotino em minha posse, os distribuí em seis enéadas, tendo afortunadamente encontrado a perfeição do número seis e dos grupos de nove, e os reuni agrupando em cada enéada os escritos afins, dando ainda posição inicial às questões mais fáceis. A primeira enéada, com efeito, contém os tratados predominantemente éticos; ei-los:

I. 1 Que é o vivente e que é o homem

Cujo início é: “Prazeres e tristezas…”

I. 2 Sobre as virtudes

Cujo início é: “Como os males estão aqui…”

I. 3 Sobre a dialética

Cujo início é: “Qual arte, método…”

I. 4 Sobre a felicidade

Cujo início é: “O bem viver e o ser feliz…”

I. 5 Se a felicidade está na distensão do tempo

Cujo início é: “A felicidade aumenta…”

I. 6 Sobre o belo

Cujo início é: “O belo está sobretudo na visão…”

I. 7 Sobre o bem primário e os outros bens

Cujo início é: “Poderia alguém dizer que o bem para cada ser é algo diferente…”

I. 8 De onde vêm os males

Cujo início é: “Aqueles que investigam de onde vêm os males…”

I. 9 Sobre o suicídio racional

Cujo início é: “Não a deixarás, para que não parta…”

A primeira enéada, portanto, contém esses tratados, que abarcam temas predominantemente éticos. A segunda, que apresenta a reunião dos tratados físicos, contém aqueles que concernem ao cosmos e os relacionados ao cosmos. São estes:

II. 1 Sobre o cosmos

Cujo início é: “Dizendo que o cosmos sempre existiu antes…”

II. 2 Sobre o movimento circular

Cujo início é: “Por que se move em círculo…”

II. 3 Se os astros influem

Cujo início é: “Que o movimento dos astros assinala…”

II. 4 Sobre as duas matérias

Cujo início é: “A chamada matéria…”

II. 5 Sobre o que está em potência e o que está em ato

Cujo início é: “Fala-se que algo está em potência…”

II. 6 Sobre a qualidade e a forma

Cujo início é: “São o ente e a essência distintos…”

II. 7 Sobre a fusão total

Cujo início é: “Acerca da fusão total…”

II. 8 Como as coisas visas à distância aparecem pequenos

Cujo início é: “Será que as coisas distantes aparecem menores…”

II. 9 Contra aqueles que dizem que o demiurgo do cosmos e o cosmos são maus

Cujo início é: “Como, portanto, se revelou para nós…”

A terceira enéada, que contém ainda os tratados concernentes aos cosmos, abarca estes tratados acerca das especulações relativas ao cosmos:

III. 1 Sobre o destino

Cujo início é: “Todas as coisas que devêm…”

III. 2 Sobre a providência I

Cujo início é: “Que atribuir ao acaso…”

III. 3 Sobre a providência II

Cujo início é: “Portanto, que pensar sobre essas dificuldades…”

III. 4 Sobre o daímon que nos coube

Cujo início é: “As hipóstases dos…”

III. 5 Sobre o amor

Cujo início é: “Sobre o amor, se é um deus…”

III. 6 Sobre a impassibilidade dos incorpóreos

Cujo início é: “Dizendo que as sensações não são afecções…”

III. 7 Sobre a eternidade e o tempo

Cujo início é: “A eternidade e o tempo…”

III. 8 Sobre a natureza, a contemplação e o uno

Cujo início é: “Se de início brincássemos…”

III. 9 Considerações diversas

Cujo início é: “O intelecto, diz ele, vê as idéias contidas…”

A essas três enéadas nós colocamos e organizamos em um único volume. Colocamos também na terceira enéada o tratado Sobre o daímon que nos coube porque trata, de modo genérico, as questões a que concerne e porque esse problema também é tratado por aqueles examinam temas relacionados aos nascimentos dos homens. O mesmo vale para a inclusão do Sobre o amor. Colocamos aqui o Sobre a eternidade e o tempo por tratar do tempo. E o Sobre a natureza, a contemplação e o uno foi posto aqui devido à sua seção sobre a natureza. A quarta enéada, depois dos tratados acerca do cosmos, recebeu os tratados a respeito da alma. Ela contém estes:

IV. 2 Sobre a essência da alma I[73]

Cujo início é: “A essência da alma, qual seja…”

IV. 1 Sobre a essência da alma II

Cujo início é: “No cosmos inteligível…”

IV. 3 Sobre as aporias relativas à alma I

Cujo início é: “Acerca da alma, todas as perplexidades devemos solucionar…”

IV. 4 Sobre as aporias relativas à alma II

Cujo início é: “Que dirá, então,…”

IV. 5 Sobre as aporias relativas à alma III ou sobre a visão

Cujo início é: “Uma vez que estabelecemos investigar…”

 

IV. 6 Sobre a sensação e a memória

Cujo início é: “As sensações não são impressões…”

IV. 7 Sobre a imortalidade da alma

Cujo início é: “Se cada um é imortal…”

IV. 8 Sobre a descida da alma aos corpos

Cujo início é: “Muitas vezes, despertando-me…”

IV. 9 Se todas as almas são uma só

Cujo início é: “Acaso, assim como a alma…”

Portanto, a quarta enéada abrigou todos os temas concernentes à alma ela mesma. A quinta contém os relativos ao intelecto, mas cada um de seus livros trata também, em algumas passagens, a respeito do que está além e sobre o intelecto na alma. São estes:

V. 1 Sobre as três hipóstases principais

Cujo início é: “O que então fez…”

V. 2 Sobre a gênese e a ordem dos posteriores ao primeiro

Cujo início é: “O uno é todas as coisas…”

V. 3 Sobre as hipóstases cognoscentes e o que está além

Cujo início é: “Acaso aquele que intelige a si mesmo deve ser variegado…”

V. 4 Como o que é posterior ao primeiro procede do primeiro e sobre o uno

Cujo início é: “Se existe algo depois do primeiro, é necessário que provenha dele…”

V. 5 Que os inteligíveis não são exteriores ao intelecto e sobre o bem

Cujo início é: “O intelecto, o verdadeiro intelecto…”

V. 6 Sobre o fato de que o que está além do ente não intelige, qual é o inteligente primário e qual é o secundário

Cujo princípio é: “Uma coisa é inteligir…”

V. 7 Sobre se há idéias de coisas particulares

Cujo início é: “Se também do particular…”

V. 8 Sobre a beleza inteligível

Cujo início é: “Como dizemos que aquele que, na contemplação do inteligível…”

V. 9 Sobre o intelecto, as idéias e o ente

Cujo início é: “Todos os homens, desde o princípio…”

26. Colocamos, pois, a quarta e a quinta enéadas em um só volume. A enéada restante, a sexta, está em outro volume, de modo que todos os escritos de Plotino estão distribuídos em três volumes, dos quais o primeiro contém três enéadas, o segundo duas e o terceiro uma. Os tratados do terceiro volume, os da sexta enéada, são estes:

VI. 1 Sobre os gêneros do ente I

Cujo início é: “Sobre os entes, quantos e quais…”

VI. 2 Sobre os gêneros do ente II

Cujo início é: “Uma vez que, acerca dos chamados dez gêneros, foi examinado…”

VI. 3 Sobre os gêneros do ente III

Cujo início é: “Acerca da essência, o que parece…”

VI. 4 Sobre o fato de que o ente está inteiro, uno e idêntico em todas as partes I

Cujo início é: “Acaso está a alma presente em todas as partes do universo…”

VI. 5 Sobre o fato de que o ente está inteiro, uno e idêntico em todas as partes II

Cujo início é: “Que o que é uno e idêntico em número está a um só tempo inteiro em todas as partes…”

VI. 6 Sobre os números

Cujo início é: “Acaso a multiplicidade é um afastamento do uno…”

VI. 7 Como a multiplicidade de idéias veio a existir e sobre o bem

Cujo início é: “Quando deus enviou para o nascimento…”

VI. 8 Sobre o voluntário e sobre a vontade do uno

Cujo início é: “Acaso deve-se investigar, acerca dos deuses, se há algo que dependa deles…”

VI. 9 Sobre o bem ou o uno

Cujo início é: “Todos os entes pelo uno são entes…”

Portanto, organizamos esses tratados desse modo em seis enéadas, sendo eles cinqüenta e quatro; compusemos, irregularmente, comentários a algumas de suas passagens, porque houve companheiros nossos que nos demandaram escrever acerca das passagens que eles mesmos pretendiam fazer claras. Ademais, também compusemos sumários de todos os tratados, salvo o Sobre o belo porque ele nos faltava, de acordo com a ordem cronológica de seu aparecimento; mas, nesta edição, não figuram apenas os sumários de cada um dos tratados, mas também foram incluídas argumentações[74]. Agora, percorrendo cada um dos tratados, tentaremos acrescentar a pontuação e corrigir, se houver, os erros de expressão; e qualquer outra coisa que nos ocorra, a obra mesma há de assinalar.


[1] Há tradução brasileira da Vida de Plotino, realizada por Reinholdo Ullmann (2002, pp. 229-284). A respeito de Porfírio, recomendamos a apresentação cunhada por Ullmann (pp. 229-240). Todavia, a obra de referência para este escrito de Porfírio é o trabalho coletivo, em dois volumes, de L. Brisson et alii, 1982 (vol. I), 1992 (vol. II).

[2] Creio que tal afirmação – feita por Porfírio, lembre-se – não deva ser entendida como uma repulsa ao corpo (contra Hadot, 1997, p. 25; cf. Ullmann, 2002, p. 241, n. 1). A atitude de Plotino em relação ao corpo não é sempre negativa (como se pode constatar ao longo do grande escrito antignóstico formado por III. 8 [30], V. 8 [31], V. 5 [32] e II. 9 [33]). Com freqüência, ele tende a vê-lo como um instrumento que não foi dado ao homem em vão, como a lira do músico, ao qual deve ser dispensada a atenção necessária para sua manutenção (I. 4 [41] 16). A beleza sensível, para Plotino, é um incentivo para a elevação espiritual, uma vez que todas as determinações perceptíveis num corpo são formas (sobre a beleza, mesmo a corpórea, como ponto de partida para a ascensão, cf. I. 3 [30] 2; I. 6 [1]). Assim, a declaração de Porfírio me parece antes uma conjectura porfiriana para explicar a recusa de Plotino a falar sobre sua origem e, principalmente, a ser retratado (cf. nota 4).

[3] Para todos os nomes próprios presentes na Vida de Plotino, bem como para as informações geográficas e mitológicas, veja-se o estudo de Brisson, 1982.

[4] Lanço mão do mesmo artifício dos outros tradutores, construindo toda a resposta de Plotino em discurso direto, embora parte dela esteja redigida em forma indireta. Sem dúvida, está presente nessa resposta a concepção platônica de que a arte é a produção de cópias a partir de cópias (República 596 b- 598 d); contudo, não vejo necessidade de formular, como faz Pépin (1992a), uma complexa teoria para conciliar essa concepção platônica negativa da arte e a que Plotino apresenta em V. 8 [31] 1, a qual, penso eu, representa sua própria convicção. Tal relutância em ser retratado deve ser fruto, primordialmente, da acentuada modéstia desse pensador que se declara apenas um exegeta de Platão (cf. V. 1 [10] 8. 10-14). É essa mesma modéstia que faz Plotino calar-se a respeito de suas informações biográficas, mas permitir que seus discípulos celebrem o aniversário de Platão (2. 40ss.). Brisson e Segonds (in Brisson et alii, 1992, pp.191-192) supõem que Plotino se recusara a fornecer tais informações biográficas por receio de que tirassem seu horóscopo; mas será que um filósofo que escreveu não poucas páginas negando a influência dos astros em nossa vida poderia ter mesmo esse receio? A esse respeito, veja-se a nota 380 de nosso estudo introdutório.

[5] Conservam-se vários bustos que, em tese, representam Plotino, hoje expostos nos museus do Vaticano.

[6] Evidentemente, não significa que Plotino não tomasse banho; o que se diz aqui é que Plotino se abstinha das termas, ou banhos públicos (cf. Hadot, 1997, p. 135; Brisson e Segonds, in Brisson et alii, p. 199).

[7] 263-268 d. C.

[8] Apresentaram-se vários diagnósticos da enfermidade de Plotino, mas não é seguro acatar nenhum deles. Cogita-se que seja lepra, elefantíase ou diabetes; veja-se o detalhado estudo de M. Grmek, (1992).

[9] Hoje, a cidade italiana de Miturno.

[10] Pozzuoli, atualmente.

[11] Muito já se disse sobre as derradeiras palavras de Plotino, que são, a bem dizer, a síntese de toda sua obra. A principal dificuldade suscitada pela divergência dos manuscritos é saber se Plotino faz uma exortação (e neste caso leríamos o imperativo peirâsthe), ou uma confissão (adotando o infinitivo peirâsthai) a Eustóquio. Veja-se, a esse respeito, o estudo de Pepin, 1992b.

[12] Bréhier (1934-1938, vol. I, nota ad locum) nos precisa que “ainda que a serpente apareça freqüentemente no momento da morte [crença popular da Antiguidade], deve-se colocar essa lenda em relação com o relato do capítulo X, sobre a evocação do daímon de Plotino. O daímon, que era na verdade um deus, é sem dúvida idêntico à serpente que abandona Plotino, no momento de sua morte”.

[13] 270 d. C.

[14] 205 d. C.

[15] Celebrados nos dias 6 e 7 do mês de Targélion, que corresponde aproximadamente a maio (Igal, 1992, vol. I, p. 132, n. 13).

[16] 212 d. C.

[17] Como salienta com perspicácia Igal (op. cit., p. 132, n. 15), o intuito de Plotino, ao recordar tal fato, era possivelmente o de mostrar seu primeiro momento de discernimento moral, abalizando assim o início de sua trajetória espiritual

[18] 232 d. C.

[19] Nada sabemos a respeito desse que uma das figuras mais enigmáticas da história da filosofia. Um resumo das especulações sobre Amônio, bem como alguma bibliografia, podem ser encontradas em Brisson, 1982.

[20] 243 d. C.

[21] Por que Plotino foi para Roma, em vez de retornar para Alexandria? Qual exatamente era sua função na comitiva de Gordiano? Há várias conjecturas, todas plausíveis, mas que, a meu ver, continuam apenas conjecturas (cf. Igal, op. cit., pp. 12-13, e Hadot, 1997, pp. 133-134).

[22] Não se deve tomar a este Orígenes, que era platônico, pelo Orígenes cristão, que era aproximadamente cinqüenta anos mais velho do que Plotino (cf. Brisson, 1982, p. 113-114; Goulet, 1992, pp. 461-463).

[23] Há quem sugira que o pacto se restringia à não publicação escrita dos ensinamentos de Amônio, para que os discípulos pudessem assim utilizá-los sem serem acusados de plágio (Igal, op. cit., p. 133, n. 20). Essa não parece uma atitude coerente com a correção moral e com o brilhantismo intelectual de Plotino, de modo que o mistério persevera. A esse respeito, veja-se O’Brien, 1992.

[24] Sobre a atividade docente de Plotino, veja-se Goulet-Cazé, 1982, pp. 257-280.

[25] 246 d. C.

[26] 263 d. C.

[27] Seguindo, sem dúvida, a tradição de Pitágoras e Platão, de que não deve lançar pérolas aos porcos, permitindo a pessoas vulgares o contato com ensinamentos elevados. Tenhamos em mente a Carta II de Platão.

[28] Os títulos e os inícios dos tratados na apresentação cronológica nem sempre são os mesmos que os da apresentação sistemática (nos capítulos 24-26).

[29] De 263 a 268 d. C.

[30] Comemorações dos dez anos do reinado de Galieno, iniciado no outono de 253 (Igal, op. cit., p. 134, n. 23).

[31] 269 d. C.

[32] Juventude? Lembremos que Plotino tinha aproximadamente cinqüenta anos, quando se pôs a escrever.

[33] Como esclarece Igal (op. cit., p. 142, n. 38), “em Aristóteles (Primeiros Analíticos I 47 b 30 ss.), ‘Mícalo’ é o exemplo do homem ‘músico’ (= ‘músico’, mas também ‘cultivado’). Aqui parece ser um apodo irônico, inventado por Amélio e que, por antífrase, significa o contrário de ‘músico’, porque Paulino estava cheio de doutrinas mal entendidas”.

[34] Trata-se do mito da guerra da antiga Atenas contra a Atlântida, presente no Crítias de Platão.

[35] Há grande controvérsia a respeito do que Plotino não suportava exatamente – há desacordo também a respeito do texto: alguns preferem metalabeîn (“retomar”) e outros, nós inclusive, metabaleîn (“copiar”, “recopiar”); pode-se encontrar um estudo aprofundado da questão em O’Brien, 1982. Penso, no entanto, que o problema é mais simples: como descreve Porfírio a seguir, Plotino compunha mentalmente seus escritos e, mentalmente terminados, transpunha-os para o pergaminho, isto é, ele os copiava uma primeira vez a partir de sua mente, mas nunca uma outra vez além dessa; metabaleîn me parece preferível não só por esse motivo, mas também porque a informação de que Plotino não relia, ou não retomava, o que já estava escrito é dada por anagnônai e por dieltheîn. Dessa forma, creio que devemos entender que Plotino, depois de escrever alguma coisa, jamais “passava a limpo” o que escrevera e sequer lia ou percorria rapidamente o texto uma só vez.

[36] Alguns estudiosos preferem entender syllabé como “letra” ou “palavra”, justificando sua escolha principalmente porque, à época de Plotino, não se separavam as palavras (Goulet-Cazé, 1982, p. 282, n. 3). Não se deve, porém, tomar essa informação sem qualquer precaução, pois é bem provável que desde os gramáticos alexandrinos – que alguns séculos antes já empregavam acentos, espíritos e letras minúsculas – as palavras fossem escritas separadamente. Assim, cabe-nos esperar a escritura de um homem de péssima caligrafia e que sofria, com grandes chances, de hipermetropia e, por isso, não enxergava exatamente o que grafava: um texto em que as letras ou sílabas se acavalavam, eram escritas umas sobre as outras sem separação clara.

[37] Compare-se com o que diz Plotino a respeito da atividade intelectual do sábio, em III. 8 [30] 6 (nota 41).

[38] Plotino teve mulheres entre seus ouvintes, algo não muito comum na antiguidade.

[39] Este Jâmblico, evidentemente, não é o conhecido filósofo que foi aluno de Porfírio.

[40] Curiosamente, esses traços atribuídos por Porfírio a Plotino são semelhantes aos que Plotino atribui ao uno-bem em V. 5 [32] 12. 34-35.

[41] Platão, Banquete 190 e 7-8.

[42] Templo de Isis.

[43] A respeito desta passagem, veja-se Dodds, 1951, pp. 289-291; e Brisson, 1992b, que trata ainda do episódio de Olímpio.

[44] III. 4 [15].

[45] Ao que parece, a intenção de Plotino ao pronunciar tal jactância não era dizer que os deuses mesmos deveriam vir até ele, mas sim que os deuses presentes nos sacrifícios não são os deuses superiores e que se tratava apenas de daímones inferiores (Brisson, 1992b, pp. 472-475).

[46] Em duas passagens das Enéadas (II. 3 [52] 7. 8-10; IV. 3 [27] 18. 19-20), Plotino alude a essa capacidade de clarividência.

[47] Philárchaios: “amante da antiguidade”.

[48] Para a interpretação desta declaração, veja-se o trabalho de Pepin, 1992c.

[49] “Cronologicamente, essa inesperada visita de seu antigo condiscípulo se situa, naturalmente, nos primeiros anos de docência em Roma, quando [Plotino] seguia em suas classes as explicações ouvidas de Amônio, bem conhecidas de Orígenes. Daí o rubor de Plotino” (Igal, op. cit., p. 151, n. 67).

[50]217 a ss.

[51] O tratado Sobre o amor (III. 5 [50]), não é certamente uma refutação ad hominem, mas não deixa de ser uma tentativa de estabelecer princípios corretos – segundo Plotino – para uma interpretação do Banquete.

[52] Homero, Ilíada VIII, 282 (ligeiramente adaptado).

[53] Mais detidamente, em II. 3 [52], III. 1 [3] e IV. 4 [28] 30-45.

[54] A respeito da presença de gnósticos no círculo de relações de Plotino, vejam-se Tardieu, 1992; Puech, 1960; e também a prosopografia elaborada por Brisson (1982).

[55] Por volta de 1945, foi descoberta uma biblioteca gnóstica, escrita em copta, em Nag Hammadi, no Egito; entre os tratados encontrados, constam um Zostriano e um Alógenes, que são provavelmente os mesmos citados por Porfírio; vejam-se as introduções Sieber ao Zostriano (VIII, 1) e de Wire ao Alógenes (XI, 3), em The Nag Hammadi Library in English, Leiden, 1977, p. 402 e 490, respectivamente.

[56] II. 9 [33].

[57] Em grego, basileús significa “rei”.

[58] Talvez na Electra de Sófocles (l. 221).

[59] Os homens comuns ou os acusadores de Plotino, como entendo; contudo, a passagem é difícil e dá margem a outras interpretações.

[60] Respectivamente, IV. 3-5 [27-29] e VI. 1-3 [42-44].

[61] Talvez haja aqui uma reminiscência de Lucrécio, De Rerum Natura, III. 4.

[62] Henry e Schwyzer (ad locum) sugerem que se trata de V. 9 [5] ou de VI. 7 [38]; Brisson   (Brisson et alii, 1992, p. 291) pensa que Longino menciona V. 5 [32], porque faz referência nas linhas que seguem à polêmica entre Porfírio e Plotino a respeito da relação entre o intelecto e os inteligíveis (lembremos que Porfírio o intitulara Que os inteligíveis não são exteriores ao intelecto e sobre o bem); por sua vez, Igal (op. cit., n. 92) sustenta a hipótese que nos parece mais plausível: trata-se de V. 9 [5], porque Longino se refere à palinódia (cf. nota 63) composta por Porfírio para retratar-se e aceitar a doutrina plotiniana de que os inteligíveis não são exteriores ao intelecto, acontecimento dos primeiros anos de Porfírio em Roma (o sexto capítulo de V. 9 [5] expõe essa tese).

[63] Cf. capítulo 18, linha 19.

[64] Teogonia, 35.

[65] Heródoto, I, 47.

[66] Diógenes Laércio, II. 37; Platão, Apologia21 a 6-7.

[67] Embora o tenhamos traduzido em prosa, o oráculo de Apolo foi proferido em versos hexâmetros; sobre a estrutura, o conteúdo e a intenção do oráculo, veja-se Brisson e Flamand, 1992; para um apanhado de interpretações desse oráculo, Goulet, 1992b; e, sobre questões de métrica, Goulet-Cazé, 1992b.

[68] Alusão a Aquiles e à composição inspirada da Ilíada.

[69] “O oráculo será ao mesmo tempo um hino. Por isso, Apolo (= Febo) intervém não só como deus délfico, mas também como ‘condutor de Musas’ (cf. Platão, Leis 653 d 3). Na composição deste ‘oráculo-hino’, a loucura profética se fundirá com a poética” (Igal, op. cit., n. 100).

[70] Cf. supra, 9. 18-19 e nota 40.

[71]201 a ss.

[72] 301 d. C.

[73] O primeiro tratado da quarta enéada da edição porfiriana é, hoje em dia, editado como segundo, e o segundo como primeiro. Veja-se a nota 1 a IV. 2 [21].

[74] Sobre os comentários, as argumentações e os sumários, veja-se introdução I. 2, nota 20.

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