Shankaracharya e o advaita indiano

 

Ele proclamou a igualdade de todos os seres. E a identidade entre a criatura e o Criador. Sua filosofia não dual constitui poderoso remédio para a fragmentação e a ilusão da separação, as grandes doenças do mundo contemporâneo


Com sua atordoante multiplicidade de formas, cada qual exigindo nossa atenção, a realidade constitui para nós um desafio cotidiano. Como integrar o trabalho e a família, a eficiência e a gentileza, a sexualidade e a espiritualidade? Indecisos entre tantos apelos contraditórios, sentimo-nos muitas vezes paralisados. Ou, então, abrimos mão de nosso direito de escolha e nos deixamos arrastar pela corrente, tal como o boi na manada.

Com sua febre consumista, seus valores descartáveis, sua interatividade à distância em tempo real, seus cenários virtuais, sua cultura da distração, a sociedade pós-industrial contemporânea deu a esse problema uma dimensão sem precedentes. Jamais nos sentimos tão fragmentados. Porém, mesmo no contexto das antigas civilizações de base agrária, a questão já estava colocada. E recebeu de grandes mestres respostas com sentido profundo. Um desses mestres foi Adi Shankaracharya, que viveu no século 9º d.C. e é considerado até hoje o maior filósofo da Índia.

Sua visão de mundo se insere na grande linha de pensamento que, no idioma sânscrito, recebeu o nome de advaita: “não-dualidade”. Isso significa que, para ele, tudo era Um. Não havia separação entre a criatura e o Criador. E todos os entes do Cosmos — deuses, demônios, homens, animais, vegetais, minerais etc — eram entendidos como manifestações da própria Divindade. Desse ponto de vista, não existe nada, neste mundo e nos outros, que não seja sagrado. Pensamento semelhante ao de Shankaracharya foi exposto por Plotino no mundo greco-romano. Se formos capazes de compreendê-lo em profundidade, teremos encontrado o grande remédio para a alienação do mundo contemporâneo.

Nascido em época na qual o hinduísmo atravessava um período de decadência, sob o risco de extinção, Adi Shankaracharya foi o grande revitalizador da antiga tradição espiritual de sua terra. Os ensinamentos dele manifestaram-se em profundos tratados filosóficos e em poemas de rara beleza, em intensos debates intelectuais e na fundação da ordem monástica dos swamis, em peregrinações por todo o país e na construção de monastérios. O mais notável é que realizou trabalho de tal magnitude em um tempo extraordinariamente curto, pois abandonou este plano de existência aos 32 anos de idade.

Dons excepcionais

Como ocorre com outros grandes mestres espirituais, a biografia de Adi Shankaracharya foi tão enaltecida pelos admiradores que é impossível separar a lenda da realidade. Descartados os mais óbvios exageros, é interessante valorizar ambas como fontes de informação. Pois, se a lenda não retrata com fidelidade a vida de uma pessoa, ela certamente traduz o impacto que essa personalidade produziu em seus contemporâneos e nas gerações posteriores.

Adi Shankaracharya nasceu em um vilarejo do atual estado de Kerala, no sul da Índia. Seus principais biógrafos apontam como data de nascimento o ano de 805 d.C. Os pais, Shivaguru e Aryamba, eram ardentes devotos de Shiva, o deus supremo do panteão indiano. Sem filhos durante longo tempo, eles rezaram intensamente para que lhes fosse concedido um sucessor. Diz a lenda que, na mesma noite, Shiva apareceu-lhes em sonho. Ao pai, o deus se mostrou na forma de um velho e lhe ofereceu uma escolha: poderia ter uma centena de filhos, que viveriam felizes durante muitos anos, ou um único filho, cuja existência seria curta e penosa, mas que se tornaria um grande sábio. Shivaguru escolheu a segunda alternativa. À mãe, o deus exibiu-se em todo o seu esplendor e prometeu que ela daria à luz um indivíduo extraordinário. A promessa se cumpriu e o menino recebeu o nome de Shankara, que significa “Pacificador” e é uma das 1008 denominações do próprio Shiva.

A tradição afirma que, desde muito cedo, o pequeno Shankara deu mostras de dons excepcionais. Certa vez, antes de partirem um melão, as crianças mais velhas lhe perguntaram quantas sementes havia no interior do fruto. Ele lhes respondeu: tantas quantos são os deuses que criaram o universo. Aberto o melão, foi encontrada uma única semente! Órfão de pai aos 5 anos, Shankara completou, antes dos 8 anos, o estudo dos Vedas, as Sagradas Escrituras indianas. Apesar da oposição da mãe, trocou a vida mundana pelo ascetismo, tornando-se discípulo do sábio Govindapada. Aos 15 anos, fixou-se em Kashi (Benares), onde iniciou sua vasta produção literária, conquistando em pouco tempo enorme reputação e um grande número de discípulos. Então, começou a viajar pela Índia, espalhando as sementes de sua filosofia advaita.

Grave doença da mãe fez com que regressasse a Kerala. Para confortá-la em seus últimos momentos de vida, compôs grandes hinos em louvor dos deuses Shiva e Vishnu. A morte da mãe foi seguida pela do mestre Govindapada. Sem pais e sem tutores, ele voltou às peregrinações, aos debates e aos discípulos.

Um encontro fulminante

Em Kashi, quando se dirigia para as orações no templo, Shankara foi interceptado por um pária — indivíduo pertencente ao segmento mais baixo da pirâmide social. O antigo sistema de castas da Índia impedia qualquer contato físico com os párias, que, por isso, eram chamados de “intocáveis”. Para não esbarrar no homem, o jovem filósofo pediu a ele que se afastasse. O “intocável” então lhe falou: “Ó Shankara, quando você pede que eu me afaste, é um corpo feito de carne que pede a outro corpo feito de carne que se afaste ou se trata da solicitação de uma consciência a outra consciência? Ó expositor do advaita, se você está cego pela aparência das coisas, como pode ensinar a Verdade?”.

Fulminado por essas palavras, Shankara se prostrou aos pés do pária e imediatamente compôs um poema proclamando a igualdade de todos os seres. Segundo os antigos biógrafos, o “intocável” não era outro senão o próprio Shiva, que buscava remover da mente e do coração do filósofo os últimos traços de egoísmo.

Como fundador da ordem monástica dos swamis, Shankara tornou-se conhecido sob o título de Adi Shankaracharya. Adi quer dizer “primeiro” e acharya, “instrutor espiritual”. Portanto, Adi Shankaracharya significa literalmente “Primeiro Instrutor Espiritual da Linhagem de Shankara” (lembrando que neste caso o nome “Shankara” se refere ao próprio Shiva).

Suas obras maiores são os comentários a vários Upanishads (tratados filosóficos clássicos), o comentário ao Bhagavad Gita (o mais afamado texto religioso indiano, que contém os ensinamentos do grande mestre Krishna a seu discípulo Arjuna) e o comentário ao Brahma Sutra (obra atribuída ao sábio Badarayana e considerada um dos pilares do vedanta). Além dessas obras filosóficas maiores, Adi Shankaracharya escreveu vários tratados menores e um grande número de poemas devocionais.

Em algum ponto de sua breve e fulgurante trajetória, Adi Shankaracharya encontrou o sublime mestre Babaji, que o introduziu nas mais avançadas técnicas da ioga. Praticando os ensinamentos de Babaji, ele atingiu a iluminação, antes de desaparecer misteriosamente deste mundo, em 837 d.C.

(*) Excerto do livro Mestres

Um poema de Shankaracharya

Tripurasundari Ashtakam[1] — célebre hino em louvor à Grande Deusa.*

I

Eu busco refúgio em Tripurasundari, a esposa daquele que tem três olhos[2],

Que vaga pela floresta de Kadamba[3] e refresca como miríades de nuvens a legião dos sábios,

Cujas nádegas são mais altas do que as montanhas e que é servida pelas donzelas celestiais,

Cujos olhos são como lótus recém-abertos e que é escura como nuvens recém-formadas.

II

Eu busco refúgio em Tripurasundari, a esposa daquele que tem três olhos,

Que vive na floresta de Kadamba, segurando em sua mão a vina dourada,

Adornada com um colar de pedras preciosas e exibindo no rosto o prazer que vem do néctar,

Que concede a misericórdia e a glória, a Deusa de olhos radiantes.

III

Por ela, cuja casa é a floresta de Kadamba e que ostenta esplêndida guirlanda sobre o peito,

Cujos seios são firmes como montanhas e que brilha no bosque pela graça de Shankara,

Cujas faces são rubras de embriaguez e que é a morada da doce fala e da doce canção,

Por uma mulher tão intensamente azul, como em um jogo, somos todos protegidos.

IV

Eu busco refúgio em Tripurasundari, a esposa daquele que tem três olhos,

Que habita o coração da floresta de Kadamba e está sempre próxima à mandala dourada,

Que vive em cada um dos seis lótus[4] e se manifesta aos siddhas[5] como um jato de luz,

Cuja cor é imitada pelo hibisco e que tem a fronte enfeitada pela lua.

V

Em ti, que entre os seios abrigas a adorável vina e és adornada por cabelos cacheados,

Que resides no coração do lótus e és inimiga dos que têm o intelecto astucioso,

Cujos olhos são rubros de intoxicação e que enamorastes até o inimigo do Cupido,

Que és filha do sábio Matanga[6], nesta doce fala, Tripurasundari, eu busco refúgio.

VI

Nela, que carrega a primeira flor do desejo e veste um traje azul, de sangue pontilhado,

Que segura em sua mão uma taça de mel e revira os olhos, inebriados de intoxicação,

Medite nela, a bela senhora das três cidades, cujo coração se eleva sobre firmes seios,

A negra, de cabelos soltos, a esposa daquele que tem três olhos. Nela, eu busco refúgio.

VII

Ela, que se maquia com cúrcuma e cujos cachos são untados com almíscar,

Que exibe um sorriso suave, enquanto segura o arco, o laço e o aguilhão,

Cuja roupa é decorada com flores vermelhas e que a todos deixa enamorados,

Que brilha entre uma guirlanda de hibiscos, nesta Mãe, eu medito, antes de recitar o mantra.

VIII

Eu reverencio a Suprema Mãe do Universo, a esposa daquele que tem três olhos,

Que é servida e coberta de jóias pelas donzelas celestiais,

E cujos cabelos são penteados por Lakshimi e Sarasvati[7],

A devotada esposa do Senhor Shankara, a Suprema Mãe do Universo eu reverencio.

_________________________________________________________________________________________________________________

 

Notas

 

Este texto, muito insuficiente, foi publicado originalmente como um capítulo de meu livro Mestres. E não passou depois por revisão, para adaptação às normas da última reforma ortográfica. Por isso, algumas palavras aparecem grafadas à maneira antiga. Um perfil mais adequado de Shankaracharya precisaria conter outros episódios, factuais ou lendários, associados à biografia do grande mestre. E também uma exposição um pouco mais desenvolvida de sua filosofia advaita, que até hoje suscita controvérsias entre os especialistas. Em minha viagem ao Himalaia, em 2011, tive o privilégio de visitar a caverna onde Shankaracharya meditou, localizada em Joshimath.

 

[1] Tripurasundari, a Senhora das Três Cidades, é um dos mais belos nomes da Grande Deusa, que é o aspecto feminino da Divindade Única. Alude à sua condição de Senhora dos Três Reinos (Bhuloka, o reino terrestre; Antarloka, o reino espiritual; e Shivaloka, o reino celestial), Senhora das Três Shaktis ou Poderes (Jnana, a sabedoria; Iccha, a vontade; e Kriya, a ação), Senhora dos Três Gunas ou Forças (Tamas, a imobilidade; Rajas, o movimento; e Sattva, a sublimação) e Senhora dos Três Nadis ou Canais de Energia (Ida, o canal lunar; Píngala, o canal solar; e Sushumna, o canal central). E também à sua natureza tríplice de Jovem, Mãe e Anciã. Ashtakam significa poema em oito estrofes.

* Tradução e notas por José Tadeu Arantes.

[2] “Aquele que tem três olhos” é Shiva, cujo “terceiro olho” é um símbolo da visão transcendental, capaz de ultrapassar o mundo ilusório da dualidade e alcançar a Unidade Absoluta. O poema também se refere a Shiva como Shankara, o “Pacificador”.

[3] Kadamba, a floresta mitológica de um milhão de árvores, é uma metáfora do universo.

[4] Os seis lótus são os seis chacras (centros de energia vital) principais, situados ao longo do Sushumna (o canal central de energia vital, que se estende da base da coluna vertebral ao topo da cabeça). Simbolicamente, representam as seis moradas da Shakti, o Princípio Feminino. O sétimo chacra principal, o Sahasrara, situado no topo de cabeça, é a morada de Shiva, o Princípio Masculino.

[5] Siddhas são os iogues perfeitos, que alcançaram o mais elevado estágio de auto-realização.

[6] Mencionado no Ramayana e no Mahabharata, os maiores textos da literatura indiana, Matanga era considerado um pária, por ter nascido da união sexual entre uma mulher e um homem de castas diferentes. Humilhado pelos brâmanes (indivíduos da casta sacerdotal), dedicou-se por milhares de anos a disciplinas iogues até alcançar o status de grande rishi (sábio). Uma das numerosas formas assumidas pela Deusa é a de Matangi, a filha de Matanga. Representada como uma bela adolescente de pele escura, pertencente à casta mais baixa, intensamente sensual e reinando sobre o mundo da impureza e da poluição, Matangi é a própria negação dos tabus e preconceitos incorporados à religiosidade convencional. É tida como a inspiradora dos poetas realmente criativos e a condutora daqueles que buscam o conhecimento esotérico.

[7] Lakshimi e Sarasvati são importantes deusas do panteão indiano. A primeira está associada à abundância, e a segunda, à sabedoria.

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4 Comentários

  1. Indranii

     /  16 de junho de 2017

    Que lindo este trabalho, sr. José Tadeu. Gratidão por compartilhar. Vou indicar seu blog aos meus alunxs.

    Responder
  1. Amman Pranabananda | José Tadeu Arantes (Kabir)
  2. Dakshinamurti Stotram — um poema de Shankaracharya | José Tadeu Arantes (Kabir)
  3. Dakshinamurti Stotram — um poema de Shankaracharya | José Tadeu Arantes (Ganapati)

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