Nomes

Ibn Sina, a Esfinge e a Lâmpada

Ibn Sina, a Esfinge e a Lâmpada: JTA, desenho, 1989.

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Para Marcio Belo

Em memória de Federico Garcia Lorca (1898 — 1936)

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1. Auá Dju

Sou a Pequena Chama,

O nobre Templo Dourado,

Recinto de reverência e refúgio,

No círculo do coração.

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Sou a Alma Imortal,

Representante do Nome Veraz,

O Homem Dourado, Chaitya Purusha,

Real protagonista.

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2. Namus

Sou aquele que nomeia,

O condutor nominal do cortejo,

Ainda viçoso no outono alongado,

Ainda no rastro da evasiva Sabedoria.

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Abro caminho, puxo e empurro.

E, com minhas sementes, cordões e metais,

Enfilo e amarro sílabas ancestrais,

Compondo um colar com os Mais Belos Nomes.

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3. Guha

Sou a Criança Divina,

Nascida entre os caniços do pântano,

O menino misterioso e selvagem,

Que percorre a floresta cavalgando um Jaguar.

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Sem sapatos, sem parentes, sem nada a perder,

Vivo quase nu, vestindo uma tanga,

Mas trago no corpo nove joias preciosas,

E, no entendimento, o conteúdo oculto do Om.

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4. Yussuf Efendi

Sou a Criança Ferida,

Nascida entre pregos e espinhos,

O menino assustado e tristonho,

Que carrega nas mãos um cofre de mágoas.

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Protejo-me dos medos com ritos e amuletos,

E abrigo-me do frio com roupas de lã.

Mas tenho na bolsa um livro escrito em grego,

Traduzido do hebraico por setenta rabinos.

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5. Ya’wara

Sou a Onça Negra, a Fêmea Jaguar:

Sigo inteira no elegante movimento,

O luar assopra as brasas dos meus olhos,

E minhas narinas dialogam com o vento.

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Fiel aos Deuses, inimiga dos hipócritas,

Visito, todos os dias, o Templo de Ouro:

Soberana das trilhas da Floresta,

Guardiã do Místico Tesouro.

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6. Mano Manco

Sou aquele que busca um entendimento,

Que está além de meu estreito descortino:

Agarro-me à epiderme da palavra,

Amarro-me no fio do raciocínio.

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Meus passos claudicantes apoio com um bastão.

Assim, entendo-me firme e consistente.

Sigo em frente com a mais reta intenção,

Mas a sinuosidade do mundo me surpreende.

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7. Tría

Sou trino e uno, como tudo que existe:

Mónos, o belo adolescente por trás de suas cortinas,

Fóvos, que relê as lombadas de seus livros até o dia clarear,

Téras, o bípede monstruoso que Flexor retratou.

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Em pia batismal meu filho foi gerado.

E abortado dentro do confessionário.

Com meu manto negro cobri o riso franco

Daquelas três mourinhas de Jaén.

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8. Moura

Sou trina e uma, como tudo que é real:

Axa, riso solto, seios firmes, pelos vastos,

Fátima, que escutou o sermão sobre a Trindade,

Marién, mãe de um filho abortado.

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À sombra de uma oliveira, em terra antanha,

Enterrei a culpa, o remorso e o rancor.

Deixei meus nomes e mantilhas na Espanha,

E sigo nua, una e trina, pela trilha do Jaguar.

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