Mãe Negra

Oiá

“Iansã” (Oiá): escultura de Tatti Moreno, Parque da Catacumba, Rio de Janeiro. Foto de Eurico Zimbres. Creative Commons.

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Introdução

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Não é a razão sóbria que chama a humanidade à luta. A Marselhesa, o canto que impulsionou os revolucionários de 1789 e se transformou depois no hino nacional da França, é um apelo aos sentimentos mais exaltados. A emoção acorda as pessoas e as põe em movimento. Só então cabe à razão perguntar: movimento para onde? E o calor emocional e a frieza racional se completam e temperam. Fogo e água. Mas o poder mobilizador do símbolo pode subir uma oitava se, ao binômio emoção-razão, for acrescentado um terceiro elemento: a força espiritual do arquétipo. Vetor que aponta para cima, manifestação de um nível mais alto de existência.

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Na Índia da primeira década do século XX, entregue à letargia e de joelhos diante do imperialismo britânico, foi um poema, ao mesmo tempo amoroso, nacionalista e místico, que sacudiu as consciências entorpecidas: Bande Mataram, título cuja tradução aproximada é “Curvo-me diante de ti, ó Mãe”. Nele, três mães, sintetizadas em uma só, são honradas simultaneamente: a mãe biológica, genitora do indivíduo; a mãe pátria, genitora do povo; e a mãe divina, genitora da humanidade. Muito antes que Ghandi ingressasse na cena política, esse poema, composto em língua bengali por Bankim Chandra Chattopadhyay, e traduzido para o inglês por Sri Aurobindo Ghose, transformou-se no hino revolucionário pela independência da Índia, sendo terminantemente proibido pelas autoridades coloniais britânicas.

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Também o Brasil precisa reencontrar a força da Mãe. “Mãe de belezas secretas”, tal como a exaltou um cântico ioruba. Mãe cujo axé pode curar uma sociedade doente. Mãe cujo poder mobilizador pode impulsionar aqueles que buscam a Luz em tempo de trevas. Essa potência arquetípica está viva na Mãe Negra Aparecida, senhora que emergiu das águas, senhora de peixes e abundância, senhora de dádivas incontáveis. Essa potência arquetípica está viva em Oiá, senhora do grande rio, senhora do entardecer, senhora do vento que precede a tempestade. Essa potência arquetípica está viva em tantas outras Mães, que são, todas elas, presenças da mesma Mãe, cujo negror é Mistério Insondável e cuja doação não conhece limites.

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A essa Mãe eu dirijo minha prece.

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Oração

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Senhora,

Que portas em cada mão uma serpente,

E te ergues como grande caduceu,

Enfeixando em teu poder os três poderes,

Vontade, ação, conhecimento:

Concede-nos viver sobre esta terra!

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Senhora,

Que caminhas sobre as vagas do oceano,

Com teus pés pisando a branca espuma,

Circundada por peixes e golfinhos,

Protegendo quem se arrisca em meio às ondas:

Conduze-nos a um porto seguro!

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Senhora,

Humilde e majestosa tamareira,

Cujas raízes anunciam a água oculta,

Cujo tronco reúne a terra ao céu,

Cuja copa fornece doces frutos:

Derrama teu orvalho sobre nós!

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Invocação

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Krim Krim Krim Hum Hum Hrim Hrim, Dakshine Kalike,

Krim Krim Krim Hum Hum Hrim Hrim, Svaha!

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