Quatro estrofes do Tirumandiram

Nataraja CERN

Shiva, na forma do Nataraja, o Bailarino Cósmico. Réplica da estátua existente no Templo de Chidambaram (no sul da Índia), instalada no CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (em Genebra, Suíça). Os gestos das mãos e as posições dos pés representam as Cinco Atividades Divinas (Panchakriya).

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O Tirumandiram (literalmente, “Versos Sagrados”), escrito pelo siddha Tirumular em tâmil, provavelmente entre os séculos IV e VI d.C., é o texto mais antigo e mais importante de yoga do sul da Índia. É constituído por pouco mais de três mil estrofes de quatro versos, rimados e metrificados, que tratam de assuntos diversos, como teísmo monista, misticismo, yoga, tantra, mantra, yantra etc.

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Como outros textos atribuídos aos siddhas, o Tirumandiram foi escrito no que se convencionou chamar de “linguagem crepuscular”. Trata-se de uma linguagem deliberadamente obscura e cifrada, que necessita de certas chaves interpretativas para ser minimamente decifrada e compreendida.

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Tirumular chama seu ensinamento de Shiva Yoga. É o método pelo qual o Jiva (a Alma) se identifica com Shiva (a Realidade).

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Segundo as palavras do professor T.N. Ganapathy, coordenador da monumental tradução inglesa do Tirumandiram, “o Tirumandiram é uma obra que trata de como viver uma vida divina no meio da vida mundana; ele realiza o significado da palavra ‘tantra’, a ‘teia’ que une as dimensões espiritual e material da vida; e expressa o fio da unidade que existe por trás das muitas diferenças de tempo, lugar, idioma, casta, religião, superior e inferior, felicidade e miséria, riqueza e pobreza”.

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Tirumular é computado entre os 63 Nayanmars (Santos Shivaístas) e os 18 Siddhas (Iogues Perfeitos). Diz a tradição que, depois de ser iniciado no Monte Kailasa pelo próprio Shiva (manifesto na forma humana do Adi Yogi, o Iogue Primordial), ele teria viajado para o sul da Índia, onde viveu a experiência de transmigrar seus corpos sutis para o corpo físico de um tâmil morto. Em Chidambaram, alcançou o mais elevado estágio de Samadhi, com a transmutação alquímica do novo corpo e a conquista da imortalidade.

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Boganathar, o guru de Bábaji, afirmou que, em uma de suas muitas viagens físicas ou astrais, teve a oportunidade de contemplar Tirumular em Samadhi. E que não tinha palavras para descrever a glória de luz e fragrâncias que emanava de seu corpo.

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Nesta estrofe, Tirumular resumiu o objetivo do Tirumandiram:

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“Eu celebro e exalto o refúgio que é gnose,

Os Pés Salvíficos do Senhor, mestre de minha alma.

Olhe e veja! Eu proclamo Shiva Yoga!

E saúdo a Letra Singular do Nome do Senhor.”

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A expressão “Letra Singular” refere-se à sílaba AUM, que se exterioriza como OM. AUM (o “Verbo Primordial” ou “Som Primordial”) é considerado a Primeira Manifestação Substantiva de Deus. Não a “Voz de Deus”, como às vezes se diz. Mas o próprio Deus, manifestando-se como movimento, oscilação ou vibração, extrafísicos ou metafísicos. Também não o som, na acepção material da palavra. Mas o protossom, que, somente após muitas “veladuras”, poderá ser apreendido como som no plano sensível.

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Seguem aqui mais três estrofes do Tirumandiram, numeradas conforme sua posição no conjunto da obra.

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Estrofe 888

A Letra Inigualável manifesta-se como o Tandava,

Tandava, dança que é a manifestação da Graça,

Tandava, dança manifestada pelo Divino Isto,

Tandava, dança manifesta no Áureo Ambalam.

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Nota explicativa

A Letra Inigualável é AUM, que, conforme foi dito, constitui a Primeira Manifestação Substantiva de Deus. Tandava é a Dança de Shiva, que expressa as Cinco Atividades Divinas (Panchakriya): Criação, Manutenção e Destruição do Cosmo e Obscurecimento e Esclarecimento da Consciência. O primeiro verso da estrofe afirma, portanto, que, da Primeira Manifestação Substantiva derivam as Cinco Atividades Divinas.

A expressão “Áureo Ambalam” (Ponnambalam), que pode ser traduzida como “Vasto Espaço Dourado”, refere-se, no Plano Físico, ao Sancta Sanctorum do Templo de Chidambaram, que abriga a estátua de Shiva como Nataraja, o Bailarino Cósmico. É sustentado por 28 pilares (representando os 28 Ágamas ou Sagradas Escrituras shivaístas) e coberto por 21.600 telhas de ouro (representando as 21.600 respirações diárias do ser humano médio), fixas por 72.000 pregos de ouro (representando os 72.000 nadis). Em cada telha, está gravado o mantra Namashivaya. No Plano Sutil, o Ponnambalam é o Vasto Espaço Dourado ou Vasto Espaço Luminoso (Vettaveli), que pode ser visualizado interiormente em estado intensificado de consciência.

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Estrofe 896

Ele é sua própria Consorte;

Ele é seu próprio Guru;

Ele é a própria Montanha onde habita;

Ele é, de fato, a Natureza em Transmutação.

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Estrofe 897

Ele é o Mestre, o Dançarino e o Uno do Eterno Empíreo;

Ele é o Santo dos Santos;

Ele é a florescente Gnose;

Absolutamente salvíficos são os seus dois Pés.

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Tirumular 2

Estatueta de ouro representando o siddha (iogue perfeito) Tirumular.

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As versões em português destas quatro estrofes foram feitas por mim a partir da tradução inglesa do texto tâmil, coordenada pelo professor T.N. Ganapathy.

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1 comentário

  1. Eliana Pacheco

     /  9 de janeiro de 2018

    Estou relendo Babaji e os 18 Siddhas e estava lendo o capítulo sobre Tirumular, vim olhar no seu blog e encontrei esse ótimo texto e essa foto linda da imegem de Tirumular. Namastê!

    Responder

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