Três poemas de Shankaracharya

adi-shankaracharya novo

Imagem tradicional de Shankaracharya, com o traje cor de açafrão da Ordem dos Swamis, criada por ele no século IX d.C.

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Introdução

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Adi Shankaracharya é considerado o maior filósofo da Índia e o principal expositor do advaita, a não-dualidade. Nascido em uma época na qual o hinduísmo atravessava um período de decadência, com risco de extinção, ele foi o grande revitalizador dessa antiga tradição espiritual. Seus ensinamentos manifestaram-se em profundos tratados filosóficos e em poemas de rara beleza, em intensos debates intelectuais e na fundação da ordem monástica dos swamis, em peregrinações por todo o país e na construção de monastérios. O mais notável é que realizou trabalho de tal magnitude em um intervalo de tempo extraordinariamente curto, pois, segundo a tradição, abandonou este plano de existência aos 32 anos de idade.

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Adi Shankaracharya nasceu em um vilarejo do atual estado de Kerala, no sul da Índia. Seus principais biógrafos apontam como datas mais prováveis do nascimento os anos de 788 d.C. ou 805 d.C. Os pais dele, Shivaguru e Aryamba, eram ardentes devotos de Shiva, o deus supremo do panteão indiano. Sem filhos durante muitos anos, rezaram intensamente para que lhes fosse concedido um sucessor. Diz a lenda que, na mesma noite, Shiva apareceu-lhes em sonho. Ao pai, o deus se mostrou na forma de um velho e lhe ofereceu uma escolha: poderia ter uma centena de filhos, que viveriam felizes durante muitos anos, ou um único filho, cuja existência seria curta e penosa, mas que se tornaria um grande sábio. Shivaguru escolheu a segunda alternativa. À mãe, o deus exibiu-se em todo o seu esplendor e prometeu que ela daria à luz um indivíduo extraordinário. A promessa se cumpriu e o menino recebeu o nome de Shankara, que significa “Pacificador” e é uma das 1008 denominações do próprio Shiva.

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A tradição afirma que, desde muito cedo, o pequeno Shankara deu mostras de dons excepcionais. Órfão de pai aos 5 anos, ele teria completado, antes dos 8 anos, o estudo dos Vedas, as Sagradas Escrituras indianas. Apesar da oposição da mãe, trocou a vida mundana pelo ascetismo, tornando-se discípulo do sábio Govindapada. Aos 15 anos, fixou-se em Kashi (Benares), onde iniciou sua vasta produção literária, conquistando em pouco tempo enorme reputação e um grande número de discípulos. Começou, então, a viajar pela Índia, espalhando as sementes da filosofia advaita.

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Grave doença da mãe fez com que regressasse a Kerala. Para confortá-la em seus últimos momentos de vida, compôs grandes hinos em louvor dos deuses Shiva e Vishnu. A morte da mãe foi seguida pela do mestre Govindapada. Sem pais e sem tutores, Shankara voltou às peregrinações, aos debates e aos discípulos.

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Em Kashi, quando se dirigia para as orações no templo, foi interceptado por um pária — indivíduo pertencente ao segmento mais baixo da pirâmide social. O antigo sistema de castas da Índia impedia qualquer contato físico com os párias, que, por isso, eram chamados de “intocáveis”. Para não esbarrar no homem, o jovem filósofo pediu a ele que se afastasse. O “intocável” então lhe falou: “Ó Shankara, quando você pede que eu me afaste, é um corpo feito de carne que pede a outro corpo feito de carne que se afaste ou se trata da solicitação de uma consciência a outra consciência? Ó expositor do advaita, se você está cego pela aparência das coisas, como pode ensinar a Verdade?”.

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Fulminado por essas palavras, Shankara se prostrou aos pés do pária e imediatamente compôs um poema proclamando a igualdade de todos os seres. Segundo os antigos biógrafos, o “intocável” não era outro senão o próprio Shiva, que buscava remover da mente e do coração do filósofo os últimos traços de egoísmo.

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Como fundador da ordem monástica dos swamis, Shankara tornou-se conhecido sob o título de Adi Shankaracharya. Adi quer dizer “primeiro” e acharya, “instrutor espiritual”. Portanto, Adi Shankaracharya significa literalmente “Primeiro Instrutor Espiritual da Linhagem de Shankara” (lembrando que, neste caso, o nome “Shankara” se refere ao próprio Shiva).

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Suas obras maiores são os comentários a várias Upanishads (tratados filosóficos clássicos), o comentário à Bhagavad Gita (o mais afamado texto religioso indiano, que contém os ensinamentos do grande mestre Krishna a seu discípulo Arjuna) e o comentário ao Brahma Sutra (obra atribuída ao sábio Badarayana e considerada um dos pilares do vedanta). Além dessas obras filosóficas maiores, Adi Shankaracharya escreveu vários tratados menores e um grande número de poemas devocionais.

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Em algum ponto de sua breve e fulgurante trajetória, ele encontrou o sublime mestre Bábaji, que o introduziu nas mais avançadas técnicas do yoga. Praticando os ensinamentos de Bábaji, Adi Shankaracharya teria atingido a iluminação, antes de desaparecer misteriosamente deste mundo, em 820 d.C. ou 837 d.C.

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Os três poemas maiores de Adi Shankaracharya são o “Bhaja Govindam”, o “Dakshinamurti Stotram” e o “Tripurasundari Ashtakam”. Recriei, em diferentes épocas, esses três poemas em português, e os postei neste blog. Resolvi reuni-los, agora, em uma única postagem, para oferecer aos eventuais interessados uma apresentação mais abrangente da filosofia advaita, tal como foi exposta em versos pelo grande filósofo. Seguem os três poemas, com meus comentários e notas explicativas.

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Bhaja Govindam

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Adora o Senhor! Adora o Senhor!

Adora o Senhor, ó tolo!

Pois, quando chegar a hora destinada,

De nada valerão as regras da gramática.

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Livra-te da miragem das riquezas,

Concentra tua mente apenas no Real,

Contenta-te com o que te suceder,

Como fruto das ações que praticaste.

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Não te deixes engolfar pela ilusão

Ao veres o umbigo e o seio da mulher.

Eles são carne e gordura, nada mais.

Lembra-te disto, uma e outra vez.

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Como a gota que tremula sobre o lótus,

Assim é incerta a vida humana.

Percebe como o mundo está enredado

Na tristeza, na doença, no conceito.

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Enquanto possui força para sustentar,

O homem tem o afeto de quem sustenta.

Mas quem o sustentará quando lhe faltar força

E a idade curvar a linha de seu corpo?

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Enquanto o ar soprar por suas narinas,

Seus familiares perguntarão a ele se está bem.

Mas quem não crispará o rosto ante o cadáver,

Quando o sopro da vida o abandonar?

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O menino se entretém com seus brinquedos,

O jovem com o encanto da mulher,

O velho com a lembrança do passado.

Haverá tempo para contemplar a Eternidade?

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Quem é tua esposa? Quem é teu filho?

De onde vieste? Para onde vais?

Bem estranha, gira a roda do Samsara!

Ó irmão, medita nisto, mais e mais.

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Na Satsanga, se cultiva o desapego,

O desapego emancipa da ilusão,

Sem ilusão, chega-se à estabilidade,

Com estabilidade, advém a libertação.

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Que é feito da luxúria se a juventude seca?

De que serve o lago que já não possui água?

Aonde vão os parentes quando a fortuna acaba?

Pode subsistir o Samsara quando a Verdade brilha?

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Não te gabes de riqueza, amigos, juventude.

Pois tudo podes perder em um instante.

Liberta-te das vagas que o sopro de Maya faz surgir

E ancora tua atenção no mar do Absoluto.

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Dia e noite se alternam em sua ronda,

O frio inverno sucede a primavera,

O tempo vai e a vida se esvai,

Mas a tormenta do desejo nunca cessa.

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Ó tolo, por que te perdes em busca da riqueza?

Não há ninguém capaz de guiar teus passos?

Só um caminho pode salvar-te nos três mundos.

Apressa-te e percorre-o com que sabe.

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Muitos deixam seus cachos emaranhados,

Muitos raspam cada fio de suas cabeças,

Muitos juntam seus cabelos em um coque.

Mas quem vê a Verdade em frente aos olhos?

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Com carnes flácidas, segue o velho pelo mundo,

A cabeça calva, as gengivas desdentadas,

Seus passos trôpegos, ele os sustenta com muletas.

Mas a força do desejo não o deixa.

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Ao seu lado, desnudo, senta-se imóvel o asceta,

Come da comida que lhe dão em uma tigela,

Resiste ao sol que queima e ao frio o enregela.

Mas é um fantoche nos dedos das paixões.

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Podes mergulhar no Ganges para te purificares,

Cumprir jejuns, dar tua fortuna em caridade,

Porém, se não houver sabedoria em teus atos,

Nem em mil vidas alcançarás a libertação.

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Aquele que cede à luxúria por prazer

Deixa seu corpo ser uma presa da doença.

Embora a morte traga um fim ao que existe,

O homem não desiste do caminho do pecado.

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A riqueza não traz o bem-estar,

De fato, não está nela a alegria.

O homem rico teme até seu próprio filho:

Assim a riqueza lhe ordena que o faça.

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Controla o prana, recolhe os sentidos,

Discrimina entre o Real e o transitório,

Aquieta a mente, invoca os Nomes Santos,

E resiste ao poder da distração.

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Ó devoto dos pés de lótus do Guru!

Possas em breve estar livre do Samsara.

Com os sentidos e a mente controlados,

Experimentarás o Senhor no coração.

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Adora o Senhor! Adora o Senhor!

Adora o Senhor, ó tolo!

Se não invocas os Nomes do Senhor,

Como cruzarás o oceano deste mundo?

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Nota explicativa

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Bhaja Govindam (Adora o Senhor) constitui, juntamente com Dakshinamurti Stotram e Tripurasundari Ashtakam, a tríade dos poemas máximos de Shankaracharya. Considerado o maior filósofo da Índia e o principal expoente do advaita (a não-dualidade), Shankaracharya foi também um poeta excepcional.

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Govinda, que significa “Vaqueiro”, mas também é traduzido como “Aquele que dá prazer aos sentidos”, é um Nome Divino caracteristicamente atribuído a Krishna.

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A história deste poema é muito interessante. Diz a tradição que foi composto de improviso durante a famosa peregrinação de Shankaracharya à cidade santa de Kashi (Varanasi). Ele caminhava na companhia de 14 discípulos, quando, em um ghat (escadaria) às margens do Ganges, viu um velho gramático dando aula a seus alunos. Assim como algumas outras religiões, o hinduísmo bramânico é extremamente minucioso e atribui uma importância enorme à prática rigorosa dos ritos e à recitação perfeita dos hinos e invocações. Fiel a essa herança cultural, o gramático louvava com entusiasmo as maravilhas do idioma sânscrito e a correção das regras gramaticais. Compadecido por esse homem, que se distraía com o acessório e deixava escapar o essencial, já próximo do fim da vida e ainda tão distante da meta, Shankaracharya criou, de um só fôlego, a primeira estrofe do poema:

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Adora o Senhor! Adora o Senhor!

Adora o Senhor, ó tolo!

Pois, quando chegar a hora destinada,

De nada valerão as regras da gramática.

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As outras estrofes sucederam-se com fluência – algumas acrescentadas pelos discípulos –, compondo um discurso que funde, de maneira exemplar, o conteúdo austero do Advaita Vedanta com a forma apaixonada do Bhakti Yoga (o Yoga devocional).

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Shankaracharya concebia Deus como a única realidade existente: o “Um sem um Segundo”, ao mesmo tempo transcendente e imanente. Transcendente, existiria em si mesmo, como o inefável Brahman; imanente, se manifestaria de maneira velada, por trás da aparência dos entes e fenômenos do mundo. Sri Ramana Maharshi (1879 – 1950), um dos grandes santos e sábios da Índia contemporânea, resumiu todo o pensamento de Shankaracharya em uma frase curta e magistral: “O mundo é ilusório. Só Brahman é real. Brahman é o mundo”. Isso não quer dizer que Shankaracharya tenha negado a realidade do mundo, como erroneamente interpretaram alguns. Ele apenas negou que o mundo fosse o que aparenta ser: uma realidade autossuficiente, independente do Divino.

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Para esse monismo radical, o Criador e a criatura são um e o mesmo, não podendo haver separação real entre ambos. Tal compreensão não impediu, porém, que o grande filósofo reconhecesse o valor do Yoga devocional e exaltasse a relação amorosa entre o homem e Deus. Pois, se é certo que o amante procede do Amado, sendo, portanto, o próprio Amado, também é certo que sua verdadeira natureza se encontra velada. Separado da Essência pelo véu da aparência, o homem sofre a dor da distância e da ausência, e aspira e suspira por si mesmo, em um anseio de retorno e reunião.

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Uma anedota muito saborosa, associada ao Bhaja Govindam, ressalta a força da ilusão, que separa a aparência da Essência. Shankaracharya foi um debatedor insuperável. E havia, em seu tempo, uma regra de etiqueta nos debates: aquele que perdesse devia reconhecer a superioridade do adversário e pedir para ser seu discípulo. Segundo a tradição, Shankaracharya converteu, dessa maneira, muitos oponentes em seguidores. Porém, em um desses debates (e é a este que a anedota se refere), o adversário tinha uma esposa, que, em certa altura da discussão, pediu a palavra e fez a Shankaracharya uma pergunta relativa à vida conjugal. O grande advaitim (partidário do Advaita) nada sabia do assunto, porque era celibatário. Sem poder responder, pediu que o debate fosse suspenso para que tivesse tempo de refletir.

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Longe do olhar do oponente, Shankaracharya descobriu que um príncipe, que possuía um grande harém, acabara de morrer. E, utilizando seus poderes ióguicos, transmigrou seus corpos sutis para o corpo físico do príncipe morto. Este, aparentemente, voltou à vida. Com o novo corpo, o filósofo experimentou, então, a vida principesca. E tão fascinado ficou com o palácio, o harém e tudo mais que esqueceu quem era.

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Os discípulos, que acompanhavam os acontecimentos a uma certa distância, ficaram apavorados, pois perceberam que seu mestre, com a consciência obstruída pelos véus de Maya, estava sendo arrastado para bem longe pela roda do Samsara. Aproximaram-se, então, dele, e recitaram a primeira estrofe do Bhaja Govindam. Shankaracharya imediatamente lembrou quem era. E, regressando ao seu próprio corpo físico, voltou ao debate. Com o que aprendeu na falsa vida de príncipe, pôde responder de forma satisfatória a pergunta da esposa do oponente. Conquistou, assim, dois novos seguidores.

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Shankaracharya compôs o Bhaja Govindam no idioma sânscrito, em quadras rimadas e metrificadas. Como o meu parco conhecimento do sânscrito se resume a algumas dezenas de palavras, recriei o poema em português a partir de uma tradução inglesa, disponível em http://sanskritdocuments.org/doc_vishhnu/bhajagovindam.pdf. Pelo fato de o poema ser muito longo, eliminei as estrofes atribuídas aos discípulos. E fiquei apenas coma aquelas que a tradição creditou ao próprio Shankaracharya.

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O tradutor para o inglês se ateve ao conteúdo dos versos e ao significado das palavras, porém abriu mão da estrutura poética. Procurei reconstruí-la em português, pois, além dos ensinamentos filosóficos que contém, o poema utiliza imagens belíssimas. Não obedeci aos rigores da métrica, mas estruturei minha recriação em quadras de versos, utilizando, eventualmente, recursos poéticos como a aliteração, a rima etc.

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Dakshinamurti Stotram

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Parte 1 (Dakshinamurti Stotram)

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Este mundo, irreal como a imagem de uma cidade refletida no espelho,

É igual a um sonho, que te faz ver fora o que habita o teu interior.

Pela autorrealização, Ele te leva ao Atman, que é “Um sem um segundo”.

Saudações a Ele, o Senhor Dakshinamurti, na forma de meu Guru.

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Este mundo, inicialmente imanifesto como a árvore na semente,

Manifesta-se pelo poder de Maya, que engendra o espaço e o tempo.

Como um mágico, Ele projeta o mundo de Si Mesmo por meio da vontade.

Saudações a Ele, o Senhor Dakshinamurti, na forma de meu Guru.

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A Ele, que te inspira a discriminar entre o real e o ilusório,

Que concede o conhecimento direto por meio da fórmula “Tu és Isso”,

Sem cuja condução te perderias no oceano do nascer e do morrer:

Saudações a Ele, o Senhor Dakshinamurti, na forma de meu Guru.

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A Ele, cujo fulgor tu emanas pelos órgãos dos sentidos,

Como o brilho de uma chama no interior de um pote com orifícios,

Como a luz da Consciência, cujo “Eu Sei” originou toda a criação:

Saudações a Ele, o Senhor Dakshinamurti, na forma de meu Guru.

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Aqueles que se identificam com corpo, vida, mente ou intelecto

São ingênuos como crianças ou embrutecidos pela estupidez.

Ele desmancha a trama de ilusão que Maya tece sem cessar.

Saudações a Ele, o Senhor Dakshinamurti, na forma de meu Guru.

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O Atman, que o véu de Maya cobre como o Sol durante o eclipse,

Brilha novamente com força quando a veladura é retirada.

Ele te faz despertar e recordar que estiveste dormindo.

Saudações a Ele, o Senhor Dakshinamurti, na forma de meu Guru.

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O Atman, ao longo das múltiplas mudanças da idade e do humor,

Manifesta-se no interior como o imutável senso de identidade.

Ele desvela sua própria natureza pelo auspicioso mantram “Aham Sa”.

Saudações a Ele, o Senhor Dakshinamurti, na forma de meu Guru.

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O Atman vê neste mundo expressões dúplices de Si Mesmo:

Pai e filho, amo e servo, mestre e discípulo, e assim vai.

Ele te emancipa do ir e vir errante entre o sonho e a vigília.

Saudações a Ele, o Senhor Dakshinamurti, na forma de meu Guru.

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Tudo o que percebes deriva da manifestação óctupla de Shiva:

Terra, água, fogo, ar, éter, sol, lua e a testemunha consciente.

Imerge em contemplação e realiza que não há nada além Dele.

Saudações a Ele, o Senhor Dakshinamurti, na forma de meu Guru.

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Neste hino, a onipresença do Atman foi claramente enunciada.

Escutando-o, recitando-o, refletindo sobre ele, meditando nele,

Saberás que és – tu mesmo – o Senhor, em seu óctuplo esplendor.

Saudações a Ele, o Senhor Dakshinamurti, na forma de meu Guru.

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Parte 2 (Dhyana Shlokas)

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Um jovem Guru, que pelo silêncio dá a conhecer o Supremo Brahman,

Rodeado por rishis firmemente ancorados na sabedoria,

Mestre dos mestres, cujo gesto é o Chinmudra, e a natureza, a plenitude,

Sorrindo, deleitando-se consigo mesmo:

Eu me curvo diante dele, o Senhor Dakshinamurti.

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Sentado no chão, à sombra da copa do banyan,

Ele distribui o conhecimento com fartura aos rishis que o circundam,

Mestre dos três mundos,

Destruidor das misérias do nascimento e da morte:

Eu me curvo diante dele, o Senhor Dakshinamurti.

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Ó maravilha! Sob a copa do banyan, discípulos idosos rodeiam o jovem Guru.

Ele os ensina em silêncio, e, no entanto, todas as suas dúvidas são dissipadas.

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Saudações ao Senhor Dakshinamurti, morada da sabedoria, mestre do mundo,

Curador daqueles que sofrem da doença do Samsara.

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Saudações ao Senhor Dakshinamurti, que manifesta o sentido oculto do Om,

Cuja forma é puro conhecimento, imaculado e silencioso.

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Nota explicativa

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O Dakshinamurti Stotram compõe, juntamente com o Bhaja Govindam e o Tripurasundari Ashtakam, a tríade dos poemas máximos de Adi Shankaracharya. E constitui, em si mesmo, uma exposição excepcional do advaita, a não-dualidade.

Há séculos, seus versos vêm sendo não apenas memorizados, recitados ou cantados, mas também esmiuçados pela reflexão intelectual ou penetrados ainda mais profundamente pela meditação. Pois, imbricados na beleza das imagens poéticas, densos ensinamentos filosóficos são por ele transmitidos. O grande advaitim (partidário da não-dualidade) o compôs como um hino em louvor a Shiva, que Shankaracharya visualizou na forma de seu próprio Guru.

Dakshinamurti é, precisamente, um dos 1000 ou 1008 nomes de Shiva. Segundo os exegetas, essa palavra pode ser desmembrada de duas maneiras:

1. Como Dakshina (Sul) e Murti (Forma), significando, neste caso, “Aquele cuja forma se volta para o Sul”, ou, de maneira abreviada, “Aquele que olha para o Sul”;

2. E como Dakshin (Hábil) e Amurti (Sem Forma), significando, neste caso, “Aquele que é hábil e sem forma”.

A explicação, no primeiro caso, é que, na “topografia mística”, o Norte alude, simbolicamente, ao mundo divino, enquanto o Sul representa o mundo dos homens. Assim, nos relatos mitológicos, a morada de Shiva localiza-se no monte Kailasa, situado na cordilheira do Himalaia, ao norte do subcontinente indiano.

Aplicada ao Deus, a metáfora “olhar para Sul” possui o sentido de compadecer-se do sofrimento humano (decorrente da ignorância) e vir em nosso socorro (por meio do esclarecimento).

Essa orientação espacial é obrigatória nos templos shivaístas. Neles, o eixo principal do complexo arquitetônico sempre respeita a direção Norte-Sul. E a estátua principal do Deus, instalada no Sancta Sanctorum, tem a face necessariamente voltada para o Sul. Do lado de fora do edifício principal, a estátua de Nandi, o boi, olha para o Norte, simbolizando a Alma que aspira ao Divino.

Mas a dicotomia Deus-Alma é transcendida pela reflexão filosófica, pois o boi, que constitui a montaria (vahana) de Shiva, é interpretado também como o próprio Shiva, em uma manifestação zoomórfica.

A explicação para o segundo desmembramento da palavra Dakshinamurti é que o Divino é “Hábil” (na remoção da ignorância) e “Sem Forma” (porque transcende todas as formas).

O Dakshinamurti Stotram foi composto em sânscrito por Shankaracharya. Para recriá-lo em português, comparei três traduções em língua inglesa: duas, bastante eruditas, diretas do sânscrito; e a terceira a partir da famosa versão em tâmil escrita por Sri Ramana Maharshi.

A escolha não foi fácil, porque, apesar de utilizarem as mesmas imagens poéticas, e, em algumas passagens, até as mesmas palavras, essas traduções divergem em vários aspectos. De modo que o mesmo verso adquire, às vezes, conotações completamente diferentes em um texto ou no outro.

Procurei me guiar pelo que sei da filosofia advaita e também pela intuição. Depois, passei tudo por uma peneira formal de malha fina, para chegar a uma solução rigorosamente homogênea em português.

Assim, na “Parte 1”, que constitui o poema propriamente dito, estruturei as 10 estrofes que compõem o hino (strotam) em quartetos. Neles, como regra geral, os dois primeiros versos expõem os grandes desafios da existência e da consciência, na perspectiva advaitim; o terceiro descreve como, em cada situação, o Divino dissipa as trevas da ilusão e conduz o homem à luz do conhecimento; e o quarto, que se repete em todas as estrofes como um bordão, louva esse mesmo Divino, que se manifesta na forma do Guru.

A “Parte 2” não pertence ao poema original. Constitui-se de slokas (sentenças versificadas) que, por meio de imagens vívidas, destinam-se a estimular a visualização e propiciar a meditação. Apesar de consagrada pelo tempo e indubitavelmente vinculada à tradição de Shankaracharya, acredita-se que não tenha sido composta pelo filósofo, mas pela posteridade.

O autor (ou autores) desses slokas recorreu às narrativas purânicas acerca de Shiva e Skanda-Murugan (o filho mitológico de Shiva, que é o próprio Shiva em uma forma juvenil) para compor a imagem de um Guru jovem, sentado debaixo de uma grande árvore (o banyan ou figueira brava), e circundado por discípulos sábios e idosos.

Mas essa bela cena adquire novas e notáveis conotações à luz da informação (veiculada pela primeira vez por Paramahansa Yogananda, em sua famosa Autobiografia de um iogue) de que Shankaracharya foi, secretamente, discípulo de Babaji. A imagem corresponde, nos mínimos detalhes, a várias descrições do incomparável mestre. Por meio dela, fica fácil entender a devoção com que o grande filósofo louva o Senhor Dakshinamurti, que se mostrou aos seus olhos na forma de seu próprio Guru.

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Tripurasundari Ashtakam

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I

Eu busco refúgio em Tripurasundari [1], a esposa daquele que tem três olhos[2],

Que vaga pela floresta de Kadamba[3] e refresca como miríades de nuvens a legião dos sábios,

Cujas nádegas são mais altas do que as montanhas e que é servida pelas donzelas celestiais,

Cujos olhos são como lótus recém-abertos e que é escura como nuvens recém-formadas.

*

II

Eu busco refúgio em Tripurasundari, a esposa daquele que tem três olhos,

Que vive na floresta de Kadamba, segurando em sua mão a vina dourada,

Adornada com um colar de pedras preciosas e exibindo no rosto o prazer que vem do néctar,

Que concede a misericórdia e a glória, a Deusa de olhos radiantes.

*

III

Por ela, cuja casa é a floresta de Kadamba e que ostenta esplêndida guirlanda sobre o peito,

Cujos seios são firmes como montanhas e que brilha no bosque pela graça de Shankara,

Cujas faces são rubras de embriaguez e que é a morada da doce fala e da doce canção,

Por uma mulher tão intensamente azul, como em um jogo, somos todos protegidos.

*

IV

Eu busco refúgio em Tripurasundari, a esposa daquele que tem três olhos,

Que habita o coração da floresta de Kadamba e está sempre próxima à mandala dourada,

Que vive em cada um dos seis lótus[4] e se manifesta aos siddhas[5] como um jato de luz,

Cuja cor é imitada pelo hibisco e que tem a fronte enfeitada pela lua.

*

V

Em ti, que entre os seios abrigas a adorável vina e és adornada por cabelos cacheados,

Que resides no coração do lótus e és inimiga dos que têm o intelecto astucioso,

Cujos olhos são rubros de intoxicação e que enamorastes até o inimigo do Cupido,

Que és filha do sábio Matanga[6], nesta doce fala, Tripurasundari, eu busco refúgio.

*

VI

Nela, que carrega a primeira flor do desejo e veste um traje azul, de sangue pontilhado,

Que segura em sua mão uma taça de mel e revira os olhos, inebriados de intoxicação,

Medite nela, a bela senhora das três cidades, cujo coração se eleva sobre firmes seios,

A negra, de cabelos soltos, a esposa daquele que tem três olhos. Nela, eu busco refúgio.

*

VII

Ela, que se maquia com cúrcuma e cujos cachos são untados com almíscar,

Que exibe um sorriso suave, enquanto segura o arco, o laço e o aguilhão,

Cuja roupa é decorada com flores vermelhas e que a todos deixa enamorados,

Que brilha entre uma guirlanda de hibiscos, nesta Mãe, eu medito, antes de recitar o mantra.

*

VIII

Eu reverencio a Suprema Mãe do Universo, a esposa daquele que tem três olhos,

Que é servida e coberta de jóias pelas donzelas celestiais,

E cujos cabelos são penteados por Lakshimi e Sarasvati[7],

A devotada esposa do Senhor Shankara, a Suprema Mãe do Universo eu reverencio.

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Notas explicativas

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[1] Tripurasundari, a Senhora das Três Cidades, é um dos mais belos nomes da Grande Deusa, que é o aspecto feminino da Divindade Única. Alude à sua condição de Senhora dos Três Reinos (Bhuloka, o reino terrestre; Antarloka, o reino espiritual; e Shivaloka, o reino celestial), Senhora das Três Shaktis ou Poderes (Jnana, a sabedoria; Iccha, a vontade; e Kriya, a ação), Senhora dos Três Gunas ou Forças (Tamas, a imobilidade; Rajas, o movimento; e Sattva, a sublimação) e Senhora dos Três Nadis ou Canais de Energia (Ida, o canal lunar; Píngala, o canal solar; e Sushumna, o canal central). E também à sua natureza tríplice de Jovem, Mãe e Anciã. Ashtakam significa poema em oito estrofes.

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[2] “Aquele que tem três olhos” é Shiva, cujo “terceiro olho” é um símbolo da visão transcendental, capaz de ultrapassar o mundo ilusório da dualidade e alcançar a Unidade Absoluta. O poema também se refere a Shiva como Shankara, o “Pacificador”.

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[3] Kadamba, a floresta mitológica de um milhão de árvores, é uma metáfora do universo.

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[4] Os seis lótus são os seis chacras (centros de energia vital) principais, situados ao longo do Sushumna (o canal central de energia vital, que se estende da base da coluna vertebral ao topo da cabeça). Simbolicamente, representam as seis moradas da Shakti, o Princípio Feminino. O sétimo chacra principal, o Sahasrara, situado no topo de cabeça, é a morada de Shiva, o Princípio Masculino.

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[5] Siddhas são os iogues perfeitos, que alcançaram o mais elevado estágio de auto-realização.

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[6] Mencionado no Ramayana e no Mahabharata, os maiores textos da literatura indiana, Matanga era considerado um pária, por ter nascido da união sexual entre uma mulher e um homem de castas diferentes. Humilhado pelos brâmanes (indivíduos da casta sacerdotal), dedicou-se por milhares de anos a disciplinas iogues até alcançar o status de grande rishi (sábio). Uma das numerosas formas assumidas pela Deusa é a de Matangi, a filha de Matanga. Representada como uma bela adolescente de pele escura, pertencente à casta mais baixa, intensamente sensual e reinando sobre o mundo da impureza e da poluição, Matangi é a própria negação dos tabus e preconceitos incorporados à religiosidade convencional. É tida como a inspiradora dos poetas realmente criativos e a condutora daqueles que buscam o conhecimento esotérico.

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[7] Lakshimi e Sarasvati são importantes deusas do panteão indiano. A primeira está associada à abundância, e a segunda, à sabedoria.

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