A Vitória da Luz

Murugan, o Filho Arquetípico, representado como Sanat Kumara (Eterno Adolescente)

Murugan, o Filho Arquetípico, representado como Sanat Kumara (Eterno Adolescente)

A vitória da Luz sobre as Trevas é celebrada, especialmente entre a população tâmil do Sul da Índia e do Sri Lanka, no festival de Karttikai Dipam. A festa comemora o triunfo de Murugan, o filho mitológico de Shiva, comandante do exército dos Devas (Deuses), sobre  Surapadman, comandante do exército dos Asuras (Demônios).

Ocorre na Lua Cheia do mês de Karttikai, o oitavo do calendário sideral tâmil, que se estende de meados de novembro a meados de dezembro. O mês relaciona-se com as Plêiades. E, no Karttikai Dipam, a Lua Cheia encontra-se em conjunção astronômica com essa constelação.

No Brasil, em 2016, tal evento acontece no dia 13 de dezembro, precisamente às 21h05, quando a área do disco lunar iluminada pelo Sol alcança 100% (conforme dados do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo — IAG-USP).

As Plêiades são um aglomerado estelar constituído por mais de mil estrelas, relativamente jovens (com idades estimadas entre 75 milhões e 150 milhões de anos) e relativamente próximas da Terra (a apenas 118 parsecs ou 384,9 anos-luz).

Desse milhar de estrelas, seis são facilmente visíveis a olho nu. E uma sétima pode ser vista ou não, dependendo das condições atmosféricas e da acuidade visual do observador (segundo seus antigos biógrafos, o profeta Muhammad, famoso por sua visão excepcional, era capaz de enxergar até 12 estrelas na constelação das Plêiades).

Todos os povos da Antiguidade interessaram-se pela Plêiades. Os gregos atribuíram personalidades e nomes às sete estrelas visíveis: Electra, Maia, Taigete, Alcíone, Celeno, Asterope e Mérope. Na Índia, elas foram chamadas de Krittikas, termo do qual deriva a palavra Karttikai. Eram, originalmente, esposas dos sete Rishis (Saptarishi), os grandes clarividentes e clariaudientes do passado remoto.

As seis Krittikas facilmente visíveis foram associadas aos seis chakras situados abaixo do topo da cabeça (Muladhara, Swadhisthana, Manipura, Anahata, Vishuddha e Ajna). E a sétima, ao chakra Sahasrara, situado acima do topo da cabeça. As seis primeiras desempenharam importante papel do mito de Murugan.

Diz o relato purânico que, após o casamento de Shiva e Párvati, o Grande Deus e a Grande Deusa engajaram-se em um prolongado rito sexual, que se estendeu por mil anos celestes. Como supremo iogue, Shiva participou desse interminável jogo amoroso sem emitir o sêmen. Nesse ínterim, os Asuras (que correspondem aos Titãs da mitologia grega e aos Demônios das mitologias judaica, cristã e islâmica), tendo praticado intensamente várias austeridades ióguicas (tapas), adquiriram poderes excepcionais, e ameaçavam estabelecer o Império das Trevas sobre todo o Cosmo.

Impotentes diante da força dos Asuras, os Devas (que correspondem aos Deuses da mitologia grega e aos grandes anjos das mitologias judaica, cristã e islâmica) foram bater à porta de Shiva em busca de ajuda. O Grande Deus acorreu ao chamado e, distraído pelo apelo dos Devas, perdeu a concentração, e acabou emitindo o sêmen.

Esse líquido prodigioso, impregnado de poder (Shakti), era semelhante a um ouro líquido incandescente. Ninguém conseguia se aproximar dele. Mas também ninguém queria que ele se perdesse. Finalmente, Agni, o Deus do Fogo, assumiu a forma de um pássaro, e, com o bico, recolheu, o precioso material, que depositou entre os caniços do pântano. Dele nasceu Murugan.

Murugan é filho exclusivamente do Deus, sem a participação do Princípio Feminino. Seu meio-irmão mais velho, Ganesha, é filho exclusivamente da Deusa, sem a participação do Princípio Masculino. Do ponto de vista místico-filosófico, ambos constituem polarizações do Filho Arquetípico, o Cristo Metacósmico: Ganesha voltado ao exterior e às atividades exotéricas (daí ser considerado o inventor da escrita); Murugan voltado ao interior e às atividades esotéricas (daí ser considerado o supremo psicopompo, iniciador nos mistérios e o mestre dos iogues perfeitos).

Como Jesus, nascido na manjedoura dos animais, Murugan nasceu no lugar mais humilde, entre os caniços do pântano, em meio à densa materialidade.

Dotado de excepcional beleza, o recém-nascido atraiu a atenção das seis Plêiades facilmente visíveis, que disputavam entre si o privilégio de amamentá-lo. Para que todas tivessem tal oportunidade, Murugan projetou seis rostos.

O Seis é o número do Filho. Pois às Cinco Atividades do Pai (Criação, Preservação e Destruição do Cosmo, e Obscurecimento e Esclarecimento da Consciência), acrescenta uma Sexta: a de “Olhar para Baixo”. Isto é, a de se compadecer pelo sofrimento humano e vir a este mundo como Salvador.

Por ter sido amamentado pelas Krittikas, Muragan é também chamado de Karttikeya, que significa “Aquele das Plêiades”. E esse nome dá muito o que pensar.

Depois de crescido, recebeu da Deusa uma lança infalível, que sintetiza todos os poderes da Shakti. Essa arma, chamada de Shakti Vêl, é um símbolo óbvio do nadi Sushumna, o canal de energia central, que conecta os seis Chakras principais situados abaixo do topo de cabeça, e continua subindo, para alcançar o sétimo Chakra e a transcendência.

Com sua lança, e combatendo em suas seis cidadelas, Murugan comandou o exército dos Devas na guerra cósmica contra os Asuras. Venceu e repartiu ao meio Surapadman, o chefe adversário. Com cada metade produziu um de seus dois animais tutelares: o Galo, símbolo do Som Primordial (Paranada); e o Pavão, símbolo da Forma Primordial (Parabindu).

O Karttikai Dipam celebra exatamente a vitória de Murugan sobre Surapadman; dos Devas sobre os Asuras; da Luz sobre as Trevas.

Assim como seu meio-irmão Ganesha, Murugan está associado a duas consortes mitológicas. Devasena (literalmente, “Exército dos Deuses”) é sua esposa celestial. Valli (literalmente, “Inhame”) é sua esposa terrena. Os grandes deuses do panteão indiano são realidades espirituais puras e, obviamente, não podem ser classificados por gênero: masculino ou feminino. No caso dos deuses representados como masculinos, as esposas devem ser entendidas como personificações de sua Shakti, ou poder realizador. Ter uma “esposa” no Céu é estar ancorado no plano dévico. Ter uma “esposa” na Terra é estar ancorado no plano humano. E este é bem o significado do Arquétipo de Murugan, como elo de ligação e interação entre o Céu e a Terra.

Como se percebe, apesar de seu sabor folclórico, o relato purânico admite vários níveis de interpretação: psicológico, simbólico, alquímico, místico-filosófico etc. O assunto é fascinante e perpassado pelo mistério. Para os interessados em ir um pouco mais fundo, recomendo a leitura de meu artigo “O Filho Arquetípico e seu poder medicinal”, postado neste blog, em https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/03/06/o-filho-arquetipico-e-seu-poder-medicinal/

Seguem 12 dos 1008 nomes de Murugan. Selecionei aqueles de que mais gosto. O significado de cada nome é facilmente compreensível a partir do relato mitológico:

  • Skanda: Jato de Esperma
  • Sharadhajanma: Nascido entre os Caniços do Pântano
  • Karttikeya: Aquele das Plêiades
  • Shanmukha: Seis Rostos
  • Murugan: Tenro
  • Sanat Kumara: Eterno Adolescente
  • Ceyon: Vermelho [há uma conexão entre Murugan e o planeta Marte]
  • Mahasena: Comandante Supremo
  • Siddha Senapati: Comandante dos Iogues Perfeitos
  • Guha: Misterioso
  • Jñana Pandita: Expositor da Sabedoria
  • Kali Yuga Varada: Protetor dos que Buscam Sinceramente a sua Graça na Era dos Conflitos

Diz a tradição que meu Satguru Bábaji Nagaraj nasceu no Karttikai Dipam de 203 d.C., no exato momento em que o Nakshatra de Rohini (*) ascendia no firmamento. Naquele ano, esse evento astrológico ocorreu no dia que, no calendário gregoriano, seria computado como 30 de novembro. Por isso, o aniversário de Bábaji é, muitas vezes, comemorado em 30 de novembro. Mas, se considerarmos o alto significado espiritual do Karttikai Dipam, e também o papel transcendental de Bábaji como personificação e atualização dos atributos do Filho Arquetípico, mais motivos ainda teremos para celebrar, em 2016, esse evento auspicioso em 13 de dezembro.

Neste momento, em que tantas dificuldades assombram o planeta, comemoremos o aniversário de Bábaji como a vitória da Luz.

Sobre o Satguru, leia, neste blog, o artigo “Bábaji, o grande avatar de nossa era”, em

https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/02/16/babaji-o-grande-avatar-de-nossa-era/

Nota

(*) Nakshatra, ou Casa Lunar, é cada um dos 28 segmentos nos quais a astrologia védica divide a eclíptica. Cada Nakshatra recebe o nome da estrela mais proeminente existente no respectivo setor. Rohini é o nome indiano da estrela Aldebarã. Não por mera casualidade, Rohini é também a estrela associada a Krishna.

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Este marco, que reproduz, tridimensionalmente, o Yantra (Diagrama Místico) de Babaji, assinala o local exato onde o Grande Avatar nasceu, em 30 de novembro de 203 d.C.

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