Sri Aurobindo

Sri Aurobindo Ghose (1872-1950): um autor indispensável para o entendimento do mundo atual

Sri Aurobindo: um pensador fundamental para nossa época

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“Há dois poderes que, unicamente eles, podem realizar, em conjunção, a grande e difícil tarefa que é o objetivo de nosso esforço: uma aspiração firmemente estabelecida e incansável que chama de baixo e uma graça suprema que responde do alto”

(Sri Aurobindo Ghose, 1872 – 1950)

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A humanidade encontra-se diante de uma escolha radical: superar a si mesma, protagonizando um salto espetacular no processo evolutivo; ou resistir à transformação, com o risco de levar o planeta à catástrofe. O pensamento de Sri Aurobindo é a filosofia por excelência para esta época. E pode nos ajudar a enfrentar o desafio.

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Combinando enorme erudição e inspiração genuína e um perfeito domínio tanto da moderna cultura ocidental quanto das antigas tradições espirituais indianas, Aurobindo escreveu uma obra que o consagrou como um dos maiores mestres da atualidade.

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Terceiro salto evolutivo

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Segundo Aurobindo, nosso planeta já passou por dois grandes saltos evolutivos.

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O primeiro foi a transição da matéria não viva para a matéria viva. Para avaliar sua importância, basta imaginar um cenário puramente mineral, formado por rochas, areia e água. E compará-lo com a paisagem terrestre real, coberta de vegetação e povoada por animais de toda espécie.

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O segundo foi a transição da matéria viva para a matéria mentalizada. E, neste caso, deve-se considerar a paisagem terrestre ocupada por cidades, redes de comunicação e tudo aquilo que é produto da mente humana.

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De acordo com o filósofo, assim como a matéria não viva evoluiu ao ponto de poder acolher a “descida” do vital (prana) e ser impregnada e transformada por ele, e assim como a matéria viva evoluiu ao ponto de poder acolher a “descida” do mental (manas) e ser impregnada e transformada por ele, também a matéria mentalizada, que é o próprio ente humano, estaria agora pronta para manifestar dois estágio de consciência ainda mais elevados, que chamou de “sobremental” e de “supramental”, correspondentes à “descida” e “ancoragem” de duas instâncias superiores: vijnana e ananda.

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Em 15 de agosto de 1925, no dia de seu 53o aniversário, Aurobindo declarou a seus discípulos que as condições para o terceiro salto estavam completamente maduras. Mas que havia, no seio da humanidade, uma enorme resistência à mudança. “Quanto mais a Luz e o Poder se derramam sobre nós, maior a resistência. Vocês mesmos podem perceber que há algo pressionando para baixo. E que há uma tremenda resistência”, afirmou.

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Sabemos o que aconteceu depois. A resistência foi forte demais. O salto evolutivo não pôde ocorrer. E o enorme potencial acumulado foi desviado para o maior conflito bélico da história, a Segunda Guerra Mundial, com dezenas de milhões de mortes e uma incalculável destruição de recursos materiais e intelectuais.

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Para Aurobindo, a revolução supramental não era um projeto para o futuro distante. Mas um processo que já estava em andamento e cujo desfecho ele considerava iminente. Desse ponto de vista, a atual crise planetária, com todos os seus desdobramentos (ambiental, econômico, social, político, cultural etc.), decorre do fato de essa transição não ter ainda se completado. E, por outro lado, é a própria condição para que tal complementação ocorra.

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Os fatores em jogo parecem agora muito mais favoráveis do que eram na década de 1920. Porém o sucesso desse gigantesco empreendimento coletivo depende do esforço individual de cada um. Esforço no sentido de fazer avançar a própria consciência; de pautar pela consciência os pensamentos, as palavras e as ações; e de chamar os outros para compor a massa crítica necessária.

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Nessa perspectiva, todas as dificuldades que enfrentamos ou venhamos a enfrentar precisam ser relativizadas. Pois, tão dolorosas quanto possam ser, oferecem a promessa de um final feliz, equivalendo, em escala planetária, à luta titânica do bebê para emergir da penumbra intrauterina na clara luz do dia.

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Talentos excepcionais

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Sri Aurobindo nasceu em Kolkata (Calcutá), Índia, no dia 15 de agosto de 1872. E morreu em Puducherry (Pondicherry), então um território francês encravado no estado indiano do Tamil Nadu, no dia 5 de dezembro de 1950, aos 78 anos de idade. Exatamente 75 anos depois da data de seu nascimento, no dia 15 de agosto de 1947, a Índia conquistou sua independência do domínio colonial britânico. Para Aurobindo, essa coincidência de dia e mês não era um dado fortuito.

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Sua mãe, Swarnalata Devi, famosa pela beleza, era chamada de “A Rosa de Rangpur”. Seu pai, Krishna Dhun Ghose, médico e generoso além do limite de suas posses, era um homem de pensamento e comportamento peculiares. Como outros intelectuais indianos do período, sentia um profundo desgosto pela condição de seu país, sob o jugo de uma potência estrangeira. Mas sua proposta para essa situação deprimente era que a Índia copiasse, nos mínimos detalhes, o modo de vida britânico. Sua anglofilia foi ao ponto de acrescentar ao primeiro nome do filho um segundo nome inglês, Ackroyd, pelo simples fato de que, no momento em que este nasceu, uma lady inglesa, Miss Annette Ackroyd, estava presente. Assim, Aurobindo foi registrado como Aurobindo Ackroyd Ghose.

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Dando sequência a seu bizarro projeto anglófilo, o doutor Krishna enviou os três filhos mais velhos, Benoy, Manmohan e Aurobindo, para estudar na Inglaterra. Aurobindo, o menor dos três, tinha na época apenas sete anos de idade. Ficou longe do país e da família até os 21.

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Além dos irmãos mais velhos, ele teve também uma irmã e um irmão mais novos: Sarojini e Barindranath. Manmohan, que na Inglaterra se tornaria poeta e passaria a frequentar o círculo artístico centralizado por Oscar Wilde, viria a ser mais tarde um nome proeminente da moderna literatura indiana. Barindranath, apelidado Barin, tornou-se jornalista e revolucionário.

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Benoy, Manmohan e Aurobindo foram viver em Manchester, sob a tutela do reverendo William Drewett e esposa, com a estrita orientação paterna de que não tivessem nenhum contato com a cultura indiana. Aurobindo foi educação inicialmente por seu tutor. Mais tarde, aos 12 anos, mudou-se para a casa da irmã do reverendo, em Londres, para cursar a St. Paul’s School. Sua inteligência era notável e seu talento para línguas e literatura, excepcional. Além do inglês, aprendeu francês, alemão, grego e latim, e parece que sabia também alguma coisa de espanhol e russo. Lia Shakespeare, Shelley e Keats, entre outros autores. E, a despeito de todas as tentativas feitas pela irmã do reverendo para convertê-lo ao cristianismo, ele se definia, na puberdade, como agnóstico.

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Falido, o pai suspendeu a mesada dos filhos quando Aurobindo estava com 15 anos. Tendo o reverendo Drewett mudado para a Austrália, os três rapazes, desprovidos de dinheiro, foram morar de favor em um sótão sem aquecimento, situado acima do South Kensington Liberal Club. A penúria era tanta que os três possuíam um único sobretudo. Assim, durante o inverno, quando um saía, os outros dois precisavam ficar em casa. Apesar dessa condição adversa, a inteligência de Aurobindo continuava florescendo. Ganhou prêmios de literatura e história. E, aos 18 anos, por recomendação do historiador e escritor Oscar Browning, um famoso entusiasta da reforma educacional, recebeu uma bolsa para o King’s College, da Universidade de Cambridge.

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Em Cambridge, aconteceu exatamente aquilo que o doutor Krishna temia. O jovem Aurobindo fez contato com colegas indianos e teve informações sobre a Índia. Em consequência, aderiu à sociedade secreta “Lotus and Dagger” (Lótus e Punhal), que desenvolvia atividades subversivas contra o poder colonial.

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Lembremos que tudo isso ocorreu durante a era vitoriana, caracterizada por um dos reinados mais longos da história, que se estendeu por mais de 63 anos, desde que a rainha Vitória ascendeu ao trono, em 20 de junho de 1837, até sua morte, em a 22 de janeiro de 1901. Foi o período emblemático do colonialismo britânico.

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Para atender à expectativa do pai, Aurobindo inscreveu-se para admissão no Indian Civil Service (ICS), encarregado da administração colonial. Participar dessa instituição, antecessora do enorme aparato burocrático que até hoje constitui uma das marcas registradas da Índia, era o emprego dos sonhos de todos os jovens da classe alta. Aurobindo obteve excelente classificação nas provas teóricas, mas, deliberadamente, sabotou o exame, não comparecendo à prova prática de equitação. Com sua atividade subversiva já conhecida pelas autoridades britânicas, isso deu aos examinadores um pretexto para reprová-lo.

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Nessa mesma época, em Londres, Aurobindo conheceu o marajá de Baroda, Sayajirao Gaekwad III, que visitava a capital do Império. Encantado com os talentos do jovem, o marajá ofereceu-lhe emprego em seu principado. Mais tarde, Gaekwad iria se gabar de haver contratado um homem do ICS por apenas 200 rúpias mensais.

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Em 1893, aos 21 anos, Aurobindo regressou finalmente à Índia com os irmãos. Na mesma época, um navio naufragou na costa de Portugal. Mal informado, o pai supôs que o navio naufragado fosse aquele em que viajavam os filhos. Impactado pela falsa notícia, teve um colapso e morreu. Assim, ao chegar ao seu país natal, Aurobindo viu-se órfão de pai e com a mãe irreversivelmente mergulhada na esquizofrenia. Antes disso, porém, quando da amurada do navio avistou o território indiano, teve sua primeira experiência espiritual, com a descida sobre ele de uma vasta calma e paz.

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Atividade revolucionária

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Em Baroda, Aurobindo tornou-se secretário particular e ghost-writer do Marajá, e também professor de francês e depois vice-reitor do Baroda College. Secretamente, participava do movimento revolucionário pela independência. Mergulhou de corpo e alma na cultura indiana. Com sua incrível capacidade para línguas, em pouco tempo, aprendeu sânscrito, hindi, bengali e marathi, Parece que, mais tarde, aprendeu também gujarati e tâmil. Agora, além de Homero, Horácio e Dante, lia também o Ramayana, o Mahabharata, os Vedas, as Upanishads, a poesia clássica de Kalidasa (séc. V d.C.) e a poesia moderna de Bankim Chandra Chattopadhyay (1838 – 1894), entre outros.

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Em 1901, casou-se com Mrinalini Devi. Moraram juntos por um ano, mas, depois, devido aos envolvimentos políticos e espirituais dele, passaram a viver separados, comunicando-se por cartas. Dezessete mais tarde, em dezembro de 1918, Mrinalini recebeu uma correspondência dele, dizendo que havia obtido os siddhis (poderes iogues) e agora poderiam voltar a ficar juntos para sempre. Mas não era esse o decreto do Destino. Na mesma época, ela contraiu malária e morreu, enquanto se preparava para encontrá-lo em Puducherry (Pondicherry).

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Muito antes disso, porém, Aurobindo teve outra experiência espiritual, quando, ao visitar um templo de Kali, viu a imagem da deidade como uma deusa viva. Nessa época, para aumentar sua acuidade mental e capacidade de ação, começou a praticar pranayama, a respiração iogue.

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Com sua vibrante intelectualidade, Bengala, o estado natal de Aurobindo, era o epicentro da atividade revolucionária. A decisão de Lord Curzon, vice-rei britânico da Índia, de dividir o território de Bengala acirrou a agitação. Sem revelar ao marajá suas reais intenções, Aurobindo obteve um ano de licença não remunerada, e juntou-se ao movimento. Trocou o Baroda College pelo Bengal National College, com um quinto do salário anterior: apenas 150 rúpias mensais

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Em 1906, tornou-se o editor secreto do semanário Bande Mataram, que, sob o lema de Swaraj (Independência Completa), transformou-se no órgão do movimento revolucionário  [sobre o poema “Bande Mataram”, que inspirou a criação do semanário, leia o post https://josetadeuarantes.wordpress.com/2014/02/01/bande-mataram/].

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Toda a oposição ao colonialismo britânico se concentrava no Congresso Nacional Indiano. Junto com Bal Gangadhar Tilak, Aurobindo liderou a ala esquerda da agremiação na cisão histórica de 1907, quando os radicais se separaram dos moderados.

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Para intensificar sua atividade revolucionária, Aurobindo revolveu dedicar-se mais profundamente ao Yoga. “Eu aprendi que Yoga dá poder. E pensei: por que não obter esse poder e usá-lo para libertar meu país? ”, ele diria mais tarde. Com esse intuito, pediu iniciação ao iogue Vishnu Bhaskar Lele. Instruído por Lele em uma técnica introdutória, com apenas três dias de prática, alcançou a “Silenciosa Consciência de Brahman”, um estágio que iogues avançados levam décadas para obter.

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Ancorado na Consciência Silenciosa, ele discursou em encontro nacional do movimento revolucionário. Nessa época, começou a receber também instruções de uma Voz Interior.

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Em 1908, foi cometido um atentado a bomba contra o juiz Kingsford, famoso pela crueldade de suas sentenças. Como já ocorreu em muitos outros atos terroristas, o juiz visado escapou, mas duas senhoras inglesas inocentes, que não tinham nada a ver com história, morreram na explosão. Barin, o irmão mais novo de Aurobindo, participou da ação. E o próprio Aurobindo, embora não estivesse envolvido, foi acusado de ser o mentor.

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As autoridades britânicas montaram uma enorme operação policial de caça aos suspeitos. No processo judicial, que se tornou histórico, a promotoria apresentou cinco mil provas materiais (bombas, revólveres, ácido, panfletos etc.) contra 36 réus. Barin e Ullaskar Dutt foram condenados à morte. Aurobindo foi encarcerado, em cela solitária, na Prisão de Alipore, em Kolkata (Calcutá). Mais tarde, a sentença de morte contra Barin e Ullaskar foi comutada para prisão perpétua, e ambos receberam anistia em 1920. Aurobindo foi liberado após um ano de prisão, por falta de provas.

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Durante o julgamento e na Prisão de Alipore, Aurobindo teve experiências espirituais decisivas: primeiro, o encontro com o “espírito” de Vivekananada; depois, a percepção do Divino Imanente, na forma de Krishna, que se apresentou em tudo e em todos.

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A conexão com Ramakrishna e Vivekananda

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Sri Aurobindo jamais encontrou Sri Ramakrishna Paramahamsa (1836 – 1886) no plano físico, pois este morreu quando ele ainda era um adolescente na Inglaterra. Mas recebeu três mensagens dele por meios ocultos. A primeira ocorreu em Baroda, quando Aurobindo era o secretário particular do marajá. “Arabindo, mandir karo, mandir karo” (Aurobindo, construa um templo, construa um templo), disse-lhe Ramakrishna.

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Posteriormente, em suas conversações informais com os discípulos, Aurobindo afirmou que foi esse primeiro contato oculto com Ramakrishna que o encaminhou ao Yoga: “Barin naquela época estava tentando a escrita automática (…). Em outra ocasião, um espírito, dizendo ser o de Ramakrishna, veio e simplesmente disse ‘construa um templo’. Naquele tempo, estávamos planejando construir um templo para os sannyasis políticos e o chamamos de Bhavani Mandir. Pensamos que ele se referia a isso, porém, mais tarde, eu entendi como ‘construa um templo interior’. Isso deu-me o empurrão final para o Yoga. Pensei: grandes homens não podem estar correndo atrás de uma quimera, e, se existe esse poder sobre-humano, por que não utilizá-lo para a ação? ”

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A segunda mensagem de Ramakrishna foi transmitida pouco depois da chegada de Aurobindo a Puducherry (Pondicherry). As palavras não ficaram registradas, mas a orientação era para que ele construísse o “Eu Superior” no “Eu Inferior”, acrescida da promessa de Ramakrishna de que se comunicaria mais uma vez quando a Sadhana (período de formação iogue) estivesse próxima do fim.

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A terceira mensagem foi transmitida em 18 de outubro de 1912: “Faça completa sannyasa (renúncia) do karma. Faça completa sannyasa do pensamento. Faça completa sannyasa do sentimento. Esta é minha última declaração”.

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Devido a esses três episódios ocultos, Aurobindo sempre afirmou que seu caminho espiritual era uma continuação do caminho de Ramakrishna. Outro motivo para isso foi o fato de ele ter sido visitado e instruído, na Prisão de Alipore, pelo espírito de Vivekananda, o principal discípulo de Ramakrishna.

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O contato oculto com Vivekananda foi mencionado várias vezes nas conversações de Aurobindo com seus discípulos. Em uma dessas ocasiões, Aurobindo disse: “Vivekananda veio e deu-me o conhecimento da Mentalidade Intuitiva. Eu não tinha a menor ideia acerca disso naquele tempo. Ele também não tinha quando estava no corpo. Ele me deu um conhecimento detalhado, ilustrando cada ponto”.

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Outro registro das conversações, datado de 1926, apresenta a seguinte frase de Aurobindo: “Então ocorreu o incidente de a personalidade de Vivekananda visitar-me na cadeia. Ele explicou-me em detalhes o trabalho do Supramental – não exatamente do Supramental, mas da Mente Intuitiva, a mente tal como é organizada pelo Supramental. Ele não usou a palavra Supermente. Eu dei esse nome mais tarde. Essa experiência durou cerca de duas semanas”.

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Nessa conversação, Nirodbaran, um dos discípulos de Aurobindo, perguntou: “Foi uma visão? ”.E o mestre respondeu: “Não. Não foi uma visão. Eu não teria acreditado em uma visão”.

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Em outro registro, de 1939, Aurobindo afirmou: “Eu não tinha ideia da Supermente quando comecei e por muito tempo isso não foi claro para mim. Foi o espírito de Vivekananda que primeiro me deu uma pista em direção à Supermente. Essa pista me fez ver como a Consciência da Verdade trabalha em tudo”.

— “Ele sabia acerca da Supermente? ”, perguntou Nirodbaran.

— “Ele não disse ‘Supermente’”, respondeu Aurobindo. “‘Supermente’ é minha própria palavra. Ele apenas disse para mim: ‘isso é isso, aquilo é aquilo’ e assim por diante. Era assim que ele procedia, apontando e indicando. Ele visitou-me por 15 dias na Cadeia de Alipore, e, até que eu pudesse agarrar a coisa toda, ele veio, ensinando-me e imprimindo em minha mente o trabalho da Consciência Superior, a Consciência da Verdade em geral, que conduz à Supermente. Ele não me deixou até que tivesse colocado tudo isso na minha cabeça”.

— “Os gurus podem vir dessa maneira e dar ensinamentos? ”, perguntou Nirodbaran.

— “Porque não? Essa é uma experiência tradicional dos tempos antigos. Muitos gurus dão iniciações após suas mortes (…). Mas eu tive outra experiência direta da presença de Vivekanada quando estava praticando Hatha Yoga. Eu senti sua presença em pé, atrás de mim, me olhando. Isso exerceu posteriormente uma grande influência em minha vida”.

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O contato com Vivekananda e a visão ubíqua de Krishna transformaram profundamente Aurobindo. Anos mais tarde, ele diria: “Eu falei de um ano de prisão. Seria mais apropriado falar de um ano vivendo na floresta, em um ashram, em um eremitério. O único resultado da ira do Governo Britânico foi que eu encontrei Deus”.

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Refúgio em Puducherry (Pondicherry)

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Depois de libertado, Aurobindo começou a editar duas novas publicações: Karmayogin, em inglês, e Dharma, em bengali. Passou a atribuir também um novo significado à luta pela independência, reconhecendo o papel espiritual da Índia em escala planetária.

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Com base em um artigo publicado em Karmayogin, “To my Countrymen”, as autoridades britânicas decidiram prendê-lo novamente. Informado do plano, Aurobindo recebeu um Adesh (Comando Divino), ordenando que fugisse para Chandernagore, então um enclave francês. Lá chegando, outro Adesh mandou-o refugiar-se em Puducherry (Pondicherry).

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Ele entendeu que a Índia já havia despertado e que a independência se tornara inevitável. Entendeu também que sua própria missão deixara de ser política, para se tornar espiritual. Chegou em Puducherry (Pondicherry) em 4 de abril de 1910, aos 38 anos, sendo recebido por patriotas. Jamais deixou a cidade.

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Anos antes, um homem espiritual havia profetizado que viria a Puducherry (Pondicherry) um “iogue do norte”, que praticaria o Yoga Integral (Purna Yoga), e seria reconhecido por três afirmações. Yoga Integral é o nome do sistema desenvolvido por Sri Aurobindo. Quanto às três afirmações, há várias interpretações. Para mim, elas se relacionam com as três palavras que sintetizam o Yoga Integral aurobindiano: Aspiração, Desapego e Entrega.

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Aurobindo viveu seus primeiros quatro anos de Puducherry (Pondicherry) com alguns poucos discípulos, em intensa prática espiritual, e grande penúria financeira. Nessa época, ele costumava dizer que sabia que, no final, Deus sempre provê. Mas que Deus resolvera brincar de prover cada vez mais tarde.

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A situação mudou radicalmente quando, no dia 29 de Março de 1914, na companhia de seu marido Paul Richard, chegou a Puducherry (Pondicherry) aquela que viria a ser a principal discípula de Sri Aurobindo: Mirra Alfassa, mais tarde cognominada “Mãe”. Francesa, filha de mãe egípcia e pai turco, Mirra nasceu em uma família riquíssima: seu pai era banqueiro. Com autênticos dons espirituais e artísticos, vivenciou, desde a tenra infância, numerosos estados não usuais de consciência, e, já adulta, frequentou, em Paris, um círculo que incluía vários artistas impressionistas.

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Há cerca de uma década, Mirra vinha sonhando com um indiano de pele escura, que ela considerava seu mestre e chamava de “Krishna”. Ao se encontrar na presença de Aurobindo, descobriu que ele era o “Krishna” de seus sonhos. Experimentou também um repentino e prolongado silêncio, durante o qual nenhum pensamento irrompeu em sua mente.

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Em 15 de agosto de 1914, dia do aniversário de Aurobindo e da futura independência da Índia, com o suporte financeiro de Mirra e Paul, o mensário Arya, escrito e editado por Aurobindo, foi oficialmente lançado. O periódico, publicado em inglês e francês, foi impresso com regularidade durante seis anos e meio. Os artigos publicados nele por Aurobindo comporiam, mais tarde, suas maiores obras: The Life Divine, The Syntesis of Yoga, On the Veda, The Upanishads, Essays on the Gita etc.

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Em 1915, devido à Primeira Guerra Mundial, Mirra voltou à França. Depois acompanhou o marido em uma estadia de negócios de quatro anos no Japão. Em 1920, regressou definitivamente a Puducherry (Pondicherry). Um ano mais tarde ela e Paul se divorciaram e Mirra passou a se dedicar inteiramente à causa espiritual de Sri Aurobindo.

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Por ser mulher e estrangeira, Mirra precisou enfrentar, nos primeiros tempos, a hostilidade silenciosa dos outros discípulos de Aurobindo. Mas, aos poucos, sua forte presença se impôs.

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No dia 24 de novembro de 1926, que ficou conhecido como “Dia do Siddhi”, a Consciência Sobremental, na forma de Krishna, desceu inteiramente sobre o corpo físico de Sri Aurobindo. Durante a meditação e o darshan (bênção proporcionada pela visão da forma do Guru) que se seguiram, os 24 discípulos presentes tiveram vários tipos de experiências espirituais.

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“Krishna não é a Luz Supramental”, explicou depois Aurobindo. “A descida de Krishna significa a descida da Divindade Sobremental, preparando, embora não sendo ela mesma, a descida da Supermente e de Ananda”.

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Em seguida, Aurobindo colocou Mirra, agora chamada de “Mãe”, à frente do Ashram e entrou em reclusão. Só saia de seu apartamento três vezes por ano, em 21 de fevereiro, dia do aniversário da “Mãe”; 15 de agosto, dia de seu aniversário; e 24 de novembro, aniversário do “Dia do Siddhi”. Nessas datas, junto com a “Mãe”, ele dava o darshan aos discípulos e visitantes.

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Sob a direção da Mãe, o Ashram cresceu enormemente. Considerando que ele mesmo poderia ser a porta para a descida da Consciência Supramental e sua ancoragem na Terra, Aurobindo dedicava seu tempo e energia a práticas iogues superavançadas. Mas não deixava de responder, por escrito, às perguntas dos discípulos. Com bom humor, comparou a “catarata de cartas”, recebidas e respondidas diariamente, à “praga de prasads (oferendas) e admiradores” que afluíam todos os dias a outro santo indiano de seu tempo, Sri Ramana Maharshi.

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Parte das cartas escritas por Aurobindo está agora editada em três volumes, sob o título Letters on Yoga. E constitui um excelente material introdutório para o estudo do pensamento aurobindiano.

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Esforço de guerra

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Em 24 de novembro de 1938, quando se preparava para o darshan do aniversário do “Dia do Siddhi”, Aurobindo tropeçou em um tapete de pele de tigre e fraturou o fêmur direito, pouco acima do joelho. O mundo se encaminhava rapidamente para a Segunda Guerra Mundial. E o clima político havia chegado a um estado de tensão máxima. Aurobindo interpretou o acidente como um “ataque das Forças Hostis”. E, sob orientação médica, permaneceu acamado durante oito semanas.

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No começo da guerra, ele apenas acompanhou os acontecimentos, com grande atenção. Mas, na iminência da Batalha Aérea da Inglaterra, declarou publicamente seu apoio aos aliados, deu dinheiro ao esforço bélico e, principalmente, engajou-se, no plano oculto, em uma guerra pessoal contra as Forças Assúricas (demoníacas) que, na sua opinião, sustentavam Hitler no poder e, batalha após batalha, vinham lhe dando uma vitória que parecia irresistível.

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Sua posição foi incompreendida e criticada pelo Congresso Indiano e mesmo por alguns discípulos, que, devido ao seu fervor antibritânico, estavam apoiando Hitler. Aurobindo e a “Mãe” procuraram explicar a esses equivocados que o que estava realmente em jogo não era o choque de dois blocos de potências imperialistas, mas um confronto de dimensões cósmicas entre a Luz e as Trevas. E que, se os nazistas ganhassem a guerra, o mundo sofreria um retrocesso sem precedentes em seu processo evolutivo.

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Em março de 1942, o governo britânico pediu a ajuda dos nacionalistas indianos para combater as forças japonesas, que estava às portas da Índia. Em troca, ofereceu um plano para a independência. Aurobindo saudou publicamente a oferta britânica. E enviou um emissário pessoal para persuadir o Congresso Indiano. Em sua opinião, além de combaterem o inimigo mais perigoso, os indianos teriam a possibilidade de obter, ao mesmo tempo, a independência e a unidade entre hindus e muçulmanos.

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Porém, sob a influência de Gandhi, o Congresso Indiano recusou a oferta britânica. Quando soube da recusa, Aurobindo disse: “Eu sabia que eles não iriam aceitar”. E a “Mãe” comentou: “Agora, a calamidade vai cair sobre a Índia”.

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Suas palavras foram proféticas. Quando, após o final da guerra, a Índia obteve finalmente sua independência, e, com pompa e circunstância, Lord Mountbatten, o último vice-rei britânico, entregou o poder a Jawaharlal Nehru, a partilha do território entre hindus e muçulmanos obrigou 10 milhões de pessoas a abandonarem seus lares. Um milhão de mortes foi o saldo dos conflitos entre os partidários das duas religiões.

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Apesar de o projeto da descida do Supremental ter sido abortado pela resistência de uma humanidade ainda despreparada, Aurobindo prosseguiu em suas práticas espirituais. Em seu apartamento, no Ashram, caminhava em círculo durante sete horas por dia, enquanto elevava a consciência a planos cada vez mais altos. E escrevia à noite, das 18h às 6h. Graças ao excelente relacionamento de meu professor, Satchidananda, com os atuais dirigentes do Ashram, tive o privilégio de visitar esse apartamento em três ocasiões. No local onde Aurobindo caminhava, o chão encontra-se ligeiramente afundado, devido ao desgaste provocado por seus passos.

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No dia 5 de dezembro de 1950, Aurobindo entrou em Mahasamadhi (abandono consciente do corpo físico por um iogue realizado). Uma incontável multidão de admiradores, indianos e estrangeiros, afluiu ao Ashram. Seu corpo ficou exposto para o darshan público durante quatro dias, sem apresentar qualquer sinal de deterioração. Depois, por decisão da “Mãe”, foi enterrado no jardim do Ashram, onde permanece até hoje.

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O projeto da Revolução Supramental também subsiste. Cabe à nossa geração e as seguintes levá-lo adiante.

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