O fundo do poço

Reservatório do Sistema Cantareira. Foto: Divulgação/Sabesp.

Reservatório do Sistema Cantareira. Foto: Divulgação/Sabesp.

O texto a seguir é parte de um editorial escrito por mim em outubro de 2009, quando era editor de Le Monde Diplomatique Brasil. A gestão da água é algo que me preocupa há muito tempo. E, quando editei esse número daquela publicação mensal, que trazia, como matéria de capa, uma longa e aprofundada reportagem sobre a crise dos recursos hídricos, eu tinha clara consciência de que a água se tornaria em breve um dos recursos naturais mais escassos e disputados. Mas não imaginava que chegaríamos ao fundo do poço tão rapidamente.

 

O encontro com um rio pode ser uma experiência altamente definidora. Lembro-me do mergulho no Negro como um dos momentos maiores de minha vida: o corpo se deixando afundar em um ambiente cada vez mais escuro, sem saber o que iria encontrar pela frente, sem chegar jamais ao chão. Na primeira metade da década de 1990, em um Oriente Médio momentaneamente acalmado pelos acordos de Oslo, conheci o Jordão. Frustrante. Não que eu esperasse demais. Mas, para quem se acostumara à exuberância fluvial brasileira, aquele rio tão carregado de memórias e tradições, e no entanto tão raquítico diante dos olhos, não podia oferecer outro sentimento que não fosse a decepção. Sabemos, porém, que o controle desse mesmo Jordão, estreito e raso, estressado pelo consumo humano e as demandas agrícolas, constitui um item particularmente polêmico na longa pauta das disputas árabe-israelenses. É difícil pensar no fato sem evocar episódios bíblicos – como o de Moisés na terra de Madiã – nos quais populações em tudo aparentadas lutam violentamente pelo domínio de um poço. Em contraste com a abundância do Negro, o Jordão ensinou-me sobre a escassez. Nos anos subsequentes, ouviríamos falar, com insistência cada vez maior, em possíveis guerras pela água.

Muitas águas correram desde então. A consciência ambiental cresceu em proporção geométrica. Mas não houve nenhuma redução consistente da pressão sobre os recursos naturais. E esta precisaria ser drástica para se tornar efetiva. De modo que, hoje, ao lado dos sombrios cenários suscitados pelo aquecimento global, defrontamo-nos com a pergunta sobre se haverá água para todos.

A questão (…) envolve ao menos quatro variáveis: a poluição dos mananciais, o enorme desperdício durante a transmissão, o consumo excessivo e a desigualdade na apropriação. No Brasil, paraíso das águas, as perdas no abastecimento das grandes cidades alcançam o inacreditável patamar dos 45%. E a apropriação grotescamente desigual desnuda toda a iniquidade de nossa estrutura econômico-social. Recordo-me de uma palestra proferida em meados dos anos 1970 pelo saudoso bispo de Crateús, Ceará, Dom Antônio Fragoso. Com amarga ironia, o valente religioso afirmou, então, que o problema da seca no Nordeste seria facilmente resolvido se a região fosse “virada de cabeça para baixo” e toda a água escondida nos açudes privados dos grandes latifúndios escorresse para um fundo comum. Três décadas depois, a propriedade da água continua tão escandalosamente concentrada quanto a propriedade da terra!

Os apelos genéricos ao consumo responsável – em si mesmos absolutamente válidos e oportunos – tornam-se hipócritas quando omitem esses fatos. Pedem-nos para tomar conta dos pingos das torneiras enquanto, apenas no município de São Paulo, no trajeto entre os mananciais e as residências, são perdidos 1 bilhão de litros por dia, o equivalente a 1 milhão de caixas-d’água!

O fato é que está em jogo o futuro. E esse jogo não poderá ser ganho sem um empenho multifacetado que vá da mudança dos hábitos individuais, e até mesmo das motivações mais íntimas, ao enfrentamento coletivo das grandes causas estruturais. É preciso, sim, fechar a torneira. Mas é preciso igualmente questionar os governos e também as grandes empresas privadas, que deveriam dar uma destinação mais útil à sua tão propalada “responsabilidade socioambiental”. Para tanto, devemos nos inspirar no exemplo de um Gandhi, capaz de tecer o pano da própria roupa enquanto desafiava o maior império do planeta.

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