Blasfêmia e fanatismo

A teia cósmica: representação da estrutura do universo em larga escala, construída a partir da integração tridimensional dos dados observados. Cada filamento é constituído por aglomerados de galáxias, interconectados em nós formados por superaglomerados, e intercalados por enormes espaços vazios. Fonte: Nasa

A teia cósmica: representação da estrutura do universo em larga escala, construída a partir da integração tridimensional dos dados observados. Cada filamento é constituído por aglomerados de galáxias, interconectados em nós formados por superaglomerados, e intercalados por enormes espaços vazios. Fonte: Nasa

“Meu coração tornou-se capaz de todas as formas:

É um pasto de gazelas, o convento do cristão,

Um templo para os ídolos, a Caaba do peregrino,

As tábuas da Torá, o texto do Corão.

Sigo a religião do Amor.

Para onde quer que avancem as caravanas do Amor,

Lá é meu credo e minha fé.”

(Muhyiddin ibn Árabi, 1165 – 1240)

O pecado original e a doença de fundo do homem é a ilusão da separação. A perda de contato consciente com o núcleo totalizante da existência propiciou o tríplice divórcio que presenciamos hoje: da humanidade com a natureza, dos homens entre si, do indivíduo consigo mesmo. Esquecidos do fio que nos liga à grande teia cósmica, engajamo-nos em um funesto processo de hipertrofia do ego, que agora põe em risco nossa própria sobrevivência.

 

Para o monista, não há separação. A “criatura” não é um objeto externo ao “Criador”, mas sua manifestação. Cada ente do cosmo (uma pedra, uma planta, um animal, um homem, um deus, um demônio, um artefato, um arquivo digital etc.) é uma face da Realidade Absoluta. Uma face parcialmente velada. Uma limitação específica do Ilimitado, uma privação autoimposta do Superabundante, que possibilita ao Absoluto engendrar o relativo.

 

Assim, o monismo vai além do monoteísmo para alcançar a Unidade de maneira absolutamente radical. De seu ponto de vista, não apenas existe um só Deus, mas só Deus existe. Pois Deus enfeixa todas as formas espirituais que poderiam ser chamadas de deuses, e engloba também a Realidade inteira, manifesta e imanifesta, de modo que não há nada que esteja fora de Deus ou que possa se colocar diante de Deus em uma relação de alteridade.

 

Jatra jiv tatra Shiv” (“Onde houver uma alma individual, lá estará Shiva”), declarou o grande santo indiano Ramakrishna Paramahansa (1836 – 1886).

 

Indescritível, inimaginável, inconcebível, essa Realidade Absoluta constitui o Supremo Mistério. E as grandes tradições espirituais e as grandes escolas filosóficas esforçaram-se para descrever a descida do Uno ao múltiplo; para explicar como, a partir da Luz Superabundante da primeira manifestação substantiva do Divino, são geradas, sucessivamente, instâncias cada vez mais veladas e fragmentadas, até se chegar ao mundo material, com sua miríade de entes e fenômenos.

 

Se tudo é Um, se tudo é o Mesmo, então, tudo é sagrado. Reconhecer a presença do Um em cada ente ou fenômeno, ou reconhecer cada ente ou fenômeno como manifestação do Um, é relacionar-se com a cotidianidade em estado de reverência. E transcender a empiria, permitindo que a consciência ultrapasse a superfície opaca da coisa, para alcançar o cerne luminoso do Ser.

 

A totalidade da existência, com sua multiplicidade de entes e eventos, é o desenrolar do drama divino. Ao longo de sucessivas vidas, representamos nele vários papeis. Como bons atores, deveríamos nos esforçar por representá-los da melhor maneira possível, sem jamais nos confundirmos com eles. Os papéis se trocam e a fortuna ou o infortúnio são posições intercambiáveis no jogo cósmico.

 

Se o “Criador” e a “criatura” são Um e o Mesmo, não pode haver separação real entre ambos. Porém nossa verdadeira natureza se encontra velada. Separados da Essência pelo véu da aparência, sentimos a dor da distância e da solidão. Todos os atinos e desatinos do homem poderiam ser pensados à luz dessa contradição. E nossas realizações mais sublimes e nossos atos mais abjetos teriam nela sua raiz. As múltiplas formas de dependência (às comidas, às bebidas, às drogas, ao dinheiro, ao sexo, ao poder, à religião institucionalizada) não seriam, em última instância, senão mecanismos de compensação para a carência básica que a ilusão da separação engendra. O filme Vício Frenético (The Bad Lieutenant), na versão original dirigida por Abel Ferrara e estrelada por Harvey Keitel, desenvolve este tema de maneira magistral.

 

Se não me engano, foi Rumi que afirmou existirem tantos caminhos para Deus quantas são as almas humanas. Nessa pletora de caminhos, há os mais retilíneos e luminosos, e há também os mais sinuosos e obscuros, alguns realmente escabrosos. Acho que a blasfêmia e o fanatismo religioso são duas formas de relacionamento com Divino. Duas formas aparentemente antagônicas, mas que possuem um fundo comum: sua imaturidade.

 

A associação da figura do blasfemador com a figura da criança ou do adolescente rebeldes é de uma obviedade que dispensa demonstração. Lembro-me de um episódio ocorrido em minha infância, quando decidi que não queria mais assistir às aulas de religião [1]. Cheio de mim, anunciei minha decisão durante a aula de religião, pronto para o confronto. Se a professora (uma libanesa de cultura francesa, com toda a aparência exterior de quem passara bons anos no convento) houvesse me confrontado, minha vitória teria sido completa. Mas ela se limitou a dizer: “está bem, se você não quer ficar, pode sair”. E sorriu, com um misto de benevolência e ironia. Saí da classe. Mas, em vez de me sentir o herói do dia, eu me senti um verme.

 

Se, em vez de ser a Realidade Inefável, Deus fosse o velhinho de barbas brancas sentado nas nuvens dos cartuns, acredito que ele também sorriria diante dos ataques dos blasfemadores. Sorriria com benevolência, mas sem ironia, pronto para acolher o filho pródigo de volta ao lar. É muita ingenuidade imaginar que, neste imenso universo, com suas bilhões de galáxias, neste imenso universo que nada mais é senão teofania, a Divina Presença possa ser minimamente ofendida por um palavrão ou uma piada de mau gosto.

 

O que os blasfemadores, sim, ofendem é a sensibilidade daqueles que se relacionam com o Divino de modo diferente. Vou fazer uma comparação hipotética. Não tenho nenhum tabu contra a nudez. Mas, em respeito àqueles que pensam de outra maneira, e que por uma injunção cultural constituem a maioria, eu não sairia às ruas nu, ainda que esse direito me fosse assegurado pela lei. Simples assim.

 

Concordo que “não existe democracia sem o direito à blasfêmia”, mas, ao contrário de alguns amigos, presenciais ou virtuais, não acredito que a blasfêmia nos traga a alegria e a libertação. Parece-me, bem ao contrário, que, após proferirmos todas as blasfêmias que sejamos capazes de imaginar [2], o que restará em nós será a frustração e um sentimento de carência ainda mais miserável.

 

A diferença abissal entre o blasfemador e o fanático é que o blasfemador pode ofender os pensamentos, mas não corta as cabeças pensantes, coisa que o fanático se julga no direito de fazer, como se tivesse para isso um mandado celestial. E como se Deus, em sua imensidão, precisasse de sua ridícula ajuda.

 

Os termos “fundamentalismo” e “fundamentalista”, insistentemente repetidos pela mídia, acabaram se incorporando ao vocabulário de uso corrente. E são tomados como sinônimos de “fanatismo” e “fanático”. Mas tal identificação é essencialmente incorreta. Pois nada destoa mais dos verdadeiros fundamentos das diversas tradições espirituais do que a rigidez mental e a prática coercitiva que caracterizam o fanatismo religioso.

 

O grande equívoco dos fanáticos dos vários credos é confundir os núcleos perenes das tradições espirituais com as formas históricas – e, portanto, transitórias – que os revestem. A incapacidade de operar a necessária diferenciação faz com que atribuam ao relativo e passageiro um caráter absoluto e imutável, com as trágicas consequências que daí decorrem.

 

Acho que tudo o que presenciamos até agora, nesta era de conflitos, é apenas a ponta do iceberg. E que desafios ainda maiores virão. Não será por meio de reações emocionais e apressadas, compartilhadas globalmente em tempo real, que conseguiremos enfrentá-los.

 

Notas

 

[1] Apesar de ser formalmente leiga e admitir alunos de todos os credos, a escola em que estudei, uma instituição particular de classe média e cultura francesa, bastante conservadora, tinha capela, dois padres e professoras de religião que ensinavam a doutrina católica como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.

 

[2] Na verdade, as blasfêmias não são tão criativas quanto se supõe. Elas quase sempre apelam para algum tipo de associação escatológica – o que, para mim, reforça ainda mais a hipótese de seu caráter infantil. Santo Freud!

Anúncios
Post seguinte
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: