O Mar da Unidade

são miguel dos milagres 1

São Miguel dos Milagres — Foto de Márcia Micheli

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“Ó meu Senhor, mergulha-me (…) no mar aberto de tua Unidade (…)” [Muhyîddîn Ibn’Arabî – “Prece da manhã de terça-feira” (1)]

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“Em verdade, o medo surge apenas quando existe um outro” [Brihadaranyaka Upanishad (2)]

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O medo não é uma condição natural e espontânea do humano. Mas o produto de um sistema de crenças, pautado pela ignorância (avidya), que engendra em nós a ilusão de sermos entidades separadas – por isso, desamparadas (3). Tal ilusão constitui a doença básica da humanidade e a causa de todas as crises contemporâneas. É ela que sustenta nosso tríplice divórcio: da humanidade com a natureza; dos homens, uns com os outros; do indivíduo consigo mesmo (4).

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A espoliação desenfreada dos recursos naturais; as variadas formas de exploração e opressão de um grupo humano por outro; a espiral de frustração, mágoa, ressentimento e vingança que contamina as relações sociais e individuais: tudo isso decorre dessa ilusão de fundo. Não é por motivos menores que as redes sociais (em si tão positivas, como contraponto à oligopolização midiática) estejam atulhadas de preconceitos e incitações à violência, com vários graus de intensidade.

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A dificuldade em lidar com a multiplicidade desgasta. A consciência da Unidade refaz.

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É conhecido o episódio do Novo Testamento no qual Jesus caminha sobre o Mar da Galileia. O prodígio é narrado nos evangelhos de Mateus, Marcos e João. Mas apenas o relato atribuído a Mateus menciona que, encorajado por Jesus, o discípulo Pedro também conseguiu, por certo tempo, realizar a façanha. E esse detalhe acrescenta uma nova camada de sentido à narrativa:

“Pedro, interpelando-o, disse: ‘Senhor, se és tu, manda que eu vá ao teu encontro sobre as águas’. E Jesus respondeu: ‘Vem’. Descendo do barco, Pedro caminhou sobre as águas e foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me’. Jesus estendeu a mão prontamente e o segurou, repreendendo-o: ‘Homem fraco na fé, por que duvidaste? ’” (5).

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Enquanto caminha no Mar da Unidade, isto é, enquanto sua consciência permanece unificada com a Consciência Crística, Pedro se mantém sobre as águas. No momento em que sua consciência se divide, ele sente medo e começa a afundar.

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Somos todos um enquanto Ser. Somos singularidades irredutíveis enquanto entes – infinitos raios que, partindo do mesmo Centro, se estendem solitariamente, cada qual na direção e no sentido definido pelo atributo que só a ele, e a nenhum outro, corresponde. Na quididade, desfrutamos do repouso, na eterna repetição do Sempre Idêntico. Na ipseidade, encontramos a condição de uma caminhada solitária, na qual toda relação é transitória, ainda que sobreviva à morte.

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Por isso, o Tao Te Ching afirma: “O pesado é a raiz do leve. A calma é a senhora da agitação. Assim o sábio, ao longo da jornada, não abandona o peso da bagagem. Embora haja visões gloriosas, ele atravessa, repousado e transcendente” (6).

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Reconhecer o Ser subjacente ao ente, reconhecer a Essência subjacente ao atributo – ou melhor, reconhecer cada atributo como projeção da mesma Essência – possibilita que eu veja no outro o meu semelhante, e lance uma ponte ao seu encontro. Uma ponte de coração para coração. Uma ponte de pura cordialidade. Uma ponte eventualmente frágil como essas estruturas de corda perigosamente estendidas sobre alguns desfiladeiros asiáticos. Ainda assim, o único recurso que me possibilita atravessar o abismo da solidão.

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Proponho, ingenuamente, um exercício de imaginação. Imaginemos que naufragamos em uma ilha deserta, tendo por única companhia humana nosso grande inimigo. Seremos tão empedernidos em nossa ignorância ao ponto de deixar que a inimizade se prolongue por tempo indefinido? Ou relaxaremos nosso sistema de crenças em prol da conveniência e da convivência? A resposta parece óbvia. No entanto, quando abrigados na ilusória redoma de segurança e conforto proporcionada pela chamada civilização, nos damos ao luxo de sustentar e alimentar nossas aversões, tão venenosas quanto os desejos, por anos a fio.

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O Mar da Unidade é o repositório inesgotável da onipotente Panaceia – remédio de fundo para a doença primordial do humano. Busquemos a cura em suas águas medicinais!

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Notas

(1) Em Os sete dias do coração, de Muhyîddîn Ibn’Arabî, tradução Bia Machado e Regina Araújo, São Paulo, Attar Editorial, 2014.

(2) A partir da tradução de Max Muller, disponível em http://www.hinduwebsite.com/sacredscripts/hinduism/upanishads/brihad.asp

(3) Conforme “A realidade absoluta e suas manifestações primordiais”, disponível em https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/02/16/a-realidade-absoluta-e-suas-manifestacoes-primordiais/

(4) Conforme “Ciência e Espiritualidade”, disponível em https://josetadeuarantes.wordpress.com/2016/03/01/ciencia-e-espiritualidade/

(5) Mateus, 14: 28-31, em A Bíblia de Jerusalém, Novo Testamento, 8ª edição, São Paulo, Edições Paulinas, 1981.

(6) Tao Te Ching (Daodejing), de Lao Tsé (Laozi). Versão, ligeiramente modificada, da tradução, do chinês clássico para o português, feita por Mário Bruno Sproviero, disponível em http://gropius.awardspace.com/ebooks/taoteking.pdf

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