Palani, Índia, 2014

Venkatesh e eu. Foto feita por minha amiga Talita Nozomi.

Venkatesh e eu. Foto feita por minha amiga Talita Nozomi. Clique na imagem para amplicar

A foto acima foi feita por minha amiga Talita Nozomi, durante nossa viagem à Índia, em fevereiro-março de 2014. Nela, eu apareço (de braço fraturado na tipoia) ao lado de Venkatesh, descendente, em linha direta, do grande siddha (iogue perfeito) Pulipani.

Segundo a tradição, Pulipani, discípulo do siddha Boganathar, era de origem chinesa e chamava-se Yu. Acompanhou Boganathar quando este deixou a China para voltar à Índia. Em Palani, recebeu o nome de Pulipani, pois, diz o relato tradicional, cavalgava um tigre (puli, em tâmil) para levar água (paani, em hindi) ao siddha Boganathar, então envolvido na construção do templo de Murugan (o filho mitológico de Shiva). Utilizando seus poderes ióguicos, o discípulo baixava a temperatura da água, com a qual o mestre se refrescava, no clima quentíssimo da região, situada a menos de 10,5 graus de latitude norte, portanto bem perto da linha do Equador.

Cavalgando seu tigre (real ou metafórico), Pulipani incursionava também pelas densas florestas, que naquele tempo (hoje, não mais) cobriam boa parte da área, para colher as ervas raras com as quais Boganathar confeccionou a estátua de Murugan. Supremo alquimista, Boganathar utilizou 4448 ervas para produzir nove compostos (nava pashanam, em tâmil). Misturou oito deles no interior de um molde e empregou o nono como catalisador, resultando desse procedimento um ídolo feito de material mais duro e resistente do que o granito.

Recentemente, uma comissão científica recolheu amostras da estátua e utilizou métodos sofisticados (inclusive espectrofotometria de absorção atômica) para determinar sua composição, não chegando a resultado nenhum. A estátua de Murugan é considerada altamente curativa e os produtos utilizados em sua lavagem ritual (abishekam) são consumidos posteriormente pelos devotos como remédio para todos os males. Diz-se que Boganathar fabricou e escondeu outras duas estátuas do jovem deus e que estas aparecerão ao público no devido tempo.

Depois do evento narrado, o nome Pulipani transformou-se em um título espiritual, transmitido do pai para o filho mais velho (ou, no caso da inexistência de um sucessor do sexo masculino, para a filha mais velha) entre os descendentes familiares do grande siddha. De acordo com a regra, o irmão mais velho de Venkatesh deverá herdar esse título de seu pai.

Segundo nos contou Venkatesh, em uma narrativa fascinante, os seis primeiros Pulipanis estão enterrados em locais estratégicos no complexo arquitetônico do templo de Murugan. O sétimo Pulipani e alguns de seus descendentes estão enterrados, debaixo de pesados shivalinga (plural de shivalingam, sendo este um objeto cujo formato sugere um falo inserido em uma vagina, e que representa Shiva de modo não antropomórfico) de granito negro, no ashram (eremitério) mantido pela família na base da colina de Palani.

Graças ao excelente relacionamento de meu professor, Satchidananda, com a família Pulipani, tive o privilégio de meditar no local onde estão os shivalinga em duas ocasiões: em 2007 e em 2014. E pude desfrutar da atmosfera espiritual desse lugar, preservado por incontáveis gerações.

Para o visitante apressado e preconceituoso (praticamente não há turistas no local), Palani é apenas uma cidade pequena, quente e suja, entregue a ruidosos rituais devocionais. Porém, quem se permitir observá-la com menos barreiras mentais perceberá que existe algo muito especial nesse lugar, que, não por acaso, é um dos principais centros de culto a Murugan.

Há muitos mistérios relacionados com a estátua, o templo e a linhagem dos Pulipani. Eu sei de alguns e imagino outros. O assunto me fascina. Mas não me sinto autorizado a escrever sobre ele aqui. Talvez eu o faça no futuro, se tiver a aprovação de meu professor, Satchiananda.

Os relatos tradicionais sobre as vidas dos grandes iogues são um desafio ao senso comum. Redigidos no que se convencionou chamar de “linguagem crepuscular”, eles trazem, desde a origem, a marca da obscuridade. As palavras raramente correspondem aos seus significados literais. E, cripticamente, mais escondem do que mostram. Acrescentem-se aos textos originais as numerosas adições ou subtrações perpetradas por discípulos, devotos, admiradores ou detratores, ao longo de séculos ou milênios: o resultado será uma narrativa na qual é impossível definir a fronteira que separa o fato da lenda, a descrição pretensamente objetiva da mais extravagante fantasia.

Se aceitarmos os relatos ingenuamente, em nome da fé, correremos o risco de tomar por literais afirmações de natureza metafórica. Se os rejeitarmos soberbamente, em nome da razão, correremos o risco de pretender medir com a régua do senso comum uma realidade que é decididamente incomum.

Conforme uma famosa sentença do sufi persa Al Ghazali (1058 – 1111), assim como uma criança não tem recursos para avaliar as realizações de um adulto, e um adulto comum não tem recursos para avaliar as realizações de um homem culto, também um homem apenas culto não tem recursos para avaliar as realizações de um sábio iluminado.

O que fazer então? A faculdade discriminativa é uma das ferramentas que nos ajuda a separar o joio do trigo. Outra é o conhecimento aprofundado do contexto histórico e do corpo teórico da tradição. Outra ainda é o exercício prático dos ensinamentos tradicionais, que nos permite descobrir, em nós mesmos, dimensões que o paradigma dominante ignora ou nega, estendendo e alargando o campo que chamamos de “possível”. Outra finalmente é buscar uma espécie de ressonância espiritual com o personagem em questão, pedindo, com humildade e sinceridade, sua autorização, graça e orientação para empreender o estudo em pauta.

Que a graça do Adi (Primeiro) Pulipani nos proporcione a compreensão.

O siddha Pulipani. Imagem popular do Tâmil Nadu.

O siddha Pulipani. Imagem popular do Tâmil Nadu.

Leia também, neste blog: https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/05/17/palani-santuario-de-murugan/

 

 

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