Bande Mataram

Durga, a Grande Deusa em seu aspecto guerreiro, cujo poder o poema invoca para libertar a Índia do domínio britânico.

Durga, a Grande Deusa em seu aspecto guerreiro, cujo poder o poema invoca para libertar a Índia do domínio britânico.

“Mãe, eu te saúdo!” — poema composto em bengali e sânscrito por Bankim Chandra Chattopadhyay (1838 — 1894), que se tornou o grito das multidões contra o domínio britânico da Índia, e, mais tarde, foi parcialmente transformado na letra do hino nacional indiano. Recriei em português a partir da célebre versão inglesa de Sri Aurobindo Ghose (1872 — 1950).

*

Mãe, eu te saúdo!

Rica, com teus córregos apressados,

Luminosa, com teus pomares brilhantes,

Refrescada por teus ventos deleitosos,

Que fazem ondular campos escuros:

Mãe poderosa! Mãe livre!

*

Glória dos sonhos enluarados,

Sobre as copas de tuas árvores e arroios senhoriais,

Vestida pela vegetação em flor:

Mãe, doadora da felicidade, de riso manso e doce.

Beijo teus pés, ó Mãe, de fala mansa e doce.

Mãe, eu te saúdo!

*

Quem disse que és fraca em tuas terras,

Quando, em setenta milhões de mãos, as espadas reluzem,

E setenta milhões de vozes rugem teu nome terrível,

Ecoando de costa a costa?

Com tantos poderes, fortes e latentes,

A ti eu clamo, Mãe e Senhora!

Para que te libertes, te levantes e salves!

A ti eu grito — tu que trazes teus filhos

De volta da planície e do mar –,

Para que sacudas de ti o jugo e te faças livre.

*

Tu és sabedoria, tu és lei,

Tu és coração, alma e respiração

Teus são o amor divino e o assombro

Que em nossos corações vencem a morte.

Tua é a força que anima o braço,

Tua, a beleza, teu, o encanto.

Cada imagem em nossos templos feita divina

Não é senão tua imagem.

*

Tu és Durga, senhora e rainha,

Com a mão que golpeia

E a espada resplandecente,

Tu és Lakshmi, entronizada no lotus,

Tu és Sarasvati, de uma centena de tons.

Puro, perfeito, sem par,

Mãe, nos dá teu ouvido —

Rica, com os teus córregos apressados,

Luminosa, com teus pomares brilhantes,

De cor escura, justa e veraz.

*

À tua alma, adornada por cabelos enfeitados com jóias,

Ao teu sorriso, glorioso e divino,

Ao amor que te devotam todas as terras,

À riqueza, que tens guardada e derramas de tuas mãos,

Mãe, ó minha Mãe,

Doce Mãe, eu te saúdo!

Mãe grande! Mãe livre!

*

Nota explicativa

*

Bankim Chandra Chattopadhyay foi um dos primeiros intelectuais indianos a se levantar contra o domínio colonial britânico. Diplomado pela Universidade de Calcutá (Kolkata), era funcionário da administração colonial, quando se sensibilizou ao tomar conhecimento das revoltas antibritânicas dos séculos XVIII e XIX.

*

As novelas e ensaios de Chattopadhyay influenciaram o jovem movimento pela independência, mas o poema recriado acima teve inicialmente pouca repercussão, até que, em uma manifestação anticolonial, alguém gritou o verso Bande Mataram (Mãe, eu te saúdo!“) e o clamor se propagou pela multidão como fogo em palha seca. Logo o verso se transformou em senha revolucionária e o poema foi proibido pelas autoridades britânicas, o que fomentou ainda mais sua difusão.

*

Nesse poema, Chattopadhyay exalta a Mãe Índia, associando-a à Mãe Humana, esteio da sociedade tradicional, e à Mãe Divina, esteio do cosmo. Sri Aurobindo o traduziu magistralmente ao inglês e participou da edição de um periódico clandestino que se chamava precisamente Bande Mataram.

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