Uma pequena introdução ao I Ching

IC8 Apesar de suas diferenças, a pressão dos séculos – que, como a água, lima todas as arestas – acabou produzindo uma síntese entre o taoismo e o confucionismo. Ela se manifestou no chamado neoconfucionismo, cuja expressão mais famosa é o I Ching (Yijing), o Livro das Mutações. O I Ching combina a profunda inspiração taoista com uma estruturação analítica e hierárquica do conhecimento tipicamente confuciana.

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Vulgarmente utilizado como oráculo, o I Ching é bem mais do que isso, constituindo, na verdade, um tratado de psicofísica, que correlaciona o macrocosmo e o microcosmo, os grandes ciclos da natureza e os pequenos ritmos que regem a vida humana. Seu princípio geral antecipa em séculos o pensamento sistêmico e a teoria dos fractais.

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No I Ching, todos os entes e fenômenos da natureza resultam da interação dialética entre os princípios Yang e Yin. Assim, afirma o Xici, o Grande Apêndice do I Ching:

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“Nas Mutações está presente a Viga-Mestra;

Dela vieram os Dois Emblemas Primordiais;

Os Dois Emblemas geraram as Quatro Imagens;

As Quatro Imagens geraram os Oito Trigramas”.

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Analisemos o significado de cada verso.

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O I Ching vê o mundo como um processo ininterrupto de mudança. Nele, tudo é impermanente. Mas, em meio às mutações, um elemento se mantém estável: a Viga-Mestra (Tai Chi ou Taiji). Ela é o Eixo do Mundo (Axis Mundi). Trata-se, é claro, de uma linha virtual, de natureza metafísica, que encontra, porém, analogia concreta no eixo da própria Terra. Prolongada, a linha do eixo terrestre toca o firmamento, definindo um ponto: o Polo Celeste. Para os chineses, localizados no Hemisfério Norte, esse ponto é o Polo Celeste Norte, cuja posição corresponde sensivelmente à da Estrela Polar. Ela parece permanecer fixa, enquanto toda a abóboda estrelada se move em sua ronda noturna.   Os sábios taoistas e neoconfucianos traduziram inteligentemente suas reflexões em apurados diagramas:

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1. Antes de qualquer manifestação, a Realidade assemelha-se a um círculo vazio, onde nada se distingue (diagrama 1).

IC1   2. Mas esse vazio, que corresponde ao Caos dos gregos, está prenhe de possibilidades. E o impulso realizador define um ponto no centro do círculo (diagrama 2). Os shivaístas indianos o chamam de Mahabindu, o Grande Ponto. Ele é a expressão da Unidade, e, segundo os chineses, resulta da intersecção da Viga-Mestra (Tai Chi) com o Círculo Primordial.   IC2   3. A presença da Viga-Mestra promove a diferenciação dos Princípios Criadores: o escuro Yin, que corresponde à natureza telúrica, concentra-se na parte inferior do círculo; o luminoso Yang, que corresponde à natureza celestial, desloca-se para a parte superior. O círculo se divide ao meio, com o diâmetro horizontal, análogo à linha do horizonte, separando a terra do céu, o escuro do claro, o Feminino do Masculino (diagrama 3).   IC3   4. Mas tudo é movimento no domínio da manifestação. Mal se diferenciam, o Yin e o Yang começam a girar em torno do ponto central: o escuro, que estava na parte inferior, busca as alturas; o luminoso, que estava na parte superior, se precipita nos baixios. E sua rotação lhes confere a elegante forma curvilínea que se tornou mundialmente conhecida (diagrama 4). Estes são os “Dois Emblemas” de que fala o segundo verso.   IC4   5. A impermanência é levada, porém, às últimas consequências. Ao ascender, o escuro se clarifica; enquanto que o luminoso, descendo, se obscurece. Em seu balé dialético, os opostos se transformam um no outro. No interior do negro Yin, um ponto branco anuncia o Yang nascente; ao passo que, no branco Yang, um ponto negro assinala o Yin que será (diagrama 5).   IC5   6. Quatro situações estão presentes agora em cena. E a complexificação do quadro exigiu dos chineses um outro tipo de diagrama. Para representar o Yin maduro, que se acumula no nadir, eles recorreram a duas linhas horizontais interrompidas; para o Yang maduro, que se concentra no zênite, reservaram duas linhas inteiras. O Yin jovem, que brota no interior do yang, é simbolizado por uma linha interrompida, na posição inferior, e outra inteira, na posição superior. No Yang jovem, que irrompe nas entranhas do yin, a posição das linhas se inverte. São estas as “Quatro Imagens” do terceiro verso (diagrama 6).   IC6   7. Estão definidas as quatro grandes orientações, que se expressam materialmente nos pontos cardeais. Permanece, no entanto, o ímpeto criador. Da interação do Yin e do Yang, nasce uma terceira linha, que se acrescenta às duas previamente existentes. As quatro imagens geram, desse modo, os “Oito Trigramas” (Ba Gua) do terceiro verso (diagrama 7).   IC7   Embora recebam nomes como “Vento” ou “Trovão”, eles não correspondem ainda aos entes e fenômenos da natureza. Seu nível de manifestação é o dos princípios arquetípicos. É preciso que continuem interagindo para que cheguemos ao mundo material. Da combinação, dois a dois, dos oito trigramas resultam os 64 Hexagramas do I Ching [ver imagem no início do artigo]. E esse processo ininterrupto de mutações termina por desdobrar a unidade primordial nas miríades de formas individuais que habitam os múltiplos domínios da realidade.

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Nota

Nesta análise dos quatro versos do Xici, recorremos, em parte, à interpretação dada por Ricardo Joppert, em seu livro O Samadhi do Verde-Azul, e, em parte, às nossas próprias reflexões.

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