A espoliação da palavra

As nove Musas dançam com Apolo.

As nove Musas dançam com Apolo.

 

Reli, há pouco tempo, o excelente ensaio introdutório de Jaa Torrano à Teogonia, de Hesíodo [1]. Logo no segundo capítulo do texto, o helenista recorda o imenso poder que os povos ágrafos atribuem à palavra. Existe, para eles, uma relação mágica entre o nome e a coisa nomeada. Uma vez pronunciado, o nome traz à presença a própria coisa. Assim, quando entoa os versos da Teogonia, Hesíodo (séculos VIII-VII a.C.) está convicto de que são as Musas que cantam por meio de sua voz. E que, ao cantar, instauram no presente imediato os entes divinos cujos nomes pronunciam.O nome não apenas evoca, mas também invoca a coisa que nomeia. Mais radical ainda: o nome é a coisa.

Essa maneira de entender a palavra está viva na prática dos mantra indianos. Para seus adeptos, o mantram [2] não alude à divindade ou ao santo a que se dirige. O mantram é a própria divindade ou o próprio santo. E, pronunciado com sinceridade e concentração, configura-se como um canal para que esse ente superior se manifeste.

Lembro-me de um episódio ocorrido comigo em 1996. Como jornalista, eu devia entrevistar Dom Manuel Q’espi, alto sacerdote da tradição inca. Embora já tivesse interagido com muitos indígenas do Brasil, foi a primeira e até hoje a única vez que vi um autêntico “pele vermelha”. Habitante de um povoado do povo q’ero, situado a mais de 4 mil metros de altitude nos Andes peruanos, Dom Manuel não tinha a pele moreno-escura dos indígenas das terras baixas sul-americanas. Sua coloração era, literalmente, avermelhada. Com roupas de lã de lhama, recendendo fortemente a fumaça, e idade indefinida, era um homem de baixa estatura, mas presença impressionante. Sua imponência derivava da autenticidade. Como uma pedra polida pela ação do tempo, ele parecia perfeitamente colocado em si mesmo.

Só se comunicava na língua quéchua. Por isso, para poder entrevistá-lo, eu precisava de um intérprete. E a boa sorte ofereceu-me um com as mais altas credenciais: Dom Juan Nuñez del Prado, um respeitado professor de antropologia na Universidade de Cuzco, que, contra todas as suas expectativas, se tornou, também ele, profundo conhecedor e alto sacerdote da tradição inca. Dom Manuel responderia às minhas perguntas em quéchua e Dom Juan traduziria suas falas para mim em espanhol.

O arranjo era perfeito. Mas, na primeira pergunta, a entrevista desmoronou. Olhando-me bem nos olhos, Dom Manuel interrogou por que lhe perguntava coisas cujas respostas eu já conhecia. Não lhe passava pela cabeça que o jornalista frequentemente se faz de desentendido em benefício dos seus leitores. Para ele, a palavra era, realmente, coisa séria. Ao me dar a entrevista, ele estava falando comigo, de alma para alma, e não com uma revista impessoal e abstrata.

Diante disso, o que mais eu poderia fazer? Percebendo o meu embaraço, Dom Juan me fez um sinal e disse que ele mesmo responderia às perguntas mais tarde. Depois que Dom Manuel se retirou, concedeu-me um extraordinário depoimento que, recentemente, postei neste blog [3]. Apesar da diferença de trajetórias, ele e eu éramos, por assim dizer, “farinhas do mesmo saco”: dois intelectuais para os quais a palavra constituía moeda de troca. Mas Dom Manuel provinha de outro mundo: um mundo no qual a palavra ainda conservava o misterioso poder instaurador que possuía nos tempos de Hesíodo. Aprendi mais com o seu silêncio do que se tivesse lido um livro de mil páginas.

Em seu ensaio, Torrano lamenta que a invenção do alfabeto tenha solapado a força da palavra até quase destruí-la. Na era da comunicação global em tempo real, quando não sei quantos milhões de pessoas passam o dia todo conectadas por meio de uma parafernália de engenhocas eletrônicas, esse processo de espoliação da palavra foi levado ao paroxismo. Nunca se falou tanto, nunca se escreveu tanto, nunca se divulgou tanto. E, no entanto, essa babel de sinais se mostra, a cada dia, mais vazia. Quando alguém “dá sua palavra”, que valor isso tem, se a palavra já não vale quase nada? Na política, na mídia, nos negócios, a mentira é encarada com absoluta normalidade.

O otimismo que a perspectiva espiritual me inspira faz com que eu acredite que “isso tem jeito”. Mas não sei se será fácil atravessar o deserto da cacofonia planetária.

Notas

[1] Hesíodo. Teogonia: a origem dos deuses. Estudo e tradução por Jaa Torrano. 7ª edição. São Paulo, Editora Iluminuras, 2007.

[2] Mantram, singular de mantra, deriva da raiz man, que designa a atividade mental e também origina a palavra manas (mente), seguida do sufixo tra, que alude a ferramenta ou instrumento. É o instrumento nominal por meio do qual o avassalador ruído da mente ordinária é progressivamente silenciado, para que uma instância superior seja ouvida.

[3] https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/02/16/o-caminho-do-inca/

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2 Comentários

  1. Elaine Caparroce

     /  28 de abril de 2013

    Será que as novas mídias estão expondo um medo atávico da palavra? Então falamos, falamos, mas não dizemos? Sinto que, cada vez mais, a palavra não precisa expressar claramente a idéia e, pior, às vezes é melhor que não o faça.Troca-se a calma convicção – que sim, a vida nos ajuda a lapidar, mudar – pela opinião que varia ao sabor da conveniência e do politicamente correto. E aí valem todos os radicalismos porque em caso de emergência é só mudar de time. Mas fico pensando: quanto de consenso podemos conseguir? Em algum tempo, mesmo sem palavras, foi possível ? É saudável consegui-lo?
    Como usar a palavra sem provocar fanatismo, sectarismo, preconceito ou reações violentas no meio dessa enxurrada de ideocratas (essa palavra existe ?) ou apáticos. OK, dá prá começar sòzinho ou encontrando seu grupo, mas escapamos das consequências acima ou do risco de nos tornarmos uma ilha, grupo de excluídos? Tantas interrogações às 2:00hs da manhã do domingo dão nisso: não foi uma resposta, foi um curto-circuito mental ! Me dá mais uma chance, tá?

    Responder
  2. Kelton

     /  26 de novembro de 2013

    Envie este texto para Dom Manuel…

    Responder

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