Onde a ciência encontra a espiritualidade

Stanislav Grof em uma foto relativamente recente. Ele está com 81 anos agora.

Stanislav Grof em uma foto relativamente recente. Ele está com 81 anos agora.

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Por que o mundo existe? Qual o sentido da existência? Todos nos fizemos, alguma vez, perguntas como estas. Elas têm sido formuladas desde a infância da humanidade. E as inspiradas respostas que lhes foram dadas constituem o núcleo das grandes tradições espirituais do planeta. Essa sabedoria tradicional – que já foi desprezada em nome da ciência – recebeu depois notáveis confirmações por parte da moderna pesquisa científica da consciência.

Quando se fala em pesquisa da consciência, um nome a ser necessariamente lembrado é o de Stanislav Grof. Nenhum cientista avançou tanto na área quanto esse psiquiatra tcheco há muito radicado nos Estados Unidos. Ao longo de meio século de investigações sistemáticas, ele acompanhou dezenas de milhares de indivíduos, de diferentes meios culturais e crenças, que tiveram acesso ao que chamou de “estados inusuais de consciência”. “As experiências vividas nessas condições desafiam a visão de mundo materialista e compõem um quadro que coincide com os ensinamentos das antigas tradições espirituais”, afirmou o pesquisador em uma das muitas vezes que o entrevistei.

Segundo Grof, a consciência atua de dois modos diametralmente opostos. Recorrendo a uma analogia simplista, mas útil para a compreensão do fenômeno, pode-se dizer que ela possui um dispositivo interno que funciona de modo semelhante a um interruptor de corrente elétrica. Quando giramos a chave para um lado, a consciência se restringe, tornando-se focalizada, analítica, atenta aos detalhes. Essa é a posição com a qual operamos usualmente em nosso cotidiano. Ela nos leva a ver a realidade como um conjunto de eventos, que ocorrem no espaço tridimensional e se sucedem no tempo linear. E, por exemplo, nos permite atravessar uma rua movimentada sem sermos atropelados. Grof chama essa condição de hilotrópica, palavra derivada dos termos gregos hyle (matéria) e trepein (mover-se em direção a).

Quando giramos a chave para o outro lado, porém, a situação se altera de maneira radical. A consciência liberta-se das amarras do espaço-tempo, da identificação restritiva com o corpo físico e o ego racional e expande-se indefinidamente.

Caem as barreiras entre o “eu” e o “outro”, entre o “aqui” e o “ali”, entre o “antes” e o “depois’. A consciência passa a englobar domínios cada vez mais amplos da realidade. No limite, ela abarca toda a criação e pode até mesmo identificar-se o Criador. Esse é o estado no qual surgem as grandes inspirações artísticas, científicas e filosóficas, a iluminação mística e os dons proféticos. Grof o chama de holotrópico, do grego holos (todo) e trepein (mover-se em direção a).

Ursos poderosos

Como demonstrou de maneira exaustiva a pesquisa de Grof, os estados holotrópicos, ou inusuais, são potencialmente acessíveis a qualquer ser humano. Eles hibernam como ursos poderosos nas cavernas da consciência. E tendem a despertar pelos mais variados motivos. Podem irromper fugaz e espontaneamente em meio às atividades cotidianas, provocados pela visão de um céu estrelado, pela audição de uma fuga de Bach ou pela leitura de um verso de Blake, por exemplo. Podem ser temporariamente induzidos por técnicas de forte impacto, como a “respiração holotrópica”, desenvolvida por Grof e sua mulher Christina. Podem ser metodicamente preparados, desencadeados e estabilizados por meio de disciplinas rigorosas, como o yoga.

Qual é a visão de realidade oferecida pelos estados holotrópicos? Para começar, o universo material deixa de ser visto como uma coleção de objetos separados, relacionados uns com os outros por meio de forças externas e cegas. E passa a ser percebido como uma totalidade inseparável e orgânica. “Nosso universo, que parece englobar um número incontável de elementos diferentes, apresenta-se, então, como um único ser, de imensas proporções e complexidade inimaginável”, disse-me Grof. Igual a um tapete contínuo, é impossível puxar uma de suas pontas sem balançar todas as demais. E não se trata de um tapete comum, mas do tapete mágico de As Mil e Uma Noites, pois a percepção que se tem é a de um ser vivo, impregnado de consciência em todos os seus níveis.

Grof e seus colaboradores recolheram centenas de relatos de indivíduos que, em estado holotrópico, sentiram-se identificados com animais, vegetais ou minerais. Todos esses entes, inclusive aqueles supostamente inanimados, pareciam-lhes dotados de consciência, que adquiria, em cada caso, um matiz específico. Tais experiências poderiam ser rotuladas como meras fantasias ou alucinações, não fosse pelo fato de que esses episódios proporcionaram, às pessoas envolvidas, informações detalhadas – e previamente desconhecidas – sobre os entes com os quais haviam sintonizado. A identificação consciente com plantas, por exemplo, traduziu-se em vislumbres surpreendentemente precisos de processos botânicos, como germinação de sementes, trânsito de água e minerais nas raízes, fotossíntese e polinização.

Em o Jogo Cósmico, um de seus muitos livros, Grof mencionou a experiência espontânea de um norte-americano inteligente e culto, que se identificou com uma montanha, enquanto acampava com os amigos na Sierra Nevada. O psiquiatra o chamou apenas de John. “Todo o meu turbilhão e palavrório internos silenciaram e foram substituídos por uma quietude absoluta. Senti que eu havia chegado. Eu estava em um estado de completo repouso, no qual todos os meus desejos e necessidades pareciam satisfeitos e todas as perguntas respondidas. Subitamente me dei conta de que essa paz inimaginável tinha algo a ver com a natureza do granito. Por incrível que pareça, senti que eu me tornara a consciência do granito. Compreendi, então, por que os egípcios faziam esculturas de deuses em granito e por que os indianos viam o Himalaia como a figura reclinada de Shiva. Era o estado de consciência imperturbável que eles veneravam”.

Esses dados já contradizem frontalmente o sistema de crenças da ciência materialista. Mas a visão descortinada em estados ampliados de consciência vai muito além. Pois, o domínio da matéria, com seus bilhões de galáxias, representa nela apenas uma estreita faixa da realidade. Adiante dele, estende-se a vastidão inconcebível dos domínios supramateriais, povoados por uma profusão de personagens, que, na posição holotrópica da chave do interruptor, mostram-se tão ou mais reais do que os entes materiais. Grof e seus colaboradores reuniram uma quantidade prodigiosa de casos de encontros ou mesmo identificação com espíritos desencarnados, antigos mestres espirituais, personagens mitológicos e deuses e deusas de diferentes panteões.

Narrativas como as colecionadas por Grof podem ser recebidas com desdém pelos céticos. Mas os estados holotrópicos são pródigos em experiências semelhantes e qualquer um que as tenha vivido dificilmente duvidará de sua autenticidade. Nesses elevados patamares de consciência, o mundo material e o mundo espiritual apresentam-se como elos distintos de uma mesma corrente, que as tradições místico-filosóficas nomeiam como a “grande cadeia do ser”. E a matéria e o espírito mostram ser apenas diferentes manifestações da Realidade Unitária. “Quando experimentamos essas dimensões que estão ocultas à nossa percepção diária, percebemos, de maneira direta e irrecusável, o caráter divino da existência”, enfatizou Grof.

Um “Isto” absoluto

Sri Aurobindo Ghose (1872-1950), um dos maiores iogues contemporâneos, teve essa percepção logo no início de sua extraordinária trajetória espiritual. Aos 35 anos, engajado na luta pela independência nacional da Índia, ele buscou, na milenar disciplina do yoga, um método que otimizasse sua capacidade de trabalho e ação. Seu primeiro exercício de meditação profunda, sob a direção de um guru, resultou em uma experiência que transformou radicalmente sua visão de mundo. “Com estupenda intensidade, ela me fez ver o mundo como um jogo cinematográfico de formas vazias na impessoal universalidade do Absoluto”, escreveu Aurobindo anos mais tarde. “Não havia ego ou mundo. Não havia um ou muitos. Apenas um ‘Isto’ sem feições, sem relações, puro, indescritível, impensável, absoluto. Todavia, supremamente real e a única realidade”.

Contra sua expectativa e convicções filosóficas, Aurobindo havia entrado em um estado de consciência que configurava a meta suprema de várias escolas místicas. Uma meta alcançada apenas por poucos e após longos anos de prática. Para ele, porém, esse foi apenas o primeiro passo, rumo a experiências ainda maiores, que se sucederiam em um crescendo até o fim de sua vida.

Prosseguindo seu combate contra o domínio inglês da Índia, ele foi preso pelas autoridades coloniais e, na cadeia, teve acesso a um estado de consciência que o levou a ver Deus em todas as coisas. A visão se manteve imperturbável, mesmo diante do tribunal britânico: “Eu olhava para o conselho de promotores e não era o conselho de promotores que eu via”, descreveu Aurobindo. “Era o Senhor Krishna [um dos avatares ou personificações divinas], que estava sentado lá e sorria. ‘Você ainda tem medo?’, Ele disse. ‘Eu estou em todos os homens e governo suas palavras e ações’”.

Na perspectiva holotrópica, a realidade inteira, com seus incontáveis enredos, personagens e conflitos, é um magnífico teatro, no qual Deus é o autor, o diretor, os atores e os espectadores. O “como” e o “porquê” vêm intrigando, há milênios, a inteligência humana. E constituem um enigma insolúvel para o ego racional. A simples indagação “por que existe alguma coisa, ao invés do nada?” deixa mudas a ciência e a filosofia. Confirmando e até enriquecendo as inspiradas respostas dos grandes místicos, a moderna pesquisa da consciência permite encaixar novas peças nesse fascinante quebra-cabeça cósmico.

Uma biografia de Grof e uma apresentação mais detalhada de sua teoria estão disponíveis neste Blog em:

https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/03/24/stanislav-grof-consciencia-sem-limites/

Uma antiga foto dele comigo pode ser vista em:

https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/08/20/grof-e-eu-manaus-1996/

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