Aqui-Agora

Clarice, em sua foto mais bela: cheia de graça.

Clarice, em sua foto mais bela: cheia de graça.

Antes de todas as coisas, tem de existir o Simples, diferente de tudo o que dele advém, autoexistente, e, no entanto, capaz de estar presente nessas outras ordens” (Plotino) [1]

Ontem era a catedral vegetal: recorte do Paraíso marchetado na Mata Atlântica: as árvores erguendo-se desmesuradas como colunas góticas; o rendilhado de suas copas tecendo a abóboda altíssima; o grande espelho de água corrente compondo o movediço solo da nave; a cachoeira derramando-se, como a efusão da graça, da rocha do altar.

Sentado sobre a pedra redonda, meus joelhos repousam no solo sem esforço, e cada respiração projeta a consciência mais alto, espiralando. Se abro os olhos, buscando a corredeira, vejo o ar tremeluzente, riscado de cintilações. Se abro os ouvidos, escuto apenas o murmúrio das águas e o troar abafado dos trovões distantes, pedindo licença ao silêncio. E a iminência da tempestade, com sua promessa de enxurrada e perigo, insemina o momento de um temor reverente.

Aqui é fácil dizer, como disse Clarice, que há seguramente mais do que isso, que, entre a mão e os objetos, existe alguma coisa além do ar [2].

Mas a velocidade do tempo atual não admite que a consciência enlanguesça na prorrogação do momento. E o asfalto da estrada deixa para trás a catedral e seu mistério. Na paisagem urbana, entre a mão e os objetos, há uma barreira de ruídos – não apenas aqueles que se podem ouvir. Se estendo o olhar, em busca da corredeira, encontro outro olho, mesmerizado pela tela do computador. Se estendo o ouvido, em busca do murmúrio da água, encontro a cacofonia dos carros, mas alta do que o trovão.

Aqui é fácil dizer, como disse Fernando, que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto [3].

Porém à Inteligência repugna o que não seja a Unidade. E o Dois não pode ser aceito senão como expressão provisória do Um. Há que perceber. No exato ponto em que se está, onde e quando a vertical do espaço cruza a horizontal do tempo, oferecendo o aqui-agora como o sinal da cruz.

Então, é preciso que a percepção se esforce para escalar o mirante de onde poderá contemplar o real sem qualquer esforço. E se fatigue para repousar no momento que é o mesmo a cada momento. E morra para constatar que:

Não há espaços mortos;

Não há tempos mortos;

Tudo está impregnado pela Presença;

Tudo é Presença;

Tudo é Teofania:

Há que perceber!

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Notas

Plotino, Enéadas (tradução de Américo Sommerman).

Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem.

Fernando Pessoa (na persona de Álvaro de Campos), Tabacaria

 

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