Mais um poema de Kabir

Imagem tradicional de Kabir, tecelão e mestre.

*

A escuridão da noite desce, densa e profunda,

Mas sobre a cabeça a luz do amor se derrama.

Abre a janela e te perde na imensidão estrelada.

Bebe do mel que o lótus de teu coração emana.

*

Percebe quebrarem-se em ti as ondas do mar.

Escuta o zumbido dos búzios em teu interior.

Recolhe-te. Aquieta-te. Conserva-te no lugar.

Tu és o vaso no qual viceja, eterno, o Senhor.

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Comentário

Este é o 23º dos 100 poemas de Kabir, traduzidos para o inglês por Rabindranath Tagore, que eu recriei em português (Attar Editorial).

As várias imagens nele evocadas talvez se tornem mais compreensíveis a partir da perspectiva do ioga. O “lótus do coração”, que emana o doce mel, seria o chakra anahata, localizado no centro do peito e considerado a sede daquela instância de nosso ente total que Sri Aurobindo chamou de “ser psíquico”. As “ondas do mar”, que se quebram no corpo, seriam os fluxos do prana ou energia sutil. O “zumbido dos búzios”, que cresce no interior, seria uma metáfora de Aum, o Som Primordial, primeira manifestação fenomênica do Divino.

Os dois últimos versos lembram imediatamente a famosa passagem do Salmo 46: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”.

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2 Comentários

  1. Franciso

     /  18 de outubro de 2013

    Olá José, muito obrigado pela divulgação da sua tradução, ficou muito bonita. Eu gostaria de saber porque você traduziu “luz do amor” ao invés de “escuridão do amor” (darkness of love) da versão do Tagore?
    Lendo a versão inglesa, nos versos finais, ele se refere aos sons de búzios e sinos que emergem. Eu fiquei curioso quando li isso, porque há algum tempo eu li um texto do Vivekananda onde ele diz que quando ele meditava era possível ouvir sons distantes, como de sino que iam surgindo. Seria possível interpretar também desta maneira?

    Eu humildemente agradeço, e por favor fique a vontade para não publicar essa mensagem caso não queira.
    Um grande abraço,

    Francisco.

    Responder
  2. Prezado Francisco, obrigado por seu comentário.
    Na versão dos 100 poemas, depois de refletir bastante, optei por utilizar com muita flexibilidade a tradução de Tagore, sempre guiado pela fidelidade ao que suponho ser o verdadeiro espírito da poesia de Kabir e pelo repertório das duas grandes tradições que influenciaram sua obra (o ioga hinduísta e o sufismo islâmico). Agi assim porque considerei que, em vários casos, a tradução de Tagore não foi feliz — principalmente, quando ele não conseguiu manter a estrutura poética dos poemas, substituindo-a por longas e repetitivas dissertações prosaicas.
    No caso específico deste poema, pareceu-me mais adequado dizer “luz” por dois motivos:
    1) o primeiro de natureza poética, para estabelecer um contraste com a escuridão do ambiente, descrita no verso anterior;
    2) o segundo de natureza experiencial, pois é como uma luz imaculada derramando-se sobre o topo da cabeça que os grandes iogues experimentam a “descida de Satchidananda” (manifestação fenomênica do Divino como Ser-Consciência-Beatitude).
    A audição de búzios e sinos, que são formas de Aum (o Pranava ou Som Primordial), é reportada por vários iogues, em associação com a experiência do Samadhi (Êxtase Místico). Sivananda também escreve que uma das provas extrassensoriais das ascensão da Kundalini é a audição de sinos. Acho que não é por acaso que quase todas, senão todas, as tradições espirituais utilizam sinos em seus rituais.
    Evitei dizer “búzios e sinos”, mantendo apenas “búzios”, para não comprometer a métrica do verso. Mas o tema do Som Primordial, que se manifesta extrassensorialmente de várias formas, aparece em diversos poemas da coleção. E é extensamente explicado na nota ao poema 15, também postado neste blog.

    Responder

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