O Repouso da Alma (um texto de Rumi)

O túmulo de Rumi, em Konya, na Turquia.

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“Existe no homem uma dor, um amor, uma inquietude, um apelo, que, mesmo se houvesse cem mil universos, não encontrariam calma e repouso.

As pessoas exercem todos os tipos de profissão, fazem todos os tipos de estudos, mas não encontram o contentamento, pois seu objetivo jamais é alcançado.

Chama-se o Bem Amado de “Repouso da Alma”. E como seria possível, senão nele, encontrar ancoragem?

Todos os objetivos e prazeres são como uma escada. Cada degrau não é um lugar de repouso, mas uma passagem.

Bem-aventurado aquele que acorda cedo, para encurtar o longo caminho, sem perder sua vida tropeçando nos degraus.”

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Comentário

Esta luminosa passagem de Rumi lembra imediatamente a famosa frase de Agostinho em suas Confissões: “Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”.

Os cinco corpos por meio dos quais se manifesta o verdadeiro Eu – principalmente os três corpos inferiores com os quais equivocadamente nos identificamos (o físico, o vital e o mental) – são uma fonte permanente de inquietação. Flutuações, provocadas por esses corpos, irrompem o tempo todo na consciência. E, se nos identificamos com elas, somos lançados para lá e para cá, como um náufrago no oceano agitado.

Será impossível evitar as flutuações, enquanto estivermos no mundo (e não apenas no mundo físico). Mas podemos aspirar a um estado em que consigamos observá-las sem nos identificar com elas. Patânjali afirma, nos Yoga Sutras: “Yoga é a cessação da identificação com as flutuações que emergem na consciência”. A meta é um estado de equanimidade, imperturbável diante do ganho e da perda, da vitória e da derrota, da alegria e da tristeza, pois tudo passa.

A capacidade de agir conscientemente, sem se apegar aos frutos da ação, é um dos ensinamentos magistrais de Krishna a Arjuna no campo de batalha de Kurukshetra. E a condição imperturbável é o testemunho dos grandes iogues que alcançaram a Unidade. Por isso, quando pediram a Sri Ramakrishna Paramahansa que descrevesse o Absoluto, ele surpreendeu seus interlocutores com uma resposta inesperada. Em vez de dizer, como de praxe, que o Supremo Brahman estava além de qualquer possibilidade descritiva, Ramakrishna afirmou: “Ele é mais firme do que o Monte Mehru”. Ancorada na praia do Absoluto, a consciência do grande iogue já não se perturbava diante dos vagalhões do mundo.

Outros textos postados neste Blog ajudam a compreender os conceitos aqui expostos:

Sobre o Absoluto: https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/02/16/a-realidade-absoluta-e-suas-manifestacoes-primordiais/

Sobre os cinco corpos: https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/05/21/o-som-e-o-silencio-portas-para-o-absoluto/

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1 comentário

  1. “Agir conscientemente, sem se apegar aos frutos da ação”, gostei disso!

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