O mistério da Última Ceia

Equilíbrio, harmonia, majestade: estas são as palavras que nos ocorrem quando observamos a Última Ceia, o mural pintado no século XV por Leonardo da Vinci, considerado com justiça uma das maiores obras de arte universal.

Mesmo quando vemos velhas reproduções fotográficas, feitas quando a Última Ceia se encontrava em ruínas, essa magnífica pintura tem o dom de exercer um estranho fascínio sobre o observador. A sensação se acentuou depois de maio de 1999, quando, após 22 anos de criteriosa restauração, o mural foi devolvido ao público, tão próximo quanto possível de seu esplendor original.

Ao longo de cinco séculos, esse painel, pintado entre os anos 1495 e 1498, em uma das paredes do refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, sofreu todo tipo de agressão. Os danos principiaram com a infiltração de umidade, que começou a deteriorar a pintura quando ela ainda estava sendo realizada; prosseguiram com a absurda decisão dos padres do convento de abrir uma porta no centro do mural; e aprofundaram-se com canhestras tentativas de restauração. No curso da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a obra esteve a um passo de ser totalmente destruída durante o bombardeio aéreo da Itália. Apesar dessa história atribulada, a Última Ceia jamais perdeu seu poderoso encanto.

Escolha uma boa reprodução fotográfica da Última Ceia e experimente observá-la em silêncio durante alguns minutos. É muito provável que seus pensamentos se aquietem. E que um sentimento grandioso tome o seu lugar. Três palavras talvez lhe venham então à mente: equilíbrio, harmonia, majestade. O que faz essa pintura exercer tal efeito sobre o observador?

O segredo do mural de Leonardo

A perfeita simetria da composição é certamente uma das causas do misterioso poder da Última Ceia. O rosto de Jesus ocupa o centro da imagem, para onde convergem todas as linhas de fuga da perspectiva. Os 12 apóstolos distribuem-se equitativamente pela cena, seis de cada lado. O cenário é extremamente despojado, mas a disposição simétrica de portas e janelas acentua o equilíbrio.

Outro ingrediente que fascina o espectador é a argúcia psicológica com que Leonardo retrata seus personagens. Jesus é a própria imagem da serenidade. A cena ocorre imediatamente após ele ter anunciado que um dos discípulos o trairia. Mas sua fisionomia não transmite medo, raiva ou angústia. Transcendente, ele parece dizer, sem palavras, que já não pertence mais a este mundo. Contrastando com a expressão sublime do mestre, os rostos e gestos dos apóstolos exprimem, de modo concentrado, todos os temperamentos humanos. Seus corpos se agitam como se tivessem sido atravessados por uma corrente elétrica, que percorre a pintura de uma ponta a outra. Espanto, indignação, suspeita, incredulidade, dissimulação, indiferença: miríades de sentimentos se condensam nas 12 figuras.

Simetria e argúcia psicológica são insuficientes, porém, para explicar o apelo da Última Ceia. Leonardo passou três anos pintando-a. Nada é fortuito nessa obra magistral. Qual é a fonte de seu estranho poder?

A possível chave do enigma

O próprio artista forneceu a possível chave do enigma. Em um texto tortuoso e trôpego, mas ainda assim esclarecedor, ele escreveu sobre a Última Ceia:

“Aqui, em 12 figuras completas, é apresentada a cosmografia do microcosmo, na mesma ordem que Ptolomeu aplicou à sua cosmografia. E, assim, eu dividi aquela em membros, como ele dividiu esta, em seu todo, em províncias. E vou mostrar as ações de cada parte em todos os aspectos, anotando todas as formas e capacidades do indivíduo, por meio de seus gestos e localização. Agrade ao nosso Criador que eu represente a natureza do homem e seus costumes mediante a representação de cada figura”.

Não é fácil entender o comentário de Leonardo. Vale a penas destacar suas principais ideias:

  • na Última Ceia, ele buscou representar a humanidade (o microcosmo), adotando o mesmo esquema empregado pelo astrônomo alexandrino Cláudio Ptolomeu (século 2 d.C.) para representar o universo (o macrocosmo);
  • para tanto, associou cada um dos 12 apóstolos a uma das 12 constelações do Zodíaco;
  • o signo específico representado pelo apóstolo é indicado por seus gestos e localização na cena;
  • as figuras não retratam indivíduos particulares, mas tipos universais, que, em seu conjunto, englobariam toda a natureza humana.

Os apóstolos e o Zodíaco

O texto de Leonardo deixa clara sua intenção. Ele não pretendeu afirmar que este ou aquele apóstolo tinha tal ou qual signo. Isso seria impossível de fazer, pois o artista não possuía – nem nós possuímos – nenhuma informação segura sobre as datas de nascimento dos seguidores de Jesus. Não temos sequer certeza de seus nomes, pois as quatro listas que os mencionam na Bíblia divergem em detalhes. Mas tudo isso é irrelevante para o propósito de Leonardo: o que ele pretendeu foi fazer de cada apóstolo uma representação pictórica do próprio signo.

E qual é o signo que cada apóstolo representa na Última Ceia? Analisando os escassos dados de suas supostas biografias, mas principalmente a posição de cada um à mesa e o simbolismo de seus gestos e fisionomias, os estudiosos chegaram à correlação mais provável. Da direita para a esquerda, conforme a sequência dos corpos, que não coincide necessariamente com a dos rostos, temos:

1. Simão, o Zelota – Áries

2. Tadeu – Touro

3. Mateus – Gêmeos

4. Felipe – Câncer

5. Tiago, o Maior – Leão

6. Tomé – Virgem

7. João – Libra

8. Judas Iscariotes – Escorpião

9. Pedro – Sagitário

10. André – Capricórnio

11. Tiago, o Menor – Aquário

12. Bartolomeu – Peixes

Cada apóstolo está em uma relação de polaridade com aquele que ocupa uma posição simétrica à sua: o gesto expansivo de Mateus (o terceiro da direita para a esquerda) tem sua contrapartida na postura receptiva de André (o terceiro da esquerda para a direita); a sinceridade da fisionomia de Felipe contrasta com a dissimulação do semblante de Judas.

Como deve ter sido a Ceia verdadeira

Para milhões de pessoas em todo o mundo, o painel de Leonardo tornou-se a representação definitiva da última ceia de Jesus com seus apóstolos. Mas sabemos hoje que essa pintura – altamente estilizada e simbólica – não corresponde à verdade histórica. Uma passagem preciosa do Evangelho de Lucas (leia o trecho adiante) informa que Jesus e seus discípulos celebraram a ceia em uma sala provida de almofadas. Não se sentaram sobre cadeiras, portanto, como imaginou Leonardo. E a pesquisa arqueológica e histórica contemporânea pode nos ajudar com mais elementos:

  • os antigos judeus tomavam suas refeições sentados no chão, com as pernas cruzadas, à maneira dos beduínos; não havia mesas; as travessas eram colocadas sobre um tapete;
  • na época de Jesus, porém, já havia sido adotado o costume romano; as pessoas mais simples comiam reclinadas em almofadas; e os ricos, em divãs;
  • em uma refeição solene, com vários participantes, como foi o caso da Última Ceia, a mesa, muito baixa, era montada em forma de “U”, com os três lados retos; a posição relativa ao quarto lado ficava aberta, para que o serviço pudesse ser feito por meio dela;
  • o corpo do comensal repousava sobre o antebraço esquerdo e seu ombro esquerdo se apoiava no tampo da mesa; o braço direito permanecia livre para que a pessoa pudesse se servir;
  • não havia pratos nem talheres individuais; comia-se com as mãos, diretamente das travessas; por isso, os fariseus, que faziam extrema questão das regras de pureza, jamais partilhavam a mesa com pagãos ou pecadores, pois temiam contaminar-se com a comida tocada por eles;
  • segundo a tradição judáica, o cardápio da Páscoa (Pessah) devia incluir obrigatoriamente quatro ítens, que relembravam os episódios da saída do povo judeu do Egito – o cordeiro assado, os pães ázimos (isto é, sem fermento), as ervas amargas e o vinho, diluído em água;
  • os participantes deviam beber quatro goles ou quatro taças de vinho, uma para cada frase contida na seguinte passagem do livro do Êxodo: “Eu sou o Senhor, e vos farei sair de debaixo das cargas do Egito; vos libertarei de vossa escravidão e vos resgatarei com a mão estendida e com grandes julgamentos; vos tomarei por meu povo; e serei o vosso Deus”;
  • de acordo com a pesquisa histórica, na época de Jesus ou pouco tempo depois, mais três itens foram acrescentados ao cardápio da ceia: o haroset, uma pasta feita com maçãs, uvas passas, tâmaras ou figos secos, nozes, vinho e mel, cuja cor lembrava o barro com o qual os judeus teriam sido obrigados a fazer tijolos no Egito; os ovos cozidos, um símbolo universal de renascimento ou renovação; e raízes ou verduras com água salgada, que, conforme os antigos rabinos, representaria as lágrimas que os anjos derramaram pelos perseguidores egípcios afogados no Mar Vermelho.

O que diz o Evangelho de Lucas

“Jesus então enviou Pedro e João, dizendo: ‘Ide preparar-nos a páscoa para comermos’. Perguntaram-lhe: ‘Onde queres que a preparemos?’. Respondeu-lhes: ‘Logo que entrardes na cidade, encontrareis um homem levando uma bilha de água. Segui-o até a casa em que ele entrar. Direis ao dono da casa: O Mestre te pergunta: onde está a sala em que comerei a Páscoa com os meus discípulos? E ele vos mostrará, no andar superior, uma grande sala, provida de almofadas; preparai ali’” (Lucas, capítulo 22, versículos 8-12)

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