Ibn Battuta: viajante incansável

O roteiro das viagens de Ibn Battuta (em verde), comparativamente ao de Marco Polo (em vermelho).

Quem não conhece a história do sujeito que foi até a esquina, comprar cigarros, e nunca mais voltou para casa? Em proporções superlativas, a imagem se aplica, até certo ponto, a Ibn Battuta. Ele não deixou o lar para uma aquisição trivial: na verdade, saiu de sua terra natal, o Marrocos, rumo à cidade santa de Meca, na Arábia. Mas essa peregrinação ritual – que todo muçulmano em condições físicas e financeiras deve realizar ao menos uma vez na vida – acabou se transformando no ponto de partida para um interminável ciclo de viagens. Durante 29 anos, mobilizado pelo que qualificou de “um impulso irresistível”, percorreu cerca 120 mil quilômetros, visitando uma extensão do planeta que, no atlas de hoje, corresponde a 44 países. O “pequeno detalhe” é que não tinha à disposição os atuais meios de transporte. Em pleno século 14, teve que enfrentar o mar bravio em frágeis embarcações ou deslocar-se por terra no lombo de animais.

Considerado o príncipe dos viajantes, com três vezes mais estrada do que o veneziano Marco Polo, Ibn Battuta estava longe de ser um simples turista. Em suas expedições, visitou lugares tão remotos quanto Mali e Sumatra; testemunhou o nascimento do Império Otomano na Turquia e a terrível epidemia de peste negra na Síria; foi nomeado juiz em três países diferentes (Índia, Maldivas e Marrocos) e integrou a comitiva diplomática enviada pelo sultão indiano ao imperador da China; conviveu com a horda mongólica na Rússia e estudou com os místicos sufis, espalhados por todo o mundo islâmico.

Peregrino, explorador, jurista, diplomata, memorialista e místico, ele nasceu em Tânger, no Marrocos, no ano de 1304. Seu nome verdadeiro, que à maneira árabe incorpora os dos antepassados masculinos e o do clã, é uma tortuosa sequência de Abdullahs e Muhammads: Abu Abdullah Muhammad ibn Abdullah ibn Muhammad ibn Ibrahim al-Lawati. Sabe-se lá por qual motivo, ficou conhecido como Ibn Battuta. Cabeça feita pelos livros de geografia disponíveis na época, começou viajar aos 21 anos. Só parou quando a idade e a fama o fizeram amarrar os camelos em seu país de origem. “Deixei minha cidade natal em 13 de junho de 1325, com a intenção de fazer a peregrinação à Meca”: assim começa, traduzida em linguagem contemporânea, a narrativa de suas memórias.

Um sonho premonitório

Tânger, no extremo norte da África, às margens do Estreito de Gibraltar, era uma cidade cosmopolita, que, em diferentes épocas, fora colonizada por fenícios, romanos, vândalos, árabes e muçulmanos espanhóis. Meca, o coração do Islã, localizava-se quase 5 mil quilômetros a leste. Para alcançá-la, Ibn Battuta atravessou desertos e terras férteis, percorrendo regiões que correspondem à Argélia, Tunísia, Líbia, Egito, Palestina, Israel, Líbano, Turquia, Síria e Jordânia, antes de chegar à Arábia. Apenas o trecho que vai de Tânger, no Marrocos, a Alexandria, no Egito, demandou 10 meses de viagem. Mas a empreitada permitiu-lhe contemplar o famoso farol da cidade, uma das sete maravilhas do mundo antigo, já então em ruínas, porém ainda de pé.

Próximo dali, no Delta do Nilo, pernoitou no eremitério do místico sufi Abdullah al-Murshidi. O ambiente, carregado de vibrações espirituais, o afetou intensamente. E, à noite, ele sonhou que um enorme pássaro o levava nas asas para Meca; dali, ao Iêmen; depois em direção a leste, até atingir uma terra escura e verdejante, onde finalmente pousava. O significado do sonho era óbvio, mas estava tão acima das expectativas do jovem Ibn Battuta que este não se atreveu a decifrá-lo. Foi preciso que o sufi lhe desse a interpretação: ele viajaria muito além da cidade santa do Islã, até o remoto Oriente.

Ibn Battuta passou pelo Egito sem ver as Pirâmides. E, compreendendo mal as narrativas que ouviu, descreveu-as como cônicas. Em compensação, traçou um vívido retrato da cidade do Cairo, em pleno esplendor da dinastia Mameluca. Sua população, disse, fluía “como ondas do mar” por ruas estreitas; 36 mil barcos fervilhavam no Nilo; e 30 mil carregadores e 12 mil aguadeiros atendiam uma clientela apressada. A cidade contava ainda com um movimentado hospital.

Deixando para trás o burburinho egípcio, o viajante adentrou a Palestina, detendo-se em lugares sagrados para judeus, cristãos e muçulmanos. Em Belém, afirmou, “visitei o local onde nasceu Jesus, sobre ele a paz”. Em Hebron, reverenciou as tumbas dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó. Em Jerusalém, rezou no Domo do Rochedo, construído no local onde, segundo a tradição, o profeta Muhammad ascendeu aos Céus.

Nem só de espírito vive o homem, porém. Prosseguindo a jornada, o marroquino percorreu a esplêndida costa libanesa e depois visitou as elegantes cidades sírias. Entre elas, Alepo, cujos encantos comparou aos de uma noiva. Um esforço a mais e a seta atingia o alvo. Junto com seus companheiros de viagem, ele alcançou finalmente a cidade de Meca, cuja grande mesquita abriga a Caaba, a pequena construção cúbica que constitui o ponto focal para o qual todo muçulmano se deve voltar no momento da prece. “Nós nos apresentamos prontamente no Santuário do Deus Altíssimo”, relatou o viajante. “E vimos diante de nossos olhos a Caaba – possa Deus aumentar sua veneração”.

Em vez de voltar, foi mais longe

Cumpridos os complicados ritos da peregrinação, era hora de voltar para a casa. Mas, nessa altura, Ibn Battuta já tinha o vírus do eterno viajante nas veias. Em vez de oeste, tomou o rumo nordeste, dirigindo-se ao Iraque. Sua primeira visita: a tumba de Ali, primo e genro de Muhammad e quarto califa do Islã. Com seu domo recoberto por 7.777 placas de ouro maciço, o local é a segunda Meca para os muçulmanos xiitas, seguidores da linhagem de Ali. Peregrinando ao mausoléu, observou o marroquino, os fiéis buscavam cura para suas doenças. Se a alcançavam faziam generosas oferendas ao tesouro local: a erradicação de uma grave dor de cabeça, por exemplo, era recompensada com a doação de uma cabeça de ouro ou prata.

Para leste, até Isfahã, na Pérsia; para oeste, até Bagdá, no Iraque; para sudoeste, até Meca, na Arábia: Ibn Battuta agora ia e vinha sobre seus próprios passos. Outra vez em Meca, deteve-se para uma temporada de estudo de dois anos. De lá, ganhou o Porto de Jiddah e partiu em sua primeira viagem marítima: rumo ao Iêmen, no sul da Península Arábica; e, de lá, pela costa oriental da África, até a atual Tanzânia. Regressou via Omã e Bahrein, para uma terceira peregrinação à Meca. Enquanto gravitava em torno da cidade santa como uma abelha ao redor da flor, um projeto fabuloso crescia em sua mente, reverberando o sonho que tivera em solo egípcio: a Índia.

Para fugir à torturante travessia marítima, que punha à prova a coragem e o estômago dos aventureiros, empenhou-se em um longo roteiro por terra, através da Turquia e da Ásia Central. Na Turquia, observou que as mulheres não usavam véu. E, na cidade de Konya, visitou a ordem sufi fundada pelo grande místico e poeta Jalal ud-Din Rumi (1207-1273). Admirou-se com a célebre dança giratória executada pelos adeptos para atingir o êxtase místico. Na Rússia, recebido com grande deferência por um chefe cristão, descreveu o quanto se sentia “alarmado” pelo reiterado repicar dos sinos das igrejas. Como precisou ser flexível esse homem do século 14 para aceitar tanta diversidade!

Nas estepes russas, controladas pela Horda Dourada, tornou-se amigo de uma das esposas do Grande Cã mongol, filha do imperador bizantino Andronicus III. E decidiu acompanhá-la em uma visita ao pai, voltando 4 mil quilômetros em direção ao Ocidente, até Constantinopla. Servindo-se de um intérprete judeu, relatou ao imperador cristão suas impressões sobre Belém e Jerusalém, sendo recompensado com presentes e honrarias. Mas, recusou-se a ajoelhar diante da cruz, o que o impediu de visitar o interior da catedral de Santa Sofia. De volta à Rússia, teve que enfrentar o frio glacial. Vestia duas calças grossas, três casacos de pele e três pares de botas de diferentes materiais, além das roupas de baixo. Ficava tão atarracado que era incapaz de montar sozinho, precisando ser içado para cima do cavalo.

Uma árdua trajetória pelos territórios que correspondem hoje ao Uzbequistão, Tadjiquistão, Irã, Afeganistão e Paquistão, o levou finalmente à Índia. Ele já era, então, uma celebridade e viajava com um fabuloso cortejo composto por nobres persas, concubinas, eunucos, escravos e 20 cozinheiros. Para anunciar sua iminente chegada a Delhi, enviou velozes emissários com presentes ao sultão Ibn Tughluq. Este o nomeou juiz – cargo que desfrutou por sete anos.

Os giros da roda da fortuna

Nem tudo foram flores durante essa longa permanência, porém. Ibn Tughluq era um tirano temperamental, que não pensava duas vezes antes de presentear um amigo ou cortar a cabeça de um inimigo. O relacionamento com um certo místico, que caiu em desgraça por ofender o sultão, colocou o viajante em sério perigo. Sob prisão domiciliar, e sentindo já o frio da lâmina no pescoço, passou cinco dias recitando o Corão de ponta a ponta. A oração surtiu efeito: enquanto o místico subia ao cadafalso, ele foi perdoado. Agradecido pela graça alcançada, doou todos os seus bens, disposto a tornar-se um asceta.

Cinco meses depois, o sultão o nomeava embaixador na China. Ibn Battuta adaptou-se rapidamente à nova direção do vento, e deixou Delhi com uma comitiva digna das Mil e Uma Noites. Mas foi emboscado por rebeldes hindus e despojado até da roupa do corpo. Retomou sua missão após ser resgatado por tropas muçulmanas. Porém a roda da fortuna o arrastou outra vez para baixo: no dia em que ia zarpar rumo à China, quando ainda estava em terra, fazendo suas orações, uma violenta tempestade destruiu todos os navios que havia contratado, carregando para o fundo do mar escravos, cavalos e tesouros – presentes do sultão ao imperador chinês. E também seu próprio filho, que se encontrava a bordo. Com 10 dinares no bolso e sem coragem de relatar o infeliz acontecimento a Ibn Tughluq, decidiu chegar à China por conta própria.

Antes, dirigiu-se às Maldivas, para uma rápida visita. A rainha Khadija o persuadiu a ficar – a peso de ouro, pérolas e jovens escravas. O islamismo ainda não estava totalmente consolidado nas ilhas e as mulheres locais eram, então, muito livres em matéria de comportamento, saindo às ruas vestidas com simples tangas. Nomeado juiz na cidade de Male, Ibn Battuta tentou introduzir hábitos mais austeros. Porém não obteve sucesso. Parece não ter-se desapontado demais com isso. Ele se achava encantado com a sensualidade dos nativos, que atribuía a uma alimentação rica em coco e pescados. Certamente falava por experiência própria, já que se desdobrava para atender a quatro esposas e inúmeras concubinas. Poderia ter passado o resto da vida naquele paraíso tropical. Mas o espírito de aventura o colocou outra vez em marcha. Peregrinou a Sri Lanka para contemplar o que diziam ser uma pegada de Adão. E, na Indonésia, encontrou-se com uma princesa amazona, que comandava um exército de jovens guerreiras. Uma esticada a mais e chegava à China.

Anotou que este era um país “seguro e organizado”, onde se podia viajar sozinho durante meses, carregando grande soma de dinheiro, sem sentir qualquer temor. Exaltou a qualidade das porcelanas e das sedas. Mas escandalizou-se com os hábitos gastronômicos chineses, que incluíam carne de porco e de cachorro. Depois de tanto tempo fora, talvez tenha sentido saudades de casa. Engajou-se, então, em uma viagem de três anos, de volta ao Marrocos. Não demorou muito, porém. Logo estava na Espanha, junto com um regimento marroquino, enviado para defender os territórios islâmicos dos ataques cristãos. Debelada a ameaça, fez turismo na Andaluzia e regressou ao Marrocos, apenas para partir outra vez rumo às minas de sal do Mali.

Ele trabalhava agora para o sultão marroquino e empreendeu várias expedições pelo Saara, representando os interesses do governo no Níger e na Argélia. Seu tempo de aventureiro errante estava, porém, chegando ao fim. Atendendo a um pedido do sultão, passou dois anos ditando as memórias de suas andanças ao poeta andaluz Ibn Juzayy. Essa narrativa constitui uma excelente fonte documental sobre o século 14. Ibn Battuta queria finalmente criar raízes e aceitou um cargo de juiz em Fez. Experiente, talvez sábio, ele já não precisava mais buscar fora o que trazia dentro de si. Permaneceu na cidade até morrer, em 1369.

As impressões do observador

Sobre a Turquia

Ibn Battuta não poupou elogios à Turquia. “Nela”, disse, “Deus juntou as boas coisas que se encontram dispersas em outras terras. Sua população é a mais generosa, a mais asseada em sua indumentária, a mais deliciosa em sua culinária, a mais gentil na criação”. Mas surpreendeu-se ao descobrir que os turcos consumiam haxixe e não viam nenhum mal nisso. Em cada distrito, cidade ou aldeia, observou a presença de membros da Fraternidade Jovem, uma organização altamente disciplinada inspirada pelo sufismo. “Em nenhum lugar do mundo, você encontrará homens tão prontos a acolher, oferecer comida e satisfazer as necessidades dos outros”, afirmou.

Outro aspecto da cultura turca que encantou o viajante foi o tratamento dispensado às mulheres. “Elas possuem um status mais elevado do que o dos homens”, sublinhou. “Suas faces são visíveis, já que não usam véus. Às vezes, uma mulher sai à rua acompanhada por seu marido e qualquer um que o veja o tomará por um de seus servidores”. Mas ele notou que o bom trato não se estendia às escravas: “Os turcos compram belas escravas gregas e as empregam na prostituição. Cada garota tem que pagar uma quantia regular ao seu senhor. Eu ouvi dizer que essas garotas vão às casas de banho com os homens, e quem quer que deseje se dedicar à depravação pode fazê-lo nessas casas, sem que ninguém tente detê-lo”.

Sobre a Índia

A Índia tornou-se parte do mundo islâmico quando turcos muçulmanos, vindos do Afeganistão, subjugaram o país, no século 11. Os primeiros conquistadores saqueavam cidades e destruíam estátuas das divindades indianas. Mas, com o tempo, os sultões convenceram-se de que era mais sensato substituir os massacres pela cobrança de impostos. Porém, a maioria da população, principalmente nas áreas rurais, mantinha-se fiel às suas antigas crenças, e eram frequentes as rebeliões contra o governo. Para fortalecer a administração, os sultões precisavam de pessoal qualificado e procuravam atrair estrangeiros com altos salários e fabulosas mordomias. Foi assim que Ibn Battuta se tornou juiz.

Logo de início, recebeu uma confortável casa mobiliada e um salário anual de 5 mil dinares – mais de 80 vezes o rendimento de uma família indiana média. Em sua primeira entrevista com Ibn Tughluq, este o presenteou com um traje de honra e prometeu que o cumularia com tantos favores que seus conterrâneos marroquinos ouviriam falar disso e viriam juntar-se a ele. “Cada vez que ele me dirigia uma palavra encorajadora, eu beijava sua mão”, anotou o viajante. “No final, eu a havia beijado sete vezes”. No dia seguinte, o sultão desfilou em Delhi. Do alto de seus elefantes, catapultas arremessavam moedas de ouro e prata para a multidão.

Sobre as Maldivas

As ilhas Maldivas faziam parte daquilo que um historiador chamou de “civilização do coco e da concha”. Fibras de coco, utilizadas na fabricação de cordas, e belas conchas, empregadas como moeda na Malásia e partes da África, eram seus principais produtos de exportação. Por volta da metade do século 12, sua população convertera-se do budismo ao islamismo. Ibn Battuta não pretendia demorar no país, mas seu conhecimento da língua árabe e das leis do Corão eram um precioso atrativo para os dirigentes locais, que o pressionaram a aceitar o cargo de juiz. O viajante impôs uma condição: não se deslocaria pelas ruas de Male a pé, mas carregado em uma liteira ou a cavalo. E pediu em casamento uma jovem da família real. Casou-se, pouco depois, com mais três mulheres da aristocracia.

Satisfeitas todas as suas exigências, o novo juiz se arrogou o direito de disciplinar os habitantes com rígidas normas islâmicas: os homens que não atendessem à prece da sexta-feira seriam açoitados e submetidos à execração pública, os ladrões teriam suas mãos direitas cortadas e as mulheres deveriam se cobrir. É claro que não demorou a fazer inimigos. E teve que abandonar Male após nove meses de atritos. Levou junto três de suas mulheres, uma das quais estava grávida, mas divorciou-se delas pouco tempo depois. Em uma ilha próxima, casou-se com outras duas, das quais também se divorciou. Acerca do divórcio nas Maldivas, ele escreveu: “É fácil casar nessas ilhas devido ao pequeno valor do dote e aos prazeres sociais que as mulheres oferecem. Quando os barcos atracam, os tripulantes se casam; quando pretendem partir, se divorciam de suas mulheres. É um tipo de casamento temporário”.

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