Quem sou eu?

“Quem sou eu?”: quantas vezes já descartamos esta pergunta, por considerá-la óbvia, tola ou ociosa. Estamos convictos de saber quem somos. E a urgência das obrigações e distrações que nos impomos não deixa tempo para mais nada. Há tanto o que fazer com os novos brinquedos que a revolução tecnológica colocou em nossas mãos, nossos “contatos” virtuais são tão ciumentos, nossas “tarefas” virtuais são tão imperativas, estamos tão imersos no mundo físico: por que nos emaranhar em indagações metafísicas?

Mas, lançada para longe, a teimosa pergunta, às vezes, retorna. E nos coloca contra a parede. Quem somos nós? Um nome? Um gênero? Uma nacionalidade? Uma opção religiosa? Uma preferência sexual? Um partido político? Um time de futebol?

Lembro-me de uma definição de “homem” que li na infância: “mamífero bímano, bípede, de posição ereta e linguagem articulada”. Essa fórmula concisa, um primor do reducionismo científico, me informava, para minha tranquilidade, que eu não era um quadrúpede, nem um papagaio…

Em estado de transe, Mansur al-Hallaj (858 – 922), que viria a se tornar o primeiro mártir sufi, declarou : “ana ul-Haqq” – “eu sou a Verdade”, em árabe. Declaração radicalmente subversiva! Acusado de blasfêmia e heresia, Hallaj foi preso, torturado, crucificado e esquartejado pelos guardiões da ordem estabelecida. Ul-Haqq (a Verdade) é um dos 99 nomes de Deus mencionados no Corão. Para o pensamento daqueles que assassinaram o grande mestre, era inadmissível que qualquer outro, que não fosse o próprio Deus, reivindicasse a condição de ser a verdade. Porém, ao supor que pudesse existir outro além de Deus, eles, de fato, reduziam Deus à condição de “um entre outros”.

Comentando esse episódio trágico, Rumi (1207-1273) afirmou: “As pessoas imaginam que seja uma presunção dizer ‘eu sou Deus’, quando, em realidade, o presunçoso é dizer ‘eu sou um escravo de Deus’. Porque aquele que diz ‘eu sou um escravo de Deus’ afirma duas existências. Ao passo que aquele que diz ‘eu sou Deus’ afirma: ‘eu não sou nada; Ele é tudo; não há outro ser além de Deus’”

Hallaj sabia quem era. E, no afã de comunicar ao mundo o que sabia, escandalizou aqueles que não sabiam. Pagou seu entusiasmo com a vida. Por isso, Attar (c.1142–c.1220), outro luminar da senda sufi, afirmou: “Se querem saber do que o amor é capaz, considerem o exemplo de Mansur”.

Em um contexto cultural diferente, Sri Ramakrishna Paramahansa (1836 – 1886) pôde dizer, sem problemas: “jatra jiv tatra Shiv” – “onde estiver uma alma individual, lá estará Shiva”. Mas quantos de nós, que repetimos seu mantram, seríamos capazes de fazer desse monismo radical um programa de vida, utilizando-o como o solvente capaz de limpar nossos pensamentos, palavras e ações do senso de separação que os contamina?

Não faço a pergunta precedente de forma capciosa, como se afirmasse nas entrelinhas “vocês não são capazes, mas eu sim”. O pronome “nós” me inclui. Estou intelectualmente convencido de que o senso de separação é a suprema ignorância e a fonte de todo o sofrimento que existe no mundo. Mas como é difícil abrir mão dessa segunda pele!

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