A revolução espiritual

Sri Aurobindo Ghose (1872-1950): um autor indispensável para o entendimento do mundo atual

 

“A revolução espiritual espera sua hora. Enquanto isso, faz surgir suas vagas aqui e ali. Até que ela venha, o sentido das outras mudanças não pode ser compreendido. Até esse momento, todas as interpretações dos eventos presentes e todas as previsões do futuro humano são coisas vãs. Pois a natureza dessa revolução, sua potência e seu resultado são o que determinará o próximo ciclo de nossa humanidade.” (Sri Aurobindo Ghose, 1872-1950).

 

Não é preciso demonstrar: a crise global tornou-se autoevidente e seus sintomas parciais são diariamente veiculados pela mídia. Aos cenários desafiadores associados às mudanças climáticas, às pandemias e aos conflitos étnico-religiosos, acrescentou-se a renitente instabilidade econômica, que já afeta vários países, e pode se propagar.

Para além dos diagnósticos dos especialistas, que evidentemente devem ser considerados, existe outra e mais profunda dimensão nem sempre reconhecida na crise. Estaríamos vivendo, dizem os estudiosos de diversas tradições espirituais, uma decisiva transição em nosso processo evolutivo: um salto do atual patamar de consciência e realização para outro, incomparavelmente mais elevado. Nessa perspectiva, todas as dificuldades que enfrentamos ou venhamos a enfrentar precisariam ser relativizadas. Pois, tão dolorosas quanto possam ser, ofereceriam a promessa de um final feliz, equivalendo, em escala planetária, à luta titânica do bebê para emergir da penumbra intrauterina na clara luz do dia.

 

Condições completamente maduras

Em 15 de agosto de 1925, no dia de seu 53o aniversário, Sri Aurobindo Ghose, o excepcional filósofo, iogue e mestre espiritual indiano, declarou a seus discípulos que as condições para o grande salto evolutivo estavam completamente maduras. Mas que havia, no seio da humanidade, uma enorme resistência à mudança. “Quanto mais a Luz e o Poder se derramam sobre nós, maior a resistência. Vocês mesmos podem perceber que há algo pressionando para baixo. E que há uma tremenda resistência”, afirmou. Sabemos o que aconteceu depois. A resistência foi forte demais. O salto evolutivo não pôde ocorrer. E a humanidade se encaminhou para o maior conflito bélico da história, a Segunda Guerra Mundial, com dezenas de milhões de mortes e uma incalculável destruição de recursos materiais e intelectuais.

Os estudiosos consideram que as condições são ainda mais favoráveis agora do que eram na década de 1920. Mas o sucesso desta travessia coletiva dependeria do esforço individual de cada um. Quando mais nos empenharmos no avanço da consciência, quanto mais pautarmos pela consciência nossos pensamentos, palavras e ações, quanto mais pessoas conseguirmos chamar para essa grande jornada, menor será o sofrimento causado pela crise e maior será a probabilidade de fazer dela o trampolim para um futuro brilhante.

 

Terceiro grande salto

Segundo Aurobindo, nosso planeta já passou por dois grandes saltos evolutivos. O primeiro foi a transição da matéria não viva para a matéria viva. Para avaliar sua importância, basta imaginar um cenário puramente mineral, formado por rochas, areia e água. E compará-lo com a paisagem terrestre real, coberta de vegetação e povoada por animais de toda espécie. O segundo foi a transição da matéria viva para a matéria mentalizada. E, neste caso, deve-se considerar a paisagem terrestre ocupada por cidades, redes de comunicação e tudo aquilo que é produto da mente humana.

De acordo com o filósofo, assim como a matéria não viva evoluiu ao ponto de poder acolher a “descida” do vital (prana) e ser impregnada e transformada por ele, e assim como a matéria viva evoluiu ao ponto de poder acolher a “descida” do mental (manas) e ser impregnada e transformada por ele, também a matéria mentalizada, que é o próprio ente humano, estaria agora pronta para manifestar dois estágio de consciência ainda mais elevados, que chamou de “sobremental” e “supramental”, correspondentes à “descida” e “ancoragem” de duas instâncias superiores: vijnana e ananda.

A respeito desse terceiro grande salto evolutivo, Aurobindo escreveu: “A mudança efetuada pela transição da mente para a supermente não é apenas uma revolução no conhecimento ou em nosso poder de conhecer. Para que seja completa e estável, deve ser também a transmutação divina de nossa vontade, de nossas emoções, de nossas sensações, de todo o nosso poder de vida e de suas forças, e, finalmente, até da própria substância e funcionamento de nosso corpo. Só então se poderá dizer que a supermente está sobre a Terra, enraizada na própria substância terrestre e incorporada em uma nova espécie de criaturas divinizadas”.

 

Processo já em andamento

Na perspectiva aurobindiana, a revolução supramental não é um projeto para o futuro distante. Mas um processo que já estaria em andamento e cujo desfecho ele considerava iminente. Desse ponto de vista, a atual crise planetária, com todos os seus desdobramentos (ambiental, econômico, social, político, cultural etc.), decorre do fato de essa transição não ter ainda se completado. E, por outro lado, é a própria condição para que tal complementação ocorra.

O tema é radicalmente não usual. E as explicações e argumentações de Aurobindo contradizem frontalmente o paradigma dominante. É compreensível que suscitem reações apressadas, contra ou a favor. Redigi este pequeno artigo como um convite à leitura da obra de Aurobindo – uma leitura difícil, trabalhosa, porém a cada dia mais necessária [*].

 

Nota

[*] Aurobindo é autor de uma obra gigantesca – infelizmente pouquíssimo conhecida no Brasil. Escrito em um inglês sofisticado e povoado por raciocínios que vão ao limite da lógica e o ultrapassam, seu principal livro, The Life Divine, é um desafio à atenção e à persistência do leitor. Como outras obras aurobindianas, esse livro seminal aguarda uma tradução que lhe faça justiça em língua portuguesa.

 

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