O som e o silêncio: portas para o Absoluto

Saraswati, a deusa associada à música e à poesia na espiritualidade indiana. Pintura de Raja Ravi Varma (1848-1906).

Na espiritualidade indiana, Aum, o Som Primordial, é a primeira manifestação do Divino. Imagine um oceano infinito. Um oceano imóvel. Um oceano vazio. Mas que contenha, em estado potencial, tudo o que pode vir a ser. Aum é a efetivação que transforma a potência em ato. A efusão que faz com que o vazio se preencha. A ondulação que põe o oceano em movimento. Aum é o “Faça-se!”. Também a espiritualidade cristã afirma: “No princípio, era o Verbo”.

Porém o Aum de que falamos não é o som articulado e audível, que necessita de um meio material para se propagar. Segundo os Vedas, as sagradas escrituras indianas, o som articulado e audível é apenas o quarto e último estágio do som. Há três estágios anteriores. O Som Primordial, que antecede a toda a matéria e produz o universo, é o primeiro. Aum não é a voz de Deus, mas o próprio Deus, manifestando-se como vibração.

Pela repetição de Aum, entoado em voz alta, em voz baixa ou em silêncio, o iogue sintoniza, pouco a pouco, sua consciência com o Divino, até identificar-se completamente com ele, em êxtase místico. Por isso, quase todos os mantras, as frases sagradas das tradições indianas, começam com Aum – ou com Om, que é a forma exteriorizada de Aum. Aum é a fonte oculta do poder dos mantras.

O emprego do som como veículo para estados superiores de consciência não é um procedimento exclusivo da espiritualidade indiana. De fato, ele está presente em todas as tradições espirituais autênticas. Cânticos, palmas, batidas de pés, execução de instrumentos acompanham os rituais religiosos desde tempos imemoriais. O xamã pré-histórico tinha suas “canções de poder”, recebidas diretamente do plano espiritual ou que lhe eram transmitidas pelos sons da natureza (o pio da coruja, o uivo do lobo, o marulho do riacho, o farfalhar do pinheiro etc.). No candomblé afro-brasileiro, cada orixá é invocado com um toque específico do atabaque. E os padres cristãos do Monte Atos, na Grécia, até hoje alcançam o transe místico utilizando uma técnica que sincroniza a recitação do Kyrie Eleison (“Senhor, tende misericórdia”) com o ritmo respiratório. Procedimento semelhante é adotado por cabalistas judeus e sufis muçulmanos.

Da simplicidade dos cânticos sagrados guaranis à complexa arquitetura sonora das missas de Bach, a música é um componente indispensável da prática espiritual.

O Zikhr, palavra árabe que significa “Recitação”, mas também “Recordação”, é a principal prática do sufismo, a mística muçulmana. No Zikhr, os praticantes buscam recordar a verdadeira natureza humana, de entes que vivem no mundo da matéria, mas pertencem ao mundo do espírito. Em círculo, de olhos fechados, com movimentos ritmados da cabeça (da direita para a esquerda e de cima para baixo), acompanhados por uma respiração cada vez mais forte e cadenciada, as pessoas repetem, durante um longo tempo, a frase La ilaha ill’Allah (“Não há deus senão Deus”), ao som de instrumentos.

Em uma interpretação superficial, essa frase consiste na negação do politeísmo (os deuses) e na afirmação do monoteísmo (Deus). Mas os sufis lhe atribuem um significado muito mais profundo. De seu ponto de vista, ela significa “Não há ser senão o Ser” ou “Não há realidade senão a Realidade”. Isto é, não apenas existe um Deus, mas Deus existe. O que equivale a dizer que todo o Cosmo, com sua incrível multiplicidade de entes e fenômenos, repousa sobre uma unidade fundamental, pois é uma teofania, ou manifestação da Divindade única.

A recitação musical dos sufis muçulmanos culmina no silêncio. E a cabala judaica ensina que mais poderosa do que a prece pronunciada, constituída de palavras audíveis, e do que a prece mental, constituída de pensamentos conscientes, é a prece silenciosa, constituída da completa entrega ao Divino. Por meio do silêncio, o praticante alcança um estado de consciência superior ao da fala e ao do pensamento. Silencia para que Algo maior se expresse. É a esse estado superior de consciência que alude o Salmo quando diz: “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus”.

Na espiritualidade indiana, esse silêncio verbal e mental é chamado de Mauna Yoga. Sri Aurobindo Ghose (1872-1950), um dos maiores iogues da era contemporânea, explica o poder de tal prática: “Quando o mental mergulha no silêncio é que, mais frequentemente, se produz a completa descida de uma vasta paz, vinda do alto. E, nessa vasta tranquilidade, dá-se a realização do Eu silencioso, situado acima do mental”.

Para melhor entender a frase de Sri Aurobindo, é preciso levar em conta que, segundo os sábios indianos, o Atman (o núcleo divino que constitui nosso Eu verdadeiro) se reveste de cinco corpos. De “dentro” para “fora”, isto é, do mais sutil ao mais denso, são eles: o corpo espiritual (Anandamayakosha), o corpo intelectual (Vijnanamayakosha), o corpo mental (Manomayakosha), o corpo vital (Pranamayakosha) e o corpo físico (Annamayakosha).

  • O corpo físico, constituído pela matéria comum (anna), é aquele acessível aos sentidos (visão, audição, tato, olfato, paladar) ou às detecções convencionais por aparelhos (radiografia, ultrassonografia, tomografia etc.);
  • O corpo vital, constituído por uma rede de vórtices (chakras) e canais (nadis) pelos quais flui uma “energia sutil” (prana), é aquele que confere a vida ao corpo físico;
  • O corpo mental, constituído pela mente ordinária (manas), é o palco da atividade psíquica inferior: os sentimentos, imaginações e pensamentos que povoam o estado de vigília e a maior parte dos sonhos;
  • O corpo intelectual, constituído pelo intelecto (vijnana), é o palco da atividade psíquica superior: a intuição mística; a alta inspiração filosófica, científica ou artística; a percepção e o impulso criativo que ultrapassam o senso comum e o repertório adquirido;
  • O corpo espiritual, constituído por um sutilíssimo envoltório de contentamento, felicidade ou beatitude (ananda), é a sede de experiências espirituais extremamente elevadas.

Ágeis e agitados, os corpos vital e mental ocupam a maior parte de nossa atenção. O vital é frequentemente perturbado por impulsos primários relacionados com a sobrevivência, a sexualidade e o poder. O mental é a fonte de emoções mais sofisticadas, porém não menos turbulentas, e do “diálogo” exaustivo que ocorre em nosso interior. Muito próximos, o vital e o mental estão em constante comunicação. O que ocorre em um repercute imediatamente no outro. Na linguagem do teatro, eles são como aqueles atores que “roubam a cena” e não deixam ninguém mais “aparecer”. Por isso, nos surpreendemos quando uma “voz” diferente se pronuncia dentro de nós. Como raios caídos do céu azul, esses lampejos desafiam nosso senso de identidade. Na verdade, são expressões de nossos corpos superiores (o intelectual e o espiritual) ou do próprio Eu, que conseguem ultrapassar a barreira de ruído produzida pelo vital e o mental e irromper no plano consciente.

A prática sistemática do silêncio visa aquietar o prana e a mente ordinária e promover um acesso estável aos níveis mais altos.

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  1. O Repouso da Alma (um texto de Rumi) « José Tadeu Arantes

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