Palani, santuário de Murugan

A escadaria que leva ao templo de Palani, fotografada à noite pela Márcia (outras imagens de Palani estão disponíveis, neste Blog, na seção Fotos).

Para aquele que a visita, Palani é o diferente, o inusitado, o talvez nunca imaginado. O visitante deverá abrir mão de suas noções usuais de conforto, higiene e racionalidade, para acolher as estranhas maravilhas que esta cidade tem a oferecer. Estamos no estado do Tamil Nadu, no sul da Índia. E Palani é um lugar de peregrinação, onde se localiza o mais importante santuário de Murugan, o filho mitológico de Shiva.

Conhecido por 1.008 nomes diferentes, Murugan é considerado uma manifestação juvenil do Deus Supremo. Ele é o Sanat Kumara (Eterno Adolescente), o Jnana Pandita (Expositor da Sabedoria), o Kali Yuga Varada (Aquele que Abençoa e Protege os que Buscam sua Graça na Era dos Conflitos – a época em que vivemos). É o Filho que desce à Terra como Salvador. Há inúmeras semelhanças entre Murugan, Dioniso (divindade da mitologia grega) e Jesus. Alguns estudiosos acreditam que os três expressem o mesmo Arquétipo Divino, que se manifesta de formas diferentes de acordo com o contexto cultural.

Ao contrário da história cristã, porém, o mito de Murugan é alegre. Nele não há sofrimento nem morte sacrificial. Apenas beleza, charme e astúcia.

A lenda da deidade

Diz a lenda que, durante mil anos celestes, Shiva (o Princípio Masculino) e Shakti (o Princípio Feminino) se entregaram ao seu jogo amoroso, indiferentes aos destinos do mundo. Enquanto isso, o comandante dos assuras (que correspondem aos titãs da mitologia grega), cujos poderes haviam crescido exponencialmente, fazia tremer a Terra e os Céus e ameaçava estender seu domínio sobre o Cosmo inteiro. Apavorados, os devas (que correspondem aos deuses da mitologia grega) dirigiram-se ao Casal Supremo em busca de ajuda. Distraído pelo chamado, Shiva, que na cópula milenar retivera o orgasmo, perdeu a concentração e emitiu seu sêmen. Esse líquido dourado e incandescente, cujo ardor nenhuma criatura conseguia suportar, foi depositado nas águas sagradas do rio Ganges, junto a um pântano de caniços. Dele nasceu Murugan, uma criança maravilhosa, cuidada e alimentada pelas seis Plêiades.

Seis é o número de Murugan. Porque, às cinco atividades divinas de Shiva (a criação, a manutenção e a destruição do Cosmo e o obscurecimento e o esclarecimento da consciência), ele acrescenta uma sexta: a de “olhar para baixo”, isto é, a de se compadecer dos problemas do mundo e se engajar na salvação da humanidade. Ao atingir a adolescência, Murugan assumiu o comando do exército dos deuses na luta pelo restabelecimento do equilíbrio cósmico. Com a lança que lhe foi dada pela Shakti, a Mãe Divina, derrotou e dividiu ao meio o comandante dos titãs: uma metade ele transformou no galo (símbolo do Paranada, o Som Primordial) e a outra no pavão (símbolo do Parabindu, a Forma Primordial), que adotou como animais tutelares.

Sua lança, o Shakti Vêl, representa, no macrocosmo, o Eixo do Mundo, e, no microcosmo, o Sushumna, o canal central de “energia sutil” que flui da base da coluna ao topo da cabeça, e conecta os sete chakras principais. O chakra mais alto, o sahasrara, é considerado a morada de Shiva, e a porta para o Absoluto. Os seis outros são tidos como cidadelas de Murugan, porque, em cada um deles, o Jovem Deus luta para restabelecer a harmonia entre as tendências titânicas (inconscientes, pré-pessoais, instintivas) e as tendências divinas (superconscientes, transpessoais, transcendentes) presentes no humano.

A peregrinação a pé

O pada yatra, ou peregrinação a pé, é uma das principais formas de devoção a Murugan. Por isso, quilômetros antes de chegar a Palani, confortavelmente instalados em um ônibus com ar condicionado, começamos a ver os peregrinos. Eles são muitos. Caminham descalços, apesar do asfalto escaldante debaixo dos pés. Alguns não levam nada além das roupas do corpo, geralmente confeccionadas nas cores favoritas do Deus: verde, laranja e vermelha. São homens, mulheres e crianças, que olham, sorriem e acenam. Uns cantam, tocam tambores ou cornetas, carregam pesados andores ornamentados com penas de pavão. Outros, exaustos, dormem no acostamento da estrada, nos pátios das edificações existentes ao longo do caminho ou na relva que se estende à sombra dos coqueirais. Para grande parte desses peregrinos, em sua maioria camponeses pobres, a distância a ser vencida a pé chega a alcançar oitenta quilômetros.

É comum que os pais mandem os filhos e filhas – ainda crianças – sozinhos. Os outros peregrinos e os moradores da região cuidam deles e tudo termina bem. Pois, se há uma coisa na jornada tão notável quanto a devoção, esta é a solidariedade dos participantes. Todo mundo cuida de todo mundo. A alegria é contagiante e cresce à medida que nos aproximamos da cidade. O templo, no alto de uma colina, é visível de onde quer que se olhe e é para ele que todos os olhares de voltam.

Quanto mais perto dele, mais densa se torna a multidão. Homens que vestem simples dhotis enrolados na cintura, mulheres envoltas em seus sáris mais preciosos, jovens e crianças que cortaram os cabelos para oferecê-lo à deidade, com as cabeças raspadas e coloridas com cúrcuma. O contraste dos dentes brancos com a pele muito escura, as marcas de vibhuti (cinzas sagradas) nas testas, os incontáveis colares de rudraksha (um tipo de semente especificamente associado aos cultos do ramo shivaista) pendurados nos pescoços fazem com que todos se tornem lindos. Vendedoras de guirlandas e oferendas de flores naturais, barracas com as mais improváveis bugigangas, uma elefanta que amamenta seu elefantinho (ao contrário da vaca, cujas tetas se localizam entre as patas traseiras, a elefanta as tem, “humanamente”, na parte da frente, entre as patas dianteiras) compõem um cenário que excede qualquer fantasia.

A subida da colina

Palani não é lugar de turistas. Por isso, os peregrinos sentem tanta curiosidade a nosso respeito quanto nós sentimos a respeito deles. Mas o sorriso é uma linguagem universal. E as diferenças se tornam ainda menos relevantes quando, descalços e vestidos com simplicidade indiana, iniciamos a subida da colina. A primeira reverência é para Ganesha, o Deus com cabeça de elefante, “irmão mais velho” de Murugan. Na mitologia shivaista, ele é o Guardião das Passagens, o Senhor dos Obstáculos, Aquele que Fecha e Abre os Caminhos. Por isso, deve ser saudado antes de todos. A partir da capela de Ganesha, situada no pé da colina, estende-se a escadaria que leva ao topo. Deveria ter 1008 degraus, pois 1008 é o número místico por excelência. Mas, devido a um erro de cálculo, ficou um pouco menor. Mesmo assim, a escalada demanda quase uma hora. E que escalada! Cada degrau tem ao menos uma pedra de cânfora acesa. Os peregrinos vão subindo e se abençoando com sua fumaça. Junte-se a isso o cheiro das varetas de incenso, das guirlandas de jasmim, da manteiga clarificada, dos sucos de frutas, da água de coco e das centenas de corpos que sobem e descem. E os sons de trombetas, tambores, sinos, guizos, cânticos, invocações, mantras e simples conversas.

Quem vem no sentido contrário, e desce, ostenta, com eloquente felicidade, as marcas da pasta amarela composta pelos materiais oferecidos ao Deus durante os pujas, os rituais de adoração. Na troca de olhares com quem sobe, uma infinidade de sentimentos e conhecimentos é comunicada.

Envolta em seu sári verde, uma mulher idosa e exausta agarra o braço da Márcia em busca de ajuda. Diminuímos o ritmo para ampará-la e, com o entusiasmado incentivo dos jovens, ela consegue chegar ao topo.

A circum-ambulação do templo

Antes de entrar no templo propriamente dito, é preciso circundá-lo no sentido horário, reverenciando, uma após outra, as várias imagens instaladas nas capelas que rodeiam o edifício principal. Mais do que uma simples homenagem, essa circum-ambulação constitui uma prática meditativa, que propicia a interiorização, elevação e estabilização da consciência, e possibilita aos devotos entrar em ressonância com os conteúdos espirituais associados aos deuses, planetas e siddhas (“iogues perfeitos”) representados pelas figuras.

Dedicamos atenção especial à capela que assinala o local onde o siddha Boganathar, mestre espiritual de Babaji, atingiu a suprema iluminação e foi visto pela última vez, antes de desaparecer misteriosamente deste mundo. Boganathar é considerado o construtor do templo de Palani e o artesão da estátua de Murugan, instalada no Sancta Santorum, o coração e a parte mais sagrada do edifício.

Segundo a tradição, quando se iniciou a presente era planetária, os siddhas reuniram-se em assembleia para deliberar qual seria a prática espiritual mais adequada para os homens e mulheres do novo tempo que começava. E concluíram que, para a grande maioria, crescentemente identificada com a realidade material, e distraída pelas obrigações e seduções do mundo, a meditação e outras práticas austeras haviam se tornado muito difíceis. Mas que a evolução humana poderia continuar a ser favorecida por meio da devoção. O siddha Boganathar foi, então, encarregado de produzir um ídolo que se tornasse o foco por excelência dos rituais devocionais.

Supremo alquimista que era, produziu esse objeto por meios alquímicos. Com o auxílio de um de seus grandes discípulos, o siddha Pulipani, Boganathar juntou 4448 ervas raras, com as quais confeccionou nove compostos (nava pashanam); misturou, em seguida, oito deles em um molde e empregou o nono como catalisador; o processo resultou em um material mais duro do que o granito. Várias análises de amostras da estátua, realizadas recentemente por uma comissão científica, que recorreu inclusive a técnicas sofisticadas, como a espectrofotometria de absorção atômica, não permitiram determinar de que material ela foi feita.

O ritual devocional

Feito o ídolo, Boganathar estabeleceu também a forma do puja, ou ritual de adoração. Ele é composto por três etapas: abishekam (lavagen), prasad (oferenda) e alankaram (paramentação). No abishekam, a estátua é lavada com 12 produtos diferentes, entre eles, leite, iogurte, óleo de gergelim, água do rio Varattar, água de coco, água de rosas, caldo de cana, sucos de frutas, pasta de sândalo e um doce de banana, passas e açúcar chamado panchamirtam. No prasad, são-lhe oferecidas flores e outras preciosidades, queimadas no fogo ritual. No alankaram, enfim, ela é vestida, sucessivamente, com trajes de príncipe, caçador, menino e asceta, que correspondem a quatro momentos do mito de Murugan.

Separado dos fieis por uma pesada porta de ouro maciço e cortinas, o ídolo é escondido e exibido várias vezes durante o ritual, suscitando a cada mostra gritos espontâneos de emoção. Soar de trombetas, badalar de sinos, recitação de ladainhas, a iluminação das lamparinas de óleo de coco, o odor da queima de incensos e toda a elaborada gesticulação dos sacerdotes transformam o puja em um espetáculo impressionante, que se prolonga por cerca de uma hora. E os pujas se sucedem das 5h30 às 20h, exceto nos dias de festivais, quando começam ainda mais cedo.

Repetidas várias vezes ao dia, todos os dias, por um número incontável de anos, as “lavagens”, feitas com materiais açucarados e gordurosos, recobriram a estátua com uma pátina microbiana, composta por bilhões de bactérias. O material foi analisado pelos cientistas. No entanto, os fiéis consideram que o líquido que escorre dos abisheka (plural de abishekam), recolhido no pedestal e oferecido com açúcar mascavo aos participantes, é um poderoso remédio para todos os males. Tivemos a oportunidade de experimentar uma boa quantidade dele: é delicioso e ninguém que o consumiu ficou doente.

Diz a tradição que Boganathar produziu duas outras estátuas de Murugan. Ocultas pelo siddha sabe-se lá desde quando, elas serão “descobertas” no devido tempo.

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Nota: Conduzido por meu professor, Satchidananda, e por sua esposa, a excelente instrutora de ioga Durga, e em companhia de minha própria esposa, Márcia, e de amigos de vários países, visitei o santuário de Palani em 2007. Graças aos contatos de Satchidananda, tivemos o privilégio de assistir, na “primeira fila”, o complexo ritual realizado no interior do tempo. E também de conhecer o ashram (eremitério) do siddha (“iogue perfeito”) Pulipani, situado na base da colina de Palani. Esse ashram, mantido há séculos pelos sucessores de Pulipani, é um oásis de calma e silêncio em meio à balbúrdia indiana.

De volta ao Brasil, minha amiga Deborah de Paula Souza, então editora da revista Cláudia, me encomendou uma reportagem sobre essa visita. Escrevi-a a quatro mãos, com a colaboração da Márcia. Tal reportagem, à qual acrescentei depois várias informações “eruditas”, serviu de base para esta postagem. Apesar de todas as modificações feitas, ainda dá para perceber, aqui e ali, um pouco do encantador estilo da Márcia.

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3 Comentários

  1. karolynne

     /  21 de janeiro de 2013

    que legal, quero ir lá, e se possível com vcs!!! haha

    Responder
  2. Gostei, Tadeu! Gosto do sabor do texto de dois temperos. Dá para identificar perfeitamente o que é Tadeu e o que é Márcia rs. E, caramba, que lugar incrível!

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  1. Palani, Índia, 2014 | José Tadeu Arantes (Kabir)

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