Um vislumbre da tradição taoista

Imagem clássica de Laozi (Lao Tsé). Segundo a tradição, o grande mestre deixou a China montado em um búfalo.

Os Upanishads – antigos tratados místico-filosóficos indianos – dizem que “a verdade é uma só, embora os sábios a chamem por diferentes nomes”. Com ligeiras variações de estilo, essa mesma afirmação foi repetida inúmeras vezes por grandes mestres de diversas épocas e lugares. Ela expressa a compreensão profunda de que as tradições espirituais, que tanto se diferenciam pela forma exterior, possuem um núcleo comum, quase sempre oculto ao olhar desatento. São como as múltiplas facetas de um mesmo diamante, traduzindo uma verdade eterna em termos apropriados aos distintos contextos culturais e aos diferentes temperamentos humanos. Essa suposição torna-se ainda mais justificável quando se percebe a oculta linha de transmissão que liga uma tradição a outra [1].

Já comparamos o encadeamento histórico das tradições espirituais à ramificação de uma grande árvore, que tem o xamanismo por raiz e o shivaismo por tronco. Com o taoismo, alcançamos um dos primeiros galhos dessa árvore hipotética. Assim como a vitalidade do vegetal se comunica do tronco aos galhos, uma secreta linha de transmissão parece conectar espiritualmente o shivaismo ao taoismo.

Alguns leitores talvez se surpreendam com tal afirmação. Afinal, poucas coisas soam tão caracteristicamente chinesas quanto o taoismo. E seu extremo despojamento formal – depurado como uma pedra bruta ou uma peça de madeira rústica – parece diferir em tudo da atordoante multiplicidade de formas e enredos mitológicos que reveste o shivaismo indiano. Vários autores sustentam, de fato, o caráter autóctone do taoismo, cujas primeiras manifestações remontariam à pré-história da China. No entanto, uma antiga narrativa, associada à tradição dos siddhas, os “iogues perfeitos”, propõe outra origem e tal proposição esclarece muitos aspectos obscuros do taoismo, permitindo-nos enxergá-lo com olhos completamente novos.

Segundo esse relato, os “imortais”, de que falam os taoistas, não seriam outros senão os próprios siddhas, que, pela prática intensiva de várias disciplinas ióguicas, teriam alcançado a plena realização das potencialidades divinas latentes no homem, inclusive a imortalidade física. Viria do shaiva siddhanta – a tradição dos siddhas – a intuição do Tao (Dao) como realidade absoluta, primeira e última, indescritível, inimaginável e inconcebível, da qual todos os entes e fenômenos do mundo não são mais do que manifestações. Os termos Yang e Yin , que expressam os princípios arquetípicos masculino e feminino, resultariam da pronuncia  chinesa das palavras indianas lingam (pênis) e yoni (vagina). E o corpo de conhecimentos científicos taoistas – que inclui uma alquimia e uma medicina altamente desenvolvidas – poderia com facilidade ser remontado aos saberes acumulados pelos grandes iogues devotos de Shiva.

Conforme a referida narrativa, mestres indianos visitaram a China em tempos muito remotos e lá estabeleceram um de seus mais importantes centros de ensinamento. É deles que falaria o Tao Te Ching (Daodejing) em um de seus mais belos poemas:

“Os sublimes mestres eram, nos primórdios,

De corpo sutil e espírito penetrante,

Tão profundos que não se podia reconhecê-los.

Por não se poder reconhecê-los,

Impõe-se expor seus traços:

Prudentes!

Como a transpor um curso d’água hibernal.

Alertas!

Como a temer os vizinhos ao derredor.

Respeitosos!

Como hóspedes.

Evanescentes!

Como gelo ao derreter.

Autênticos!

Como madeira rústica.

Vazios!

Como um vale.

Obscuros!

Como água turva.

Quem pode pelo repouso clarear, pouco a pouco, o turvo?

Quem pode pelo movimento avivar, pouco a pouco, a paz?

Quem vigia esse Curso (Tao) não deseja saturar,

E, por não saturar, pode consumir, renovando-se.” [2]

A tradição conservou o nome do mais antigo desses mestres, o siddha Kalangi Nathar, nascido em Kasi (Benares) e pertencente à linhagem dos nava nath sadhus (nove ascetas sagrados), que teriam sido iniciados nos segredos do ioga pelo próprio Shiva. Diz o relato tradicional que, depois de instruir os chineses por um número incontável de anos, Kalangi Nathar decidiu se afastar temporariamente das atividades mundanas, para mergulhar na imensidão do samadhi, o êxtase místico. Para dar continuidade à sua obra, chamou à China seu antigo discípulo Boganathar, um indiano de etnia tamil que, transmigrando seus corpos sutis para o corpo físico de um chinês morto, se tornou conhecido pelo nome de Lao Tsé (Laozi).

Como ocorre com outros siddhas, a biografia de Boganathar está envolta pela aura do mito e no que se afirma a seu respeito é impossível discriminar onde termina o fato e começa a lenda [3]. Meu professor Govindan Satchidananda, presidente da Babaji’s Kriya Yoga Order of Acharyas, e o mais autorizado divulgador da tradição dos siddhas na atualidade, resume essas afirmações em seu livro Babaji and the 18 siddhas kriya yoga tradition. Segundo Satchidananda, Boganathar foi um mestre consumado do ioga tântrico, que utiliza a sexualidade como via de acesso à iluminação espiritual. E também da kaya kalpa, a ciência do rejuvenescimento, da longevidade e da imortalidade. De acordo com o relato tradicional, resumido por Satchidananda em seu livro, Boganathar, na forma de Lao Tsé, teria vivido na China durante o sexto século antes de Cristo.

Trata-se de uma afirmação bastante polêmica. Limito-me a mencioná-la aqui, sem intenção de convencer os leitores [4]. Registrada essa hipótese desafiadora, vejamos o que a própria tradição taoista diz a respeito de Lao Tsé. Os dados – se é que existem – são os mais escassos.

Diz a lenda que Lao Tsé passou 81 anos no útero de sua mãe. Por isso, já nasceu velho e sábio. O número 81 não é casual. O Tao Te Ching (Daodejing) é composto por 81 poemas. Invertendo a ordem dos algarismos, temos 18, a cifra mística por excelência. Somando os algarismos, temos 9, a representação numérica da Grande Deusa, que expressa a ideia de totalidade. E 81 é igual a 9 ao quadrado, isto é, 9 vezes 9.

Consta que Confúcio teria visitado certa vez Lao Tsé, para interrogá-lo acerca dos antigos ritos. Dificilmente seria possível reunir dois temperamentos tão divergentes. De um lado, o asceta indiferente às convenções sociais, que, mais do que ninguém, devia corresponder à sua própria descrição dos “sublimes mestres” dos primórdios, autênticos como madeira rústica. De outro, o grande intelectual habituado às sofisticações da vida cortesã.

Após ouvir a demanda de Confúcio, Lao Tsé o teria repreendido severamente: “O senhor está falando de homens com os ossos já apodrecidos, dos quais só as palavras ficaram em nossos ouvidos. Além disso, o homem nobre, quando os tempos lhe são favoráveis, conduz sua carruagem. Quando os tempos não lhe são favoráveis, dissemina-se como framboesa ao sabor do vento. Ouve-se dizer que um bom comerciante esconde no fundo seu estoque e o armazém parece vazio. Assim também o homem nobre, repleto de virtudes, ostenta no semblante parvoíce. O senhor afaste o seu ar arrogante e os seus desejos excessivos, suas atitudes maneiristas e suas intenções libertinas. Nada disso é de proveito para sua pessoa. Só isso tenho a lhe dizer e nada mais”.

Confúcio retirou-se e disse depois, humildemente, aos seus próprios discípulos: “Eu sei que a ave pode voar; eu sei que o peixe pode nadar; eu sei que os animais selvagens podem correr. É possível tecer rede para os que correm; é possível deitar linhas para os que nadam; é possível armar dardos para os que voam. Chegando ao dragão, porém, eu não posso saber como ele sobe aos céus, galgando vento e nuvens. Hoje, eu vi Lao Tsé. Como ele se assemelha ao dragão!”.

Nos dois primeiros versos do Tao Te Ching, Lao Tsé já afirma a impossibilidade de se definir o Tao: “O curso que pode ser discursado não é o Curso Eterno (Tao). O nome que pode ser expresso não é o Nome Eterno”. Essas palavras traduzem a compreensão profunda de que a Realidade – com inicial maiúscula – está sempre além de nossas construções racionais, por melhores que elas possam ser. Quem sabe não fala. Quem fala não sabe. Falar do Tao já é afastar-se dele, pois, quanto mais prolixa a fala, maior a barreira verbal entre o sujeito falante e o objeto falado. O que Lao Tsé proclama, nestes versos e em outros, são os limites da razão e da própria linguagem, incapazes de alcançar e abarcar a realidade última. Será que isso configura uma visão de mundo irracionalista, como pretendem alguns críticos superficiais do taoismo, que insistem em medir o oceano com a colherinha de café de seu próprio repertório conceitual?

Com base nessa absurda suposição, já foi descartada a própria possibilidade de uma ciência taoista – o que é um flagrante desrespeito às evidências históricas. Ora, afirmar os limites da razão não é o mesmo que lhe negar qualquer capacidade cognitiva. A razão é um instrumento legítimo e eficaz, desde que não extrapole seu âmbito operacional. Os sábios taoistas certamente sabiam disso. E, assim como os siddhas, construíram um poderoso corpo de conhecimentos científicos, dos quais a medicina tradicional chinesa é apenas o exemplo mais conhecido.

Apesar da radical diferença de princípios, a pressão dos séculos – que, como a água, lima todas as arestas – acabou produzindo uma síntese entre o taoismo e o confucionismo. Ela se manifestou no chamado neoconfucionismo, cuja expressão mais famosa é o I Ching (Yijing), o Livro das Mutações, que combina a profunda inspiração taoista com uma estruturação analítica e hierárquica do conhecimento tipicamente confuciana. Vulgarmente utilizado como oráculo, o I Ching é bem mais do que isso, constituindo, na verdade, um tratado de psicofísica, que correlaciona o macrocosmo e o microcosmo, os grandes ciclos da natureza e os pequenos ritmos que regem a vida humana. Seu princípio geral antecipa em séculos o pensamento sistêmico e a teoria dos fractais.

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Notas

[1] Uma versão anterior, mais extensa, deste texto foi publicada como capítulo de meu livro Do xamã ao Prêmio Nobel. Nesta postagem, eliminei um longo trecho, onde procurava interpretar alguns diagramas associados ao I Ching, que reelaborei e publiquei no blog separadamente.

[2] Esta versão em língua portuguesa baseia-se em uma primeira tradução feita por Mário Bruno Sproviero, grande especialista em língua e cultura chinesas. Tive acesso a tal tradução em contato pessoal com Sproviero. Posteriormente, buscando uma correspondência a mais exata possível com as frases do chinês clássico, ele modificou bastante seu texto. No entanto, como o próprio Sproviero admite, a inteligibilidade dessa segunda versão tornou-se bem mais difícil. Quem quiser conhecê-la, pode acessar o texto completo do Daodejing em http://www.hottopos.com/tao/dao_de_jing01.htm

[3] A tradição do siddha Boganathar está profundamente associada ao santuário de Palani, no sul da Índia, que tive a felicidade de visitar em 2007 e novamente em 2014. Postei neste blog, na seção Fotos, algumas imagens e textos relativos a essas visitas.

[4] Uma das lições que a idade me ensinou foi a de não pretender convencer ninguém de nada. Limito-me a veicular algumas ideias. E espero que meus eventuais leitores tirem, se quiserem, suas próprias conclusões.

 

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1 comentário

  1. Eu gostei do texto, apesar de não gostar muito do viés que ele tomou, nessa tentativa obscura de adequar a sua Ioga de uma maneira que não me parece muito leal com as outras tradições.

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