Itzhak Luria e a “reparação do mundo”

Fachada da sinagoga sefardita de Safed, onde Luria rezava. Construída no século 16, foi destruída por um terremoto e reconstruída em 1857.

Uma imagem surpreendente aguarda o turista que visita a encantadora cidade de Safed, nas terras altas da Galileia, no norte de Israel. Em uma antiga sinagoga judia, a pintura mural mostra nada menos do que o Domo do Rochedo, o mais antigo monumento arquitetônico islâmico, reverenciado por milhões de muçulmanos em todo o mundo. Construído no coração de Jerusalém, em local sagrado para judeus, cristãos e muçulmanos, o Domo é um símbolo dos profundos laços espirituais que unem as três religiões — e, por extensão, todas as religiões do planeta [1]. Sua representação no interior de uma sinagoga oferece extraordinária lição de aceitação para o nosso tempo de conflitos. O edifício que ostenta essa pintura era a sinagoga de Itzhak Luria, um dos supremos mestres da cabala [2], a tradição mística judaica.

Safed é hoje uma cidade de artistas. Mas, no século 16, abrigou uma brilhante comunidade de místicos, cuja atividade constituiu a idade de ouro da cabala. Itzhak Luria foi o maior deles. Chegou a Safed em 1569 e lá permaneceu por apenas três anos, até sua morte precoce, em 1572. Esse exíguo intervalo de tempo foi suficiente, porém, para que se tornasse uma lenda viva. Dizem que era capaz de identificar, em um relance, o estágio evolutivo de cada pessoa — e, com base nisso, prescrever o método mais adequado ao seu desenvolvimento espiritual. Como os grandes mestres do ioga, ele estabeleceu técnicas que transformavam o mais corriqueiro ato cotidiano em uma ação consciente, visando o aperfeiçoamento do praticante, e de todo o universo. Seus discípulos recebiam exercícios espirituais específicos para praticar enquanto andavam, comiam ou rezavam. E até para evitar que ficassem puxando os fios da barba durante o estudo da Torá [3].

O mestre amava tão integralmente a criação, que evitava prejudicar até mesmo um verme ou inseto, pois estava convencido de que as almas que os habitavam também evoluiriam ao longo de sucessivas encarnações [4].

O livro que mudou sua vida

Nos círculos cabalistas, Luria é conhecido como Ari (Leão, em hebraico), cognome formado pelas iniciais das palavras Adonenu Rabbi Itzhak (Mestre Rabino Itzhak). E a comunidade mística de Safed se orgulhava de ser constituída por “filhotes do Leão”. Esse mestre sublime, que, segundo seus seguidores, conhecia até os mais recônditos segredos da criação, nasceu em Jerusalém, em 1534, e morreu em Safed, em 1572, com apenas 38 anos. Diz a tradição que, antes de o menino nascer, seu pai teve uma visão do profeta Elias, que lhe anunciou: “Por meio dele, a cabala será revelada ao mundo”. Fazendo jus à profecia, com apenas 8 anos, o pequeno Itzhak dominava o Talmude [5]. Nessa época, o pai morreu e a família teve que se mudar para a casa de um tio rico, no Cairo. Reconhecendo a genialidade do sobrinho, o tio confiou sua educação a um mestre renomado, Bezalel Ashkenazi. Luria estudou com Ashkenazi até os 15 anos, quando se casou com a prima e encerrou sua educação formal.

Nesta altura, um fato, que para outros teria passado despercebido, mudou o rumo de sua vida. No ofício religioso da sinagoga, o jovem viu um estrangeiro que trazia nas mãos um manuscrito do Zohar, o mais importante tratado cabalista. Ele jamais contemplara tal livro antes. E não sossegou até adquiri-lo. Empolgado, Luria mergulhou inteiramente na leitura, mas o misterioso Zohar fugia ao seu entendimento. Atendendo ao que chamou de “ímpeto do Céu”, ele iniciou, então, um radical programa de estudo: durante cinco dias da semana, refugiava-se em uma cabana às margens do Nilo e se dedicava a jejuns, orações, meditações e ao Zohar; no sexto dia, voltava à sua casa, para a celebração do sabá (o sábado, dia do descanso, que os judeus religiosos dedicam inteiramente a Deus). Após dois anos dessa maratona espiritual, teve uma experiência visionária, na qual o profeta Elias lhe revelou o significado oculto do Zohar e o iniciou nos segredos da cabala. Normalmente se recomenda que ninguém estude a cabala antes dos 42 anos de idade, pois só então se possui maturidade suficiente para suportar o impacto provocado pelos estados intensificados de consciência. Itzhak Luria tinha apenas 17 anos quando foi iniciado.

Contribuição pessoal, única e intransferível

Insólitas experiências espirituais povoaram os 18 anos seguintes: todas as noites, em estado de profunda imersão mística, Luria comunicava-se com anjos, com instrutores há muito falecidos (como os rabinos Schimon ben Yohai, Akiva e Eleazar, o Grande) e com o profeta Elias em pessoa. Um após outro, os numerosos véus que encobrem a Realidade descerraram-se diante de seus olhos. Dizem que ele conseguia ler o futuro na chama de uma vela e era capaz de penetrar, mesmo à distância, no pensamento das pessoas. Quando o julgou maduro para ensinar, Elias lhe ordenou que mudasse com a família para Safed. Os cabalistas o adotaram imediatamente como líder. A quilômetros de distância, uma experiência visionária comunicou o auspicioso fato a Haim Vital, e este sábio rabino de Damasco também se deslocou para a Galileia, tornando-se o principal discípulo do Ari. Foi ele que colocou por escrito todos os ensinamentos lurianos, pois a elevadíssima frequência espiritual em que o mestre vivia o incapacitava para redigir nem sequer uma linha.

Um conceito central da chamada “cabala luriana” é o de tikkun ha olam, ou “reparação do mundo”. Pela prática do tikkun, cada ente humano pode e deve dar sua contribuição pessoal, única e intransferível para o aprimoramento do cosmo e para sua própria evolução. A descoberta do tikkun que lhe cabe realizar é uma aquisição fundamental para aquele que se engaja no caminho do autodesenvolvimento [6].

Tal ideia está em perfeita consonância com a doutrina luriana sobre o sentido da Torá. Em oposição ao fanatismo religioso, que se utiliza de versões literais dos textos sagrados para deslegitimar ou mesmo eliminar as opiniões divergentes, Luria ensinou que cada palavra da Torá possui 600 mil faces ou significados — uma para cada filho de Israel que se encontrava ao pé do Monte Sinai quando Moisés recebeu a revelação divina. Cada face está voltada para um só indivíduo, o único capaz de vê-la e decifrá-la.

O número 600 mil possui, obviamente, um caráter metafórico. Quer dizer muitos ou infinitos. E a afirmação feita em relação à Torá pode ser generalizada a todos os textos sagrados. Comentando essa ideia magistral, Gershom Scholem, um dos mais respeitados estudiosos da cabala nos tempos atuais, afirmou: “Cada homem tem seu próprio e único acesso à Revelação. A autoridade não mais reside em um singular e inequívoco ‘significado’ da comunicação divina, mas na sua infinita capacidade de assumir formas novas”.

————————————————————————————————————————————————————————————

Notas

Uma versão anterior, menos desenvolvida deste texto, foi publicada como capítulo do meu livro Mestres.

[1] Sobre a história desse edifício e as tradições a ele associadas, leia, neste Blog, o artigo “O Domo do Rochedo”, na seção Espiritualidade / Lugares.

[2] A palavra “cabala” (também transliterada, conforme a fonte, como qabalah ou kabbalah) significa “tradição”. Trata-se, no caso, da tradição mística judaica, cuja origem se perde no tempo. O tratado mais importante da cabala é o Sepher ha Zohar (Livro do Esplendor), conhecido simplesmente como Zohar. No próprio livro, sua autoria é atribuída ao célebre rabino Schimon ben Yohai (século 2 d.C.). No entanto, os estudiosos tendem a considerar que, embora a obra possa conter muito material antigo, a redação final foi resultado de longa elaboração, concluída séculos mais tarde. Mantido em segredo desde então, o Zohar foi publicado pela primeira vez no século 13, por iniciativa do cabalista espanhol Moisés de León.

Para quem deseja enveredar, por conta própria, no estudo da cabala, inclusive com a possibilidade de leitura da versão inglesa dos principais tratados, recomendo o site Work of the Chariot, disponível em www.workofthechariot.com

[3] A Torá, considerada a parte mais sagrada da Bíblia judaica, corresponde ao Pentateuco da Bíblia cristã. Os cinco livros que a constituem são: Bereshit (Gênesis), Shemot (Êxodo), Vayikrá (Levítico), Bamidbar (Números) e Devarim (Deuteronômio). Além da Torá, a Bíblia judaica contém mais duas partes, Neviim e Ketuvim, que englobam outros livros, incorporados pelo Antigo Testamento cristão.

[4] Recolhi estas informações sobre a vida pessoal de Itzhak Luria no simpático livro de Perle Epstein, Cabala – o caminho da mística judaica.

[5] Composto por duas partes, a Mishná e a Guemará, o Talmude (Talmud) engloba um conjunto de comentários e opiniões dos antigos sábios judeus, que expõe, interpreta e desenvolve as leis religiosas e civis existentes na Torá. O material que o constitui foi acumulado em discussões que se desenvolveram ao longo de oito séculos, aproximadamente de 300 a.C a 500 d.C.

[6] O conceito de tikkun é muito antigo no pensamento judaico, mas foi reinterpretado de maneira radical por Luria, que elaborou, a partir dele, toda uma doutrina evolucionista, teórica e prática. As justificativas metafísicas e cosmogônicas que o mestre de Safed apresentou para o tikkun são intrincadas demais para serem resumidas aqui. Espero poder voltar ao assunto em artigo futuro.

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: