Fazer a cabeça

Atena, deusa da sabedoria, nascida da cabeça de Zeus.

Atena, deusa da sabedoria, nascida da cabeça de Zeus.

 

Não sei onde nem quando surgiu a expressão “fazer a cabeça”. A Wikipédia diz que foi trazida ao Brasil pelos escravos africanos, que a ela atribuíam o significado de “iniciação espiritual”. Pode ser. Mas a mesma ideia aparece também em outros contextos. Em 1307, quando o rei da França ordenou a prisão em massa dos cavaleiros templários, uma das acusações utilizadas para enviar os principais líderes à fogueira foi que adoravam um ídolo em forma de cabeça. Segundo o escritor Idries Shah, o nome atribuído a esse suposto objeto, bafomet, é uma corruptela da expressão árabe abu-fi-hikmat, que significa “pai da sabedoria”, e aquilo que os templários cultuavam não era outra coisa senão suas próprias cabeças, transformadas pelos exercícios espirituais.

 

No candomblé, a cabeça é a sede do ori, a individualidade do humano, aquilo que cada um tem de mais íntimo. O ori é um orixá inteiramente pessoal, que faz com que sejamos aquilo que somos. Uma deidade que pré-existe ao nosso nascimento, subsiste à nossa morte, e confere sentido à nossa vida. Um conceito muito semelhante aparece nos escritos do grande poeta, filósofo e mestre sufi Ibn Árabi (1165 – 1240). Diz ele que cada ente humano expressa um dos infinitos nomes divinos. Por isso, embora todos os humanos sejamos, no fundo, o mesmo, cada qual manifesta esse mesmo de um modo absolutamente singular: não há dois humanos iguais. Realizar esse nome único, em toda a sua potencialidade, é nossa verdadeira missão neste mundo.

 

Fazer a cabeça é, pois, reconhecer o ori, redescobrir quem somos, recordar o que viemos fazer nesta vida . Somente de cabeça feita somos capazes de cumprir nossos destinos: não no sentido de uma submissão fatalista, mas como conquista de um vasto campo de possibilidades. Fazer a cabeça é algo que nos liberta dos condicionamentos sociais, dos modelos exteriores, e nos devolve a mais genuína liberdade. “Trata-se de chegar a ser aquilo que realmente se é”, disse o filósofo francês Michel Foucault.

 

Na “anatomia sutil” mapeada pelos iogues indianos, o sahasrara, ou lótus das mil pétalas, situado no topo da cabeça, é o chakra ou “centro de energia” que nos conecta ao Absoluto. Existem vários exercícios para abrir esse portal. E também várias práticas para protegê-lo. Por meio do sahasrara, bebemos da Fonte Primordial. E é assim que eu entendo este provérbio iorubá: “Não existe orixá que apoie mais o homem do que seu próprio ori”.

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Nota: uma versão anterior, menos desenvolvida, deste artigo foi publicada na série de fascículos Os Negros, da revista Caros Amigos.

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