O marco poético da negritude

Senghor, com o fardão da Academia Francesa, no dia de sua posse na instituição, em 1983.

Foi na segunda metade da década de 1930, nos anos tensos que antecederam a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que o poeta, político e pensador senegalês Léopold Sédar Senghor lançou aquele que viria a ser o primeiro marco internacional da consciência negra do século XX: o movimento da negritude.

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Residente na França e lecionando nas cidades de Tours e Paris, Senghor, como outros membros da diáspora africana, sentia na pele e na alma as farpas do racismo europeu. A palavra “negro” estava, então, carregada de conotações negativas. “Negro” era o termo depreciativo que os colonialistas utilizavam para designar os colonizados. Chamar alguém de “negro” era o mesmo que proclamar sua condição de cidadão de segunda classe, sua quase sub-humanidade.

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Senghor inverteu completamente o significado da palavra e, a partir dela, forjou o neologismo “negritude”, para exaltar as culturas, as tradições e as características identitárias da África. Seu movimento, ao mesmo tempo cultural e político, inspiraria amplamente os processos de independência dos países africanos no pós-guerra.

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Combatente antinazista, preso e por pouco não fuzilado pelos invasores alemães durante a guerra, Senghor se tornaria, mais tarde, o primeiro presidente do Senegal independente, cargo que exerceu por cinco vezes consecutivas, de 1960 a 1980. Em 1983, em reconhecimento aos seus méritos como escritor francófono, a Academia Francesa lhe atribuiu, com pompa e circunstância, uma de suas cobiçadas cadeiras.

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O posicionamento de Senghor seria criticado, a partir da década de 1960, por intelectuais negros que assumiram formas mais radicais de militância política e cultural. Mas isso não lhe tira o mérito de precursor. Mandela, na África do Sul, e Malcom X, nos Estados Unidos, entraram em cena depois.

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De toda a produção literária senghoriana, um poema, em especial, ficou registrado, como o marco mais característico da negritude. O poema que sempre vem à memória quando se fala em Senghor, “Mulher Negra”, que já foi considerado por alguns comentadores como uma espécie de versão africana do “Cântico dos Cânticos”. Escrito em língua francesa, sua forma conservaria, no entanto, a estrutura rítmica das baladas da etnia Serere, da qual o autor era originário.

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Reproduzo aqui a bela tradução para o português feita por Guilherme de Souza Castro – falecido professor da Universidade Federal da Bahia e da Universidade de Ifé, na Nigéria –, mantendo, no entanto, a divisão em estrofes do original francês:

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Mulher Negra

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Mulher nua, mulher negra

Vestida de tua cor que é vida, de tua forma que é beleza!

Cresci à tua sombra; a doçura de tuas mãos acariciou os meus olhos.

E eis que, no auge do verão, em pleno Sul, eu te descubro,

Terra prometida, do cimo de alto desfiladeiro calcinado,

E tua beleza me atinge em pleno coração, como o golpe certeiro de uma águia.

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Fêmea nua, fêmea escura.

Fruto sazonado de carne vigorosa, êxtase escuro de vinho negro, boca que faz lírica a minha boca

Savana de horizontes puros, savana que freme com as carícias ardentes do vento Leste.

Tam-tam escultural, tenso tambor que murmura sob os dedos do vencedor

Tua voz grave de contralto é o canto espiritual da Amada.

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Fêmea nua, fêmea negra,

Lençol de óleo que nenhum sopro enruga, óleo calmo nos flancos do atleta, nos flancos dos príncipes do Mali.

Gazela de adornos celestes, as pérolas são estrelas sobre a noite da tua pele.

Delícia do espírito, as cintilações de ouro sobre tua pele que ondula.

À sombra de tua cabeleira, dissipa-se minha angústia ante o sol dos teus olhos.

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Mulher nua, fêmea negra,

Eu te canto a beleza passageira para fixá-la eternamente

Antes que o zelo do destino te reduza a cinzas para alimentar as raízes da vida.

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Nota: Este artigo foi publicado originalmente na série de fascículos Os Negros, da revista Caros Amigos.

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