Francisco: nu sobre a terra do Senhor

“São Francisco prega aos pássaros”, afresco, Giotto, 1297-1300.


Ele amou todas as criaturas sem distinção. E, falando a língua do coração, renovou o pensamento religioso, substituindo a crença dogmática que resseca, petrifica e fanatiza pela experiência fluida, viva e vivificante da espiritualidade.

Ele conversava com os animais e beijava as feridas dos leprosos. Repudiado pelo pai por financiar a reconstrução de uma igreja arruinada, devolveu a ele tudo o que possuía, inclusive a roupa do corpo. Durante as Cruzadas, a insensata guerra entre cristãos e muçulmanos, penetrou no campo do adversário e dialogou fraternalmente com o chefe islâmico, encantando-o com seus modos e palavras. Seu intenso amor a Cristo o levou a uma radical experiência mística, em que recebeu na própria carne as chagas de Jesus. Cego, doente e sofrendo dores intensas, compôs, no final da vida, um apaixonado poema em louvor da criação, em que chamou o Sol, a Lua, as estrelas, a terra, a água, o fogo, o ar e até a morte de “irmãos” e “irmãs”. Nu, sobre a terra nua, morreu cantando o salmo que exclama: “Eu grito a ti, Senhor, e digo: tu és meu refúgio, minha parte na terra dos vivos!” [Sl 142.5].

Assim foi Francisco de Assis, o santo amado por adeptos de todas as religiões e também pelos ateus. Herdeiro da tradição poética dos trovadores da Provença, no sul da França, compôs, antes de Dante e Petrarca, os primeiros versos em idioma italiano. E, falando a língua do coração, renovou o pensamento religioso, substituindo a crença dogmática — que resseca, petrifica e fanatiza — pela experiência fluida, viva e vivificante da espiritualidade. Seu exemplo devolveu a esperança a milhões de cristãos, desiludidos com a decadência da Igreja. E, séculos depois, ainda nos inspira. Ele viu a natureza inteira como um espelho de Deus e amou todas as criaturas sem distinção. Mais do que o abandono da riqueza material, seu voto radical de pobreza é um convite para abrirmos mão de nosso pequeno “eu”, de forma que um “Eu” maior possa se manifestar.

Igreja em ruínas

Giovanni Francesco Bernardone, este o seu nome de batismo, nasceu na cidade de Assis, Itália, em 1182. O pai, um rico comerciante de tecidos, pertencia a uma classe social que começava a adquirir fisionomia própria: a burguesia, orgulhosa de seus bens materiais e de sua importância na vida urbana. Foi a ameaça ao poder burguês que levou os habitantes de Assis a entrar em guerra, em 1202, contra a vizinha municipalidade de Perugia, aliada da aristocracia rural. Francisco, ainda com 20 anos, participou da luta travada por seus concidadãos. Até então, ele fora o “queridinho” da cidade: vestia as melhores roupas, patrocinava as festas mais animadas e esbanjava charme como trovador. Capturado em campo de batalha, permaneceu prisioneiro durante um ano. O pai pagou por sua libertação. Mas essa experiência parece ter deflagrado nele uma profunda crise interior. De volta a Assis, adoeceu.

Sem um projeto de vida e pressionado pelo pai, que queria transformá-lo em cavaleiro, engajou-se, dois anos depois, em uma cruzada papal contra o reino da Sicília. Depois de um dia de viagem, porém, um sonho o fez retroceder. Nele, uma voz celestial lhe perguntava:

— Francisco, a quem deves servir, ao senhor ou ao servo?

— Ao senhor — respondeu.

— Então, por que trocas o senhor pelo servo?

Ele compreendeu que sua verdadeira batalha era de natureza espiritual e devia ser travada no interior da consciência. De volta a Assis, passou a buscar lugares isolados no campo, onde se entregava à intensa contemplação da natureza e à oração. Quando deparava com um mendigo, dava-lhe o que tinha no momento. E, vencendo a aversão, pôs-se a cuidar dos leprosos. Profunda transformação estava em curso. Culminou em uma experiência mística. Em 1206, quando rezava em frente ao crucifixo da abandonada e decadente igrejinha de São Damião, ouviu uma voz que lhe disse: “Francisco, restaura minha igreja, que está em ruínas”.

O jovem tomou a mensagem ao pé da letra e, ao doar dinheiro para a reconstrução do pequeno templo, entrou em conflito público com o pai. Foram necessários dois anos para que compreendesse que a “igreja em ruínas”, a que aludira a voz, não era um simples edifício, mas toda uma instituição. Começou, então, a propor mudanças, destinadas a restaurar a pureza original da mensagem cristã, sufocada e corrompida pelo poder temporal do clero. Diante da enorme riqueza do papado, fez um voto radical de pobreza. O seu modelo: a vida de Jesus.

Os estigmas de Jesus

Em pouco tempo, a pregação de Francisco contagiou multidões e arrebanhou um grande número de discípulos. Em companhia de 12 deles, seguiu para Roma, em 1209, solicitando ao papa a aprovação da nova regra. Inocêncio III acolheu o pedido, na esperança de que os franciscanos trouxessem os pobres de volta à Igreja e constituíssem um contraponto à ordem reformista dos beneditinos. Sua primeira expectativa se realizou. Mas a semente libertária lançada pelos beneditinos encontrou um terreno fértil entre os franciscanos e, em algumas décadas, produziria gigantes da filosofia e da ciência medievais, como os ingleses Robert Grosseteste (1168-1253) e Roger Bacon (1214-1292).

Antes disso, foi preciso que Francisco cumprisse integralmente o seu destino. Em 1212, junto com Clara Sciffi, a mais bela jovem da aristocracia de Assis, que abandonara a família, as sedas e as jóias para segui-lo, ele fundou a “ordem segunda”, destinada às mulheres. Em 1219, viajou ao Egito e, na cidade de Damietta, sitiada pelos cruzados cristãos, teve entrevista com o sultão muçulmano Melek el-Kamel. Em 1221, estabeleceu a “ordem terceira”, atendendo à demanda de homens e mulheres que, sem deixar suas casas e a vida conjugal, adotavam os princípios franciscanos.

Crescentes poderes sobrenaturais — aquilo que os iogues indianos chamam de siddhis — sinalizavam sua escalada na senda da santidade. Eles atingiram um clímax na primeira hora do dia 15 de setembro de 1224. Quando rezava intensamente em local afastado, o Monte della Verna, Francisco viu descer do céu um serafim, o anjo da mais alta hierarquia, com seis asas resplandecentes. Entre as asas, percebeu a figura de um homem crucificado. Aquela forma híbrida, sem precedentes no imaginário cristão, pareceu-lhe surpreendente de início. Mas ele, posteriormente, compreendeu que era um símbolo da transformação radical que estava para ocorrer em seu próprio corpo. Nele se abriram, então, ferimentos profundos, que reproduziam as chagas de Jesus.

Em meio à intensa veneração dos contemporâneos, Francisco, o primeiro santo estigmatizado da Cristandade, abandonou a Terra dois anos mais tarde, em 3 de outubro de 1226. Sua mensagem continua reverberando ao longo dos séculos.

Voto de pobreza

O caráter radical do voto de pobreza franciscano constitui, até hoje, ou ainda mais hoje, um desafio. É necessário renunciar a todo o conforto material para seguir o caminho espiritual? Jesus disse: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” [João 10.10]. E essa plenitude de vida incluía, com certeza, os pequenos prazeres da existência. Os relatos evangélicos mostram que o próprio Jesus não se abstinha deles. Embora exigente, principalmente para os discípulos, seu caminho não era o da renúncia ascética e da privação. A perversão se instaura, porém, quando o acúmulo de riquezas ou o seu esbanjamento se transformam em um fim, que passa a pautar os comportamentos individuais e contaminar as relações sociais. Abre-se, então, uma porta para o abominável. E não existe limite para as transgressões que, nessa estrada, o ente humano é capaz de cometer.

É nessa perspectiva que o voto de Francisco surge como uma reparação, que rejeita o erro e reconduz quem erra ao caminho justo. Em termos contemporâneos, ele se justifica em três níveis: social, ecológico e espiritual:

1. Social, pois é inaceitável que poucos acumulem ou esbanjem na escala em que o fazem enquanto tantos não dispõem do mínimo necessário para uma existência que possa ser qualificada como humana. As dimensões alcançadas por algumas fortunas corporativas, familiares ou individuais são simplesmente escandalosas. E os gastos com futilidades, que a mídia sensacionalista adora divulgar, constituem, inclusive no Brasil, verdadeiros atentados ao pudor.

2. Ecológico, pois a fantasia capitalista do crescimento econômico ilimitado é materialmente insustentável. O que seria do planeta se todos os chineses, indianos e africanos ascendessem ao padrão de consumo da classe média norte-americana (para não falar dos gastos estratosféricos dos muitos ricos)? A mineração de asteroides já está na pauta de empreendimentos futuros de algumas corporações. Mas vai ser difícil criar bois em Marte.

3. Espiritual, pois, ainda que estivesse à disposição de todos, a riqueza material, além de certa medida, constituiria um mal, pelo obstáculo que seu fascínio configura para a evolução humana. O humano possível não se mede apenas em calorias ou bits. E o clímax do humano é somente o começo!

A Oração de Francisco

Senhor,

Fazei de mim um instrumento de vossa paz!

Onde houver ódio, que eu leve o amor.

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.

Onde houver discórdia, que eu leve a união.

Onde houver dúvida, que eu leve a fé.

Onde houver erro, que eu leve a verdade.

Onde houver desespero, que eu leve a esperança.

Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.

Onde houver trevas, que eu leve a luz!

Ó Mestre, fazei com que eu procure mais

Consolar do que ser consolado,

Compreender do que ser compreendido,

Amar do que ser amado.

Pois é dando que se recebe,

É perdoando que se é perdoado,

E é morrendo que se vive para a vida eterna!

Cântico ao Irmão Sol

Altíssimo, onipotente e bom Senhor,

Teus são o louvor, a honra, a glória

E toda a bênção.

Só a ti, Altíssimo, são devidos.

E homem algum é digno

De te mencionar.

Louvado sejas, meu Senhor,

Com todas as tuas criaturas.

Especialmente pelo Irmão Sol,

Que clareia o dia

E com sua luz nos ilumina

E é belo e radiante,

Com grande esplendor:

De ti, Altíssimo, é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,

Pela Irmã Lua e as Irmãs Estrelas,

Que no céu formastes claras

E preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor,

Pelo irmão Vento,

Pelo Ar nublado ou sereno,

Por meio do qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor,

Pela irmã Água,

Que é tão útil e humilde

E preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,

Pelo irmão Fogo,

Por meio do qual iluminas a noite,

E é belo e prazeroso,

Vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,

Por nossa Irmã Terra,

Que nos sustenta e governa,

E produz frutos diversos

E coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,

Pelos que perdoam por teu amor

E suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados os que sustentam a Paz,

Pois por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor,

Pela Irmã Morte Corporal,

Da qual homem algum pode escapar:

Ai dos que morrerem em pecado mortal!

Felizes os que ela achar

Conformes à tua santíssima vontade,

Porque a Segunda Morte não lhes fará mal!

Louvai e bendizei ao meu Senhor

E dai-lhe graças

E servi-o com grande humildade.

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Nota: uma versão anterior deste texto, menos desenvolvida, foi publicada como capítulo de meu livro Mestres.

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