No rastro do Eterno Feminino

“Grey line with black, blue and yellow”, óleo sobre tela, Georgia O’Keefe, 1923

Nossa civilização é fruto de uma mutilação. A Realidade Unitária foi seccionada. E sua porção feminina, submetida a implacável repressão. Drenado da seiva vivificadora de sua contraparte, o lado masculino também se atrofiou, expressando sua mineralização precoce em rígidos valores patriarcais. Estes, desde épocas muito antigas, modelam a cultura humana. O épico Enuma elish, escrito cerca de dois mil anos antes de Cristo, relata o mito da derrota e do assassinato da grande deusa ancestral Tiamat por seu jovem descendente Marduk, o campeão dos deuses da nova geração.

Desde então, o patriarcalismo tornou-se de tal forma arraigado que seus critérios nos parecem muitas vezes naturais. E tão disseminado que, para conquistarem os direitos adquiridos ao longo do último século, as mulheres precisaram, em certa medida, se masculinizar. O próprio movimento feminista não escapou dessa armadilha. O resultado desse processo perverso não poderia ser outro senão uma civilização profundamente doente, cujos sintomas são hoje bastante evidentes.

Destronada pelas religiões masculinas, a Grande Deusa foi banida do repertório espiritual da humanidade – embora vestígios de seu culto tenham sobrevivido em vários pontos do planeta, como na Índia, onde a reverência à Shakti, o aspecto feminino da Divindade, serve de contraponto e tempero para o patriarcalismo, também lá dominante.

O retorno do reprimido

Mas o reprimido insiste em se manifestar. Essa força eruptiva, estudada por Freud no âmbito da psique individual, é ainda mais poderosa no domínio maior da psique coletiva. Morta por Marduk, Tiamat sobreviveu nas entrelinhas da Bíblia, na imagem do misterioso Abismo Primordial mencionado no Gênesis. E, senão todos, ao menos os atributos mais suaves da Grande Deusa pagã, que, na Palestina bíblica, recebeu o nome de Asherah, migraram para a figura maternal da Virgem Maria.

Em tempos relativamente recentes, talvez pelo fato de as tendências mais doentias do paradigma patriarcal terem sido levadas ao paroxismo, esse movimento de autoexpressão do reprimido adquiriu especial veemência. Ele se manifesta não apenas nas numerosas “Aparições da Virgem”, supostamente ocorridas durante os séculos 19 e 20. Mas também em fenômenos da cultura de massa como os livros As Brumas de Avalon e O Código Da Vinci, que têm por pano de fundo o resgate do sagrado feminino. A despeito de sua pouca qualidade literária, sofrível no caso de As Brumas de Avalon e abaixo da linha de corte em O Código Da Vinci, essas obras se transformaram em best-sellers internacionais. E ao menos parte de seu enorme sucesso parece derivar da forte atração que esse “outro lado” da espiritualidade exerce sobre o público.

O reencontro com a Grande Deusa, seus mistérios e paradoxos, suas imagens e atributos, seus mitos e ritos, é um passo indispensável para a reconciliação da humanidade com o planeta e consigo mesma. E um poderoso fator de cura para a doença civilizatória de que todos somos causadores e vítimas. É impossível reintegrar a Realidade Unitária perdida sem resgatar a multifacetada figura da Deusa. Como tal, esse empreendimento interessa vitalmente a todas as mulheres e a todos os homens, quer se deem conta disso ou não.

Nas entrelinhas do texto bíblico

Na epiderme da narrativa bíblica, a mulher, modelada a partir da costela do homem, é reduzida, desde a origem, a uma condição subalterna. E torna-se o canal por meio do qual a serpente – “o mais astucioso de todos os animais” – induz o homem a comer o fruto proibido. O judaísmo tardio e depois o cristianismo viram na serpente uma personificação do demônio e na mulher, que lhe deu ouvidos, a fonte de toda a perdição. Mas quem eram, de fato, essa mulher e a serpente na tradição ancestral? E qual o significado do fruto proibido que elas ofereceram ao homem?

A palavra hebraica Hawah, que corresponde ao termo latino Eva, era um dos nomes de Asherah, a Grande Deusa de Canaã. Entre seus muitos títulos, ela possuía o de Dat Ba’thani, Senhora da Serpente, e era muitas vezes representada com os braços parcialmente erguidos, segurando uma cobra em cada mão. Esse título e essa forma de representação não são de modo algum exóticos. Respeitadas as diferenças de idioma e estilo artístico, eles estão presentes em praticamente todas as manifestações religiosas da Antiguidade remota – da Índia à Europa e daí transbordando para outros territórios.

O seu significado torna-se claro à luz da tradição shivaísta. Pois, nela, a serpente (naga) é um símbolo da Shakti, o Princípio Feminino, que se manifesta nas múltiplas instâncias do Cosmo, inclusive no interior do ente humano. Enquanto Shiva, o Princípio Masculino, corresponde ao aspecto transcendente e passivo de Deus, a Shakti expressa seu lado imanente e ativo. Para usarmos uma analogia trivial, Shiva e Shakti, o Casal Divino, são como as duas faces da mesma moeda. É por meio dela que ele atua. É ela que o faz viver.

Por isso, na iconografia indiana, Shiva aparece frequentemente estendido no solo, em completa imobilidade, enquanto a Shakti, na impressionante forma da deusa Kali, dança sobre o seu peito. Diz a tradição que “sem a Shakti, Shiva é shava (cadáver)”.

O simbolismo da serpente

No simbolismo do yoga, a Kundalini, a misteriosa energia divina presente no ente humano, é representada como uma cobra fêmea, enrolada três vezes e meia em torno de um lingam (pilar fálico), e adormecida no Muladhara, o primeiro chakra (centro de energia sutil e consciência), situado na região do períneo, entre os genitais e o ânus. O objetivo das práticas é despertar a serpente e fazê-la subir pelo Sushumna, o nadi ou canal de energia central, que transita pelo interior da coluna vertebral.

Desperta, a Kundalini-Shakti ativa, em sua ascensão, os vários chakras disposto ao longo do caminho, permitindo ao adepto alcançar estágios cada vez mais elevados de consciência e autorrealização. Até chegar ao sétimo chakra, o Sahasrara, a morada de Shiva, localizado no topo da cabeça. Lá se cumpre então a grande meta de todo yoga, o Hieros Gamos, o casamento sagrado de Shiva e Shakti, a união das duas faces da moeda que constitui o Ser integral, a superconsciência, a plena realização das potencialidades divinas latentes no humano.

Eis o fruto da Árvore do Conhecimento, plantada no Jardim do Éden existente no interior do humano. A Árvore do Conhecimento, que se sobrepõe à Árvore da Vida, manifesta-se, na “anatomia sutil”, como o sistema de nadis e chakras.

Todo esse conteúdo estava registrado, de maneira cifrada, no simbolismo associado à Grande Deusa cananeia. Uma de suas imagens era precisamente a Árvore da Vida, representada pela tamareira fêmea. E um de seus emblemas era o caduceu, composto por uma ou duas serpentes enroladas em torno de um cajado – um símbolo da ascensão da Kundalini-Shakti ao longo do Sushumna.

Uma guerra sem trégua

O monoteísmo patriarcal rebaixou a Deusa à condição humana – e de uma humanidade de segunda classe, pois tal era o lugar reservado à mulher na sociedade machista. Sua serpente – a Energia Divina, conferida como dádiva a todos os homens, independente de gênero, etnia, credo ou condição social – foi transformada em um animal maldito e, depois, demonizada. A superconsciência, que a ascensão da Shakti propicia e que faz com que o homem seja plenamente a imagem e semelhança de Deus, foi interditada como um fruto proibido.

Uma guerra sem trégua foi movida contra Asherah e tudo o que ela representava: o poder do feminino, a verdadeira apreciação da mulher, as forças profundas do inconsciente, a integração com a natureza, o caráter sagrado da sexualidade, a iniciação nos mistérios, a alegria, a espontaneidade, a criatividade, a intuição, a sabedoria.

Mas, pelo menos até os tempos pós-exílicos, essa luta parece ter tido pouco êxito. Pois a tradição de Asherah manteve-se extremamente popular na sociedade israelita. Pequenos ídolos seus, destinados à devoção pessoal ou doméstica, foram descobertos aos milhares nos sítios arqueológicos; os “lugares altos”, a ela consagrados, eram locais de profunda reverência; os postes sagrados, que a representavam como Árvore da Vida, espalhavam-se por todo o território. E ela foi cultuada até mesmo no Templo de Jerusalém, onde a Serpente de Bronze, Nehush-tam, mais tarde associada a Moisés, era um de seus emblemas. Esse culto se manteve até seus sacerdotes serem assassinados e seus emblemas destruídos durante a reforma religiosa promovida pelo rei Josias, em 622 a.C..

A sobrevivência do Arquétipo

Asherah é a forma hebraica do nome ugarítico Athirat. Essa palavra corresponde ao acadiano Ashratum, ao amorita Ashirta, ao fenício Ashtartu e ao grego Astarté. Em Cartago, ela era conhecida como Tanith. Por meio de seus emblemas e atributos, a Deusa pode ser seguramente identificada com a Shakti indiana e a Cibele cretense. E, no panteão egípcio, possui afinidades com Hathor, Sekhmet e Isis.

Asherah era Elat (a Deusa), consorte de El (o Deus), e intermediária entre ele e os homens. Exatamente como no shivaísmo, também na religião cananeia o Deus supremo era transcendente e passivo, não podendo ser alcançado sem a intercessão da Deusa. Era ela que levava a ele os pedidos dos devotos. Ao mesmo tempo, Asherah era a Santa (Qadashu), a Criadora (Qnyt Ilm) e a Mãe dos Deuses (Qaniyatu ‘Ilima). Banida da religião institucionalizada, a Grande Deusa continuou a ser reverenciada pelos sábios cabalistas judeus na figura da Shekhinah, a personificação do aspecto imanente e ativo do Divino. No cristianismo medieval, seus títulos, emblemas e atributos migraram parcialmente para a Virgem Maria. E foram resgatados, no seio do Islã, por místicos como Ibn Árabi.

Quem visita cidades como Avignon, no sul da França, tem a oportunidade de ver, em vários edifícios medievais, nichos com pequenos bustos da Virgem Maria. Exibindo uma beleza ao mesmo tempo terrena e celestial, essas figuras exercem enorme influência sobre quem as contempla, tocando o coração, acalmando a mente e fazendo expandir a consciência. É de se imaginar o quanto podem ter suavizado a rude mentalidade dos homens e mulheres da Idade Média, contribuindo para a lenta evolução da espécie.

Transformada em objeto do desejo pela propaganda e pelas grandes corporações do entretenimento, a imagem feminina encontra-se hoje banalizada como nunca, e sua vulgarização estimula o assédio e a violência contra a mulher real. O estupro físico é a face mais abjeta dessa violência. Mas também existe o estupro mental, praticado solitária ou coletivamente diante das telas dos celulares, computadores ou televisores.

Para além da barbárie instrumentalizada, o Arquétipo sobrevive, com sua promessa de cura, integração e redenção!

Nota: uma excelente exposição dos nomes, atributos, símbolos, mitos e ritos associados à Grande Deusa Asherah e a outras deidades do panteão do Oriente Próximo pode ser acessado no premiado portal Qadash Kinahnu, em http://webspace.webring.com/people/nl/lilinah_haanat/templetoc.html

 

“El abrazo amoroso del universo”, óleo sobre tela, Frida Kahlo, 1949

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