O jovem Steiner e o goethianismo

Rudolf Steiner, aos 21 anos, quando começou a editar os escritos científicos de Goethe.


Homem universal, ele se dedicou com sucesso aos mais variados campos do conhecimento. E construiu um sistema abrangente que integra o espírito, a alma e a matéria. A brilhante edição dos escritos de Goethe marcou de forma decisiva a sua trajetória.

Nesta época, em que o conhecimento se torna cada vez mais segmentado e os indivíduos vivem existências asfixiantemente limitadas, temos muito a aprender com aqueles que realizaram o grande ideal do “homem universal”. Foi o caso de Rudolf Steiner, o criador da antroposofia. Ele legou ao mundo um sistema abrangente, que integra conhecimentos dos domínios espiritual, anímico e material, oferecendo diretrizes para os mais variados campos de atuação. Suas obras conquistaram seguidores em todo o planeta. Mas não é preciso ser um deles para reconhecer sua genialidade.

Steiner era um gênio na acepção da palavra. É fascinante acompanhar seus passos na época da infância e da juventude, quando a descoberta do mundo e de si mesmo constituía um prato diário. Em tal período, que enfocaremos aqui, o encontro com o pensamento goethiano foi decisivo para a definição de sua trajetória [1].

Coisas que não se enxergam

Rudolf Steiner nasceu em 27 de fevereiro de 1861, na cidade de Kraljevec, hoje pertencente à Sérvia. Contudo, era um austríaco, tanto étnica quanto culturalmente. Seus pais, Johann e Franziska, provinham da Áustria.

Viveu até os 8 anos na cidade de Pottschach, cercada de montanhas majestosas e paisagens verdejantes. Sua atenção dividia-se, então, entre a natureza maravilhosa e o mundo tecnológico. Isso porque, devido ao fato de o pai ser funcionário da estrada de ferro, a família morava no edifício da estação de trens. Cresceu vendo o vaivém dos comboios e ouvindo o toque nervoso do telégrafo. Depois de brigar com o professor da escola, o pai decidiu ocupar-se pessoalmente de sua educação, ensinando-o a ler e escrever. Rudolf era o primeiro filho do casal, mas logo ganhou a companhia de um irmão e uma irmã.

Quando estava com 8 anos, nova transferência do pai arrastou a família para a aldeia de Neudörfl. Os altos cumes dos Alpes, antes tão próximos, tornaram-se marcos distantes no horizonte. Mas a Serra da Rosália, em cuja encosta ficava a aldeia, forneceu-lhe uma abundante cota de natureza. Nas florestas, podia colher amoras, framboesas e morangos, com os quais complementava o pão com manteiga do jantar. E a uma hora de marcha havia uma fonte de água gasosa, que visitava diariamente na época das férias. As condições econômicas da família eram as mais modestas. Muitos anos depois, o próprio Steiner referiu-se a elas com humor, dizendo que seus pais estavam dispostos a sacrificar até o último tostão pelo bem-estar dos filhos, mas que havia cada vez menos tostões.

Em Neudörfl, passou a frequentar a escola, como outros garotos de sua idade. E, aos 9 anos, teve o primeiro contato com a geometria. Foi uma revolução interior! Afirmaria mais tarde que na geometria havia encontrado a felicidade pela primeira vez. Essa disciplina forneceu-lhe uma espécie de justificativa para o que ele mesmo experimentava. Pois, desde 8 anos, ou pouco antes, começara a vivenciar o dom da clarividência. O mundo espiritual era, para Steiner, tão real quanto o mundo sensorial. E, ao lado das coisas “que se enxergam”, percebia a presença daquelas “que não se enxergam”. Possuía em relação a isso uma profunda certeza. No entanto, precisava provar para si mesmo que sua experiência não era fruto da ilusão. A indiscutível existência dos entes geométricos ofereceu-lhe, indiretamente, tal “prova”.

Experiências mantidas em segredo

O pequeno Rudolf viveu uma dessas experiências não usuais na sala da estação de Neudörfl. Sozinho, percebeu abrir-se uma porta que não pertencia ao mundo físico. Dela saiu uma mulher, que chegou até o meio do recinto e disse: “Procure, agora e no futuro, fazer por mim tudo o que você puder”. A entidade fez ainda alguns gestos impressionantes. E desapareceu. Alguns dias depois, o menino soube que, no exato momento em que aquele estranho episódio acontecia, uma pessoa íntima da família se suicidava.

Fenômenos como esse são até hoje encarados com desconfiança. Mais ainda o eram na inculta e preconceituosa Europa Central do final do século 19. Apesar da pouca idade, Rudolf considerou que, se contasse aos outros o que presenciara, se tornaria alvo de deboches — ou até de coisa pior. Demonstrando um autocontrole que seria surpreendente mesmo nos adultos, ele se calou e só comunicou essa vivência infantil muitos anos mais tarde.

O episódio foi a primeira manifestação notável de uma clarividência que, em Steiner, era perfeitamente natural. Faculdade psíquica desse tipo pode produzir efeitos devastadores em uma pessoa mal estruturada. Intuitivamente, o garoto logo percebeu que, se quisesse manter a lucidez e integrar o seu dom a uma vida psíquica saudável, precisava construir sóbria e sólida visão da realidade. As ferramentas para isso eram as ciências naturais, a matemática e a filosofia.

Uma inesquecível aula de astronomia

O menino teve a felicidade de encontrar, tanto em seu professor quanto no padre da igreja local, não apenas incentivadores calorosos, mas também pessoas esclarecidas, que influenciaram fortemente sua própria evolução intelectual. Certa vez, esse padre reuniu os alunos mais adiantados e explicou-lhes longamente o sistema planetário de Copérnico, os movimentos de translação e rotação da Terra, a inclinação do eixo terrestre e as estações do ano — assuntos que, ainda naquela época, muitos religiosos consideravam tabus. A Steiner, ofereceu um ensinamento extra sobre os eclipses do Sol e da Lua. O entusiasmo causado por essas informações reverberou durante dias em sua mente.

A partir dos 10 anos, passou a frequentar o liceu da cidade vizinha de Wiener-Neustadt. O trajeto até lá era feito normalmente de trem. Mas as frequentes interrupções no serviço ferroviário obrigavam-no, muitas vezes, a fazer o percurso a pé. Isso significava uma hora de marcha, com tempo bom; ou uma caminhada bem mais lenta e difícil, com neve até os joelhos, nos dias de inverno.

Esses esforços físicos não o intimidavam. O que o deixava aturdido eram os excessivos estímulos sensoriais da cidade grande. Refugiava-se, então, no mundo puramente ideal da matemática, onde seu espírito se sentiaem casa. Empouco tempo, dominou sozinho o cálculo integral. E, combinando o que aprendia em aula com suas iniciativas de autodidata, adquiriu também notáveis conhecimentos em geometria descritiva e estatística. Quanto à geometria propriamente dita, ele afirmaria depois que estava “completamente doido por ela”. A escola soube reconhecer o talento e atribuiu-lhe uma nota que jamais havia sido dada.

O encontro com a filosofia de Kant

Aos 14 anos, adquiriu um exemplar de Crítica da razão pura, de Immanuel Kant — uma obra filosófica difícil, que muito adulto não teria coragem de encarar. Como não tinha tempo para ler em casa, pois precisava realizar os deveres escolares e ajudar no trabalho doméstico, resolveu fazê-lo durante as aborrecidas aulas de história. Desmontou o livro e colou cuidadosamente cada uma das páginas entre as folhas do manual escolar. Fingindo acompanhar as exposições do professor, estudou metodicamente a filosofia kantiana.

Kant estreitara drasticamente o horizonte cognitivo da humanidade, considerando cognoscível apenas aquilo que podia ser apreendido pelos sentidos. Steiner, que conhecia o mundo espiritual até melhor do que o mundo sensorial, sabia por experiência própria que essa posição era, no mínimo, insuficiente. Todo o grande trabalho intelectual de sua juventude — desenvolvido a partir dos 21 anos, quando editou e comentou os escritos científicos de Goethe — foi pautado pela necessidade de construir uma teoria do conhecimento alternativa à de Kant. Foi com base nela que pode, mais tarde, edificar sua antroposofia.

Mas, aos 14 anos, a atenção dele estava ainda intensamente mobilizada pelo estudo da matemática e das ciências naturais. Bem como pela leitura da história, da doutrina e do simbolismo cristãos. Para custear a própria educação, começou a dar aulas particulares, tendo como alunos tanto estudantes mais jovens quanto seus próprios colegas de classe. Aos 18 anos, graduou-se com distinção no liceu, recebendo o conceito “exemplar”.

Por pressão do pai, que queria torná-lo engenheiro, matriculou-se na Escola Politécnica de Viena. Enquanto as aulas não começavam, prosseguiu sua investigação pessoal da filosofia. Tendo completado o estudo de Kant, vendeu os velhos livros escolares e, com o dinheiro recebido, comprou uma série de obras dos grandes filósofos do idealismo alemão: Fichte, Hegel, Schelling e seguidores. A questão que o motivava era a atividade cognitiva do “eu” humano. Por experiência própria, estava convencido de que o “eu” era espírito e vivia em um mundo de entes espirituais. O processo de conhecimento estabelecia uma ponte que ligava esse domínio supranatural à natureza.

Personagens enigmáticos

Ele continuava a manter em segredo os dons paranormais. Nessa época, compartilhou suas experiências apenas com duas pessoas. Felix Koguzki era uma delas. Homem do povo, com mais de 40 anos, colhia ervas medicinais no campo para vendê-las às farmácias vienenses. O jovem o conheceu no trem. Era um indivíduo simples, que nada sabia de ciências e filosofia. Possuía, porém, uma sabedoria inata e criativa. E uma experiência profunda tanto do mundo natural quanto dos mundos anímico e espiritual. Rudolf tornou-se amigo desse colhedor de ervas, junto do qual sentia estar na presença de uma alma muito antiga, que lhe trazia o saber instintivo de uma época intocada pela civilização.

O segundo interlocutor era ainda mais misterioso. Não conhecemos sequer o nome dele. Sabemos apenas que, sob o disfarce de uma profissão modesta, exercia conscientemente uma missão espiritual. Era grande conhecedor de ciências e filosofia e exerceu uma influência profunda na evolução do pensamento de Steiner. Este já havia estabelecido sua grande meta: religar a ciência e a espiritualidade, reintroduzir Deus na ciência e a natureza na religião e, a partir disso, fecundar de novo a vida e a arte. Seu mestre oculto indicou-lhe o caminho a seguir, a fim de alcançar tal objetivo.

O adversário a ser enfrentado na época era a visão materialista e reducionista do mundo, que dominava o pensamento científico e toda a consciência intelectual da segunda metade do século 19. Se quisesse vencer esse modo de pensar, Rudolf devia começar por conhecê-lo a fundo e reconhecer a parcela limitada de verdade que existia nele. Só então estaria capacitado a falar ao homem moderno nos termos em que este era capaz de compreender.

A edição dos escritos de Goethe

Mergulhou, então, ainda mais fundo no estudo das ciências da natureza. E na vibrante atividade dos círculos intelectuais e artísticos vienenses. Aos 19 anos, conheceu outro homem que exerceria influência decisiva em sua vida: Karl Julius Schröer, poeta e erudito, que lecionava literatura alemã na Escola Politécnica de Viena. Schröer estava trabalhando na edição e comentário da segunda parte do Fausto, de Goethe. Por intermédio dele, Steiner travou contato com a obra e o pensamento do grande poeta alemão.

A conexão de Schröer com a herança goethiana era tão profunda que, quando conversava com seu professor, por horas a fio, Rudolf tinha a sensação de que uma terceira entidade se fazia presente: o espírito do próprio Goethe. Foi por indicação de Schröer que, em 1882, o jovem foi convidado a editar os escritos científicos goethianos. Publicou-os em cinco livros, acompanhados por comentários que mostram o quanto havia progredido em sua própria reflexão filosófica.

Em oposição às idéias científicas de sua época, que concebiam a natureza como um mecanismo frio e sem alma, constituído apenas por matéria em movimento, Goethe (1749-1832) vira o mundo natural como uma totalidade viva e orgânica, impregnada de espírito. Essa visão de mundo coincidia com tudo o que Steiner havia descoberto por experiência própria. Sua grande tarefa foi tornar explícito e sistemático esse pensamento que no texto goethiano é apenas insinuado. Não é exagero dizer que ele a realizou de maneira magistral. Se hoje podemos apreciar as grandes contribuições filosóficas e científicas de Goethe, e não somente o teatro e a poesia dele, isso se deve ao trabalho executado pelo jovem.

Com a edição do último volume dos escritos goethianos, encerrou-se, em1897, aetapa inicial de sua vida. Steiner era agora um homem maduro. Estava pronto para voar muito alto, com suas próprias asas.

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Nota

[1] Este texto foi publicado, inicialmente, como capítulo do meu livro Mestres. A conexão entre a trajetória do jovem Steiner e a obra científica de Goethe me levou a postá-lo, neste Blog, na seção História da Ciência / Perfis.

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