Goethe, homem integral

Goethe, ainda jovem, retratado por Georg Melchior Kraus em 1775, uma década antes de viajar à Itália, onde alcançou a ideia da "planta primordial".


 

“O homem é a síntese de todos os Nomes Santos. No homem, estão contidos todos os mundos, tanto o superior quanto o inferior. O homem contém todos os mistérios, mesmo aqueles que existiram antes da criação do mundo.” (Sepher ha Zohar — O Livro do Esplendor)

 

O homem integral, de que fala o Zohar, está presente no interior de cada homem. De todos os homens. Porém encontra-se, quase sempre, adormecido. Pura potência. Pura latência. Luz encubada nas densas trevas do inconsciente. Mas a potência quer se fazer ato. O grande homem aspira despertar. E, eventualmente, encontra o veio que lhe permite alcançar, ainda que na fugacidade do instante, o plano da consciência. Poucos exemplos desse despertar nos falam tão de perto quanto o do poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Porque ele expressou, em sua obra e em sua vida, toda a ambiguidade, todo o jogo de luz e sombra que caracteriza o humano. Esse humano que é capaz de descer abaixo dos animais e subir acima dos anjos. Esse humano que rouba o fogo dos deuses e traz, no peito, um pouco do céu e do inferno também.

 

Sua produção como poeta e dramaturgo é conhecida. Com apenas 25 anos, a publicação do romance Os sofrimentos do jovem Werther o transformou na voz da nova geração. A conclusão da primeira parte de Fausto, aos 41 anos, consagrou-o como um dos maiores escritores de todos os tempos. E ele continuaria a lutar com seu gigantesco tema até os 82 anos, quando concluiu, praticamente às vésperas da morte, a segunda parte do Fausto.

 

Menos conhecida, mas não menos importante, foi sua realização como cientista. Por isso, interessa-nos enfatizá-la aqui. Realizou pesquisas em campos tão variados como a óptica, a geologia, a mineralogia, a botânica e a zoologia. Fez descobertas importantes, como a do osso intermaxilar no crânio humano. E elaborou uma teoria das cores alternativa à do grande Isaac Newton (1642-1727). Na articulação dessas realizações isoladas, destaca-se sua visão da natureza. Pois, no contrafluxo da ciência dominante na época, ele a concebeu como uma totalidade orgânica e viva, em profunda conexão com o mundo espiritual, e não como um mecanismo frio e sem alma, constituído apenas por matéria em movimento.

 

No momento presente, em que a ciência busca novos paradigmas, a visão goethiana da natureza adquire inesperada atualidade. Suas derradeiras palavras são o resumo da busca que conferiu sentido a toda uma vida: “Mais luz!”.

 

Ressonância que desafia o tempo

 

O enfoque organicista e espiritualista de Goethe levou-o a considerar o crânio como um desenvolvimento das vértebras; e a ver todos os órgãos vegetais como metamorfoses do princípio espiritual expresso pela folha. Essas concepções ousadas, que foram tratadas com incompreensão e desprezo pela corrente dominante na ciência, só seriam resgatadas, meio século depois de sua morte, graças ao trabalho de Rudolf Steiner (1861-1925), o criador da antroposofia.

 

Em 1882, com apenas 21 anos de idade, Steiner foi convidado a editar os escritos científicos de Goethe. Reuniu-os em cinco livros, que abordam uma grande variedade de temas. As introduções que redigiu — de espantosa profundidade filosófica para um autor tão jovem — fazem aquilo que o próprio Goethe sempre evitou fazer: pensar sobre o pensamento. Elas explicitam uma visão de mundo que nos escritos goethianos permanece implícita e nos permitem captar-lhes as linhas mestras.

 

Há vários exemplos de grandes almas que se complementam, como se fosse necessária tal cooperação para que uma voz maior pudesse falar. O encontro de Rumi e Shams [narrado, neste Blog, na seção Espiritualidade / Mestres] é um caso notável. Mas a convergência torna-se ainda mais instigante quando os protagonistas não desfrutam o benefício do contato pessoal, por viverem em épocas distintas. Observa-se, então, uma ressonância anímica que parece desafiar a barreira do tempo. O “diálogo” de Steiner e Goethe foi um evento dessa magnitude.

 

Arquétipo e metamorfose

 

Em todos os domínios da realidade, Goethe trabalha com dois conceitos básicos: arquétipo e metamorfose. São os arquétipos ou ideias universais que conferem coerência à natureza. É a metamorfose desses princípios espirituais que produz a enorme variedade das formas individuais encontradas no mundo.

 

Vejamos como o próprio Goethe utiliza esses conceitos para estabelecer a relação entre o crânio e as vértebras. “O cérebro representa somente uma massa da medula espinhal aperfeiçoada ao máximo grau”, escreveu em 1789. “Na medula terminam e começam os nervos que estão a serviço das funções orgânicas, ao passo que no cérebro terminam e começam os nervos que servem às funções superiores, principalmente os nervos dos sentidos. No cérebro surge desenvolvido aquilo que está indicado como possibilidade na medula espinhal”. E continua: “O cérebro é uma medula perfeitamente desenvolvida, ao passo que a medula espinhal é um cérebro que ainda não chegou ao pleno desenvolvimento. Ora, as vértebras da coluna contornam, como um molde, as várias partes da medula, servindo-lhe como órgãos envoltórios. Parece então altamente provável que, se o cérebro é uma medula espinhal elevada ao máximo grau, também os ossos que o envolvem sejam vértebras altamente desenvolvidas”.

 

As vértebras e o crânio seriam metamorfoses de um mesmo princípio arquetípico, que encontra expressão na natureza, mas, em si mesmo, pertenceria a uma instância superior, espiritual, da realidade. As afinidades com o pensamento de Platão (427-347 a.C.) e de seus sucessores neoplatônicos (séculos 3º ao 6º D.C.) saltam aos olhos. Todavia, Goethe parece ter chegado a esse enfoque menos pela especulação filosófica do que por uma observação muito atenta e despreconceituosa da natureza.

 

Mais do que em qualquer outro campo, foi na botânica que sua abordagem alcançou as melhores realizações. Ele as expressou no texto A metamorfose das plantas, publicado em 1790, o mesmo ano da primeira edição do Fausto.

 

A planta primordial

 

A ideia começara a germinar em sua mente uma década e meia antes. Pois foi por volta de 1776 que fez contato com a classificação dos vegetais realizada pelo naturalista sueco Carl von Linée, o célebre Lineu (1707-1778). Esta se baseava exclusivamente nas características exteriores, que diferenciam uma planta de outra, e não em qualquer princípio interno unificador. Goethe não podia concordar com tal redução. Ele intuía a existência de “algo” que fazia uma planta ser uma planta e estava presente em todas as plantas individuais.

 

Para captar esse “algo” era preciso observar a mesma planta sob as mais variadas condições e influências. Sua famosa viagem à Itália, iniciada em 3 de setembro de 1786, permitiu-lhe estudar a flora dos Alpes e verificar as numerosas transformações provocadas pelos fatores geográficos em cada ente vegetal. Observou como as formas se modificavam à medida que subia a montanha. E, em Veneza, perto do mar, constatou como eram alteradas pelo solo e o ar salinos. Ficou claro que a essência da planta não podia ser encontrada em suas características externas, sempre mutáveis, porém em um nível mais profundo de realidade.

 

Seus sentidos estavam aguçadíssimos e sua inteligência parecia ter alcançado a potência máxima. No jardim botânico de Pádua, em meio à vegetação exuberante, irrompeu-lhe finalmente na consciência o pensamento de que todas as formas vegetais poderiam ser desenvolvidas a partir de uma só forma. Era a idéia da Urpflanze, a planta primordial.

 

Esse arquétipo, essa realidade puramente espiritual, não pode ser encontrado em nenhum lugar do mundo físico. Mas se manifestaria, parcialmente, em cada planta individual. E suas transformações dariam origem à extrema variedade de entes vegetais. Todas essas metamorfoses decorreriam das leis formativas presentes na planta primordial. Não são as influências exteriores que transformam o arquétipo; elas apenas fazem com que suas forças plasmadoras internas se manifestem de um modo peculiar. São essas forças — e somente elas — o princípio constitutivo da planta.

 

Ao conceber a Urpflanze – escreveu Steiner – Goethe reproduziu mentalmente o trabalho que a natureza realiza ao formar seus seres. Era preciso ser tão cientista quanto poeta para realizar tal façanha.

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Nota

Este texto foi publicado, originalmente, como capítulo do meu livro Mestres.

 

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1 comentário

  1. O jovem Johann Wolfgang von Goethe,centro de um grupo radicado nas margens do Reno,
    que o movimento irracionalista atinge sua plenitude.Filho de rica família patrícia de Frankfurt,
    após sua juventude,passada em sua cidade natal,às portas da França,onde,foi profunda –
    mente marcado pela cultura francesa .Após sua permanência,como estudante,em Leipzig,
    “pequena Paris”,em que se afrancesou ainda mais (1765-1768),Goethe voltou ao aprisco e
    passou por uma crise de pietismo,devido à influência da Srta.Klettenberg,sua enfermeira,
    sua “boa alma”.Em Estrasburgo(1770-1771)readquiriu,graças a Herder,o senso da tradição
    popular e “puramente alemã”.A Alsácia despertou-lhe a paixão pela arte gótica.
    De volta à cidade natal,escreveu as obras-primas da juventude:o drama Goetz de Ber-
    lichingen,muito Shakespeariano,e Os Sofrimentos do jovem Werther (1774),transposição
    para o registro germânico da Nova Heloísa de Rousseau.É a história do amor infeliz e do
    suicídio de Werther,que morre por não poder dobrar a sua sensibilidade excessiva às exi-
    gências rígidas da realidade.
    Nesta época redigiu,provavelmente,o primeiro esboço do Fausto.
    Homem dos mais completos,Goethe foi provavelmente o mais universal dos gênios que a
    humanidade já produziu:além de poeta eminente em todos os gêneros,pintor,jurista,esta-
    dista,ator,diretor de teatro,botânico,geólogo,anatomista e físico.A sua existência pessoal,
    de prodigiosa riqueza,alimenta uma vasta produção de valor geral em que todos os pro-
    blemas fundamentais da existência são abordados.Grato pela oportunidade!

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